FRATERNIZAR – Guiné-Bissau: FIRKIDJA DI SKOLA – por Mário de Oliveira

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Que tipo de Educação pode resultar duma parceria com Fundação da Conferência Episcopal Portuguesa?

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Dá pelo nome de “ Fundação Fé e Cooperação”. É da CEP-Conferência Episcopal Portuguesa. Já está a trabalhar em parceria com o Ministério da Educação da Guiné-Bissau, juntamente com a Delegacia Regional de Educação de Gabú, ponto de partida para chegar um dia a todo aquele país africano que, durante séculos, foi, como se sabe, colónia de Portugal. As Missões católicas também por lá andaram, nesse então. Ainda andam. Os pecados cometidos por elas são mais do que muitos. Pode a igreja crismá-los de virtudes, de actos de extrema abnegação. Virtudes serão e actos de extrema abnegação, mas a favor de uma das partes, precisamente, a própria igreja católica romana, o sistema eclesiástico.

 Os povos africanos, os povos latino-americanos, esquecem, para seu mal, que já foram colonizados/catequizados por países do Ocidente, respectivas empresas missionárias. Esquecem, igualmente, que a igreja católica romana constitui um estado, o Vaticano, diminuto em território, ambicioso em conquista, nada menos que o domínio do mundo inteiro. Todos os estados, onde estiver actuante a igreja católica romana, são, de algum modo, o Vaticano alargado até essas paragens. Não ver/admitir esta realidade, é ingenuidade política. Pior, cegueira política. Digo-o com dor. Para que não confundamos mais, igrejas cristãs, católica romana ou protestantes, com Jesus, Movimento político maiêutico de Jesus. Nem Evangelho de S. Paulo, com Evangelho de Jesus.

As Missões são a via larga por onde o poder de Roma – cristianismo é poder monárquico absoluto, é bom não o esquecer – entra em países onde ainda não está presente. O adjectivo “católico” significa “universal”. Poder universal, habilmente mascarado de salvador, para melhor ser acolhido, até desejado. As grandes carências, a que estão votadas/condenadas as populações das múltiplas nações do mundo fazem o resto. Todas aspiram por um salvador que venha de fora, as resgate, transporte para um paraíso, nem que seja apenas depois delas morrerem. É precisamente o que anunciam as igrejas cristãs – um salvador, messias, cristo. Não recorrem a armas nem a combates bélicos para dominarem as populações. Basta-lhes dominar as suas mentes-consciências. Uma vez ganhas, estas, tudo o mais vem por acréscimo. A advertência maior, a este respeito, vem do próprio Jesus Nazaré, que o cristianismo converteu em cristo/messias/salvador, sob a designação de Jesuscristo, ou, simplesmente, Cristo. Não, não são sinónimos. São antónimos!

É bom que a Guiné-Bissau tenha bem presente estas coisas. Poderá gostar de continuar a ser colonizada, catequizada, a troco de alguns pratos de lentilhas, traduzidos em “ofertas” de livros, medicamentos, alimentos, géneros alimentícios, escolas, donativos. Os séculos de obscurantismo, de miséria, de abandono, de exploração já foram muitos. Infelizmente, o pós-colonialismo não tem sido libertador/humanizador, como prometia. Não que as populações africanas, com realce, para as da Guiné-Bissau, não sejam tão ou mais capazes do que as que integram os países do Ocidente. O colonialismo/cristianismo é que ainda não foi erradicado das suas mentes-consciências. Porventura, não será tão cedo. As catequeses, as escolas católicas ou protestantes veiculam uma ideologia/teologia que não é expulsa por decreto, nem por formais proclamações de independência política. Enquanto essa ideologia/teologia não for erradicada, o mais que as populações de lá ou de qualquer outra parte do mundo conseguem, é mudar de tiranos, não acabar com a tirania. Elas próprias são levadas a aclamar hoje quem amanhã as vai tiranizar, tal como sucedeu no passado.

