CARTA DE ÉVORA – Ser Poeta… – por Joaquim Palminha Silva

«Ser poeta e ser mais alto, é ser maior

Do que os homens.

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É ter fome, é ter sede de infinito!

[…]», – Florbela Espanca, in Charneca em Flor, 1929.

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                Ser poeta é viver num estado de santidade pagã!

            Não importa que tipo de poeta se seja. Desde os simples e espontâneos poetas populares, até aos sofisticados e intelectualizados “poetas de livraria e estante”: – Todos vivem esta “santidade”!

            Tal e qual os santos, os poetas não mergulham no quotidiano da mesma forma que as demais pessoas. Há neles uma certa deformidade na visão do mundo e das vidas humanas que os faz adivinhar no real a fantasmagoria, o impensável, o paradoxo e a deformidade que há na beleza convencional, e a alegria que há na tristeza…

            Todos os poetas dormem com a porta da alma aberta, sem medo dos ladrões que vivem na proximidade das letras, prontos a furtarem palavras inéditas, imagens douradas, metáforas de luz cristalina… Mas pergunte-se, fazem-no inconscientemente? – Na verdade, ninguém pode roubar a um poeta o “desastre” da sua santidade! Ninguém o inveja a tal ponto u lhe queira roubar as proximidades do abismo em que vive, da agonia que lhe é indispensável, da insegurança que lhe serve de abrigo…

            O poeta, normalmente, morre do muito