Resgatar as mentes-consciências; expulsar delas a ideologia/teologia do cristianismo/colonialismo; aceitar crescer de dentro para fora, até assumir os próprios destinos nas mãos, em reciprocidade maiêutica, eis o que se espera da acção de Educar, da Educação. Pode a igreja católica, para cúmulo, no âmbito da CEP, como é a Fundação Fé e Cooperação, ser parceira num projecto de Educação erradicador da pobreza estrutural, em que sobrevive a esmagadora maioria da população da Guiné-Bissau? Eis a questão de fundo que urge levantar. A que urge responder. Por mais que custe a quem está apostado neste projecto. De contrário, o parceiro que vem de fora, do antigo colonizador, pode ser, rapidamente, o “dono disto tudo”, porque o acto de Educar faz-se sobretudo nas mentes-consciências das populações que, nesta altura, ainda têm nos genes as catequeses dos séculos de colonialismo, de catequeses cristãs, corânicas, partidárias.

Dá para desconfiar que o projecto se defina de forma sofisticada, para ser entendido por muito poucos, porventura, apenas por quem o crismou de “Projecto FIRKIDJA DI SKOLA/Descentralização da gestão de dados de educação”. Frases complicadas, o que visam esconder? Localmente, a primeira parte do nome do projecto pode até soar bem, graças ao recurso a palavras provenientes da fala materna. Maior tem de ser o alerta. Não são fiáveis, até prova em contrário, as potências/instituições que, durante séculos, foram colonialistas. Pior, se continuam a ser colonialistas, sob o disfarce do cristianismo, católico romano, ou protestante, ou islâmico/corânico. A acção de Educar é, sem dúvida, a mais suprema das artes. Pelos frutos que produz se conhece, se é usada para o pleno e integral desenvolvimento humano, de dentro para fora de cada pessoa, de cada comunidade, ou, pelo contrário, se é usada para manter castradas as pessoas, as comunidades.

 Nos dolorosos/criminosos anos da Guerra Colonial, de má memória, fui obrigado a ser capelão militar em Mansoa, a 60 kms de Bissau. A minha postura presbiteral maiêutica, nos antípodas das catequeses cristãs, próprias de todo o poder, valeram-me depressa a rejeição do comando do Batalhão de Caçadores 1912, meses de Novembro/Dezembro 1967, Janeiro/Fevereiro 1968. Acabei expulso, dia 1 de Março, se bem que só pudesse viajar para Lisboa dia 8 desse mês, quando houve lugar no voo semanal. Foram apenas quatro meses, em vez dos 24 meses da comissão de serviço. Porventura, os mais marcantes, os mais reveladores ou apocalípticos do meu ser-viver de presbítero da igreja do Porto. A marca de Humanidade que nos faz outros Jesus, agora, terceiro milénio, tornou-se indelével em mim, desde então. Em contínua fase de crescimento/expansão, como sucede com o universo, desde o Big-Bang. Vi com os meus próprios olhos o Pecado Organizado, Institucionalizado, Estruturalizado. Vi a Dor dos Povos africanos. Ouvi os seus gritos, quase sempre feitos de silêncios, de olhares tremendamente interpeladores, acusadores, que nunca mais se descolam de mim. Posso testemunhar, sem o risco de ser intelectualmente contraditado, que deste Pecado Organizado, faz também parte a igreja católica romana, por indicação da qual, fui requisitado para capelão militar.

 Já então – recordo como se fosse hoje – as Missões eram grandes empresas transnacionais. O Bispo da Guiné era de proveniência italiana, assim como vários dos seus clérigos. Os padres franciscanos portugueses também actuavam no terreno, a coberto da Pide, em cooperação com ela. Era padre franciscano português o missionário residente em Mansoa, onde estava sediado o Quartel do Batalhão 1912, cercado de arame farpado. Viu rebentar a Guerra e escolheu ficar para abençoar a tropa portuguesa que, segundo a propaganda de então, ia para lá em “missão civilizatória”. Mas armada até dizer basta, inclusive, com aviões militares que os guerrilheiros não possuíam. Já então as Missões educavam/catequizavam/dominavam. Para sua vergonha. Porque mais não faziam, como ainda mais não fazem, do que ocidentalizar as populações, tirá-las do Corão para as entregar à Bíblia judeo-cristã. Nunca choraremos bastante semelhantes crimes que, pelos vistos, vão continuar, caso este Projecto vá por diante no terreno. Alerta, Guiné-Bissau! Alerta, povos das nações! É de Jesus Nazaré, o alerta.

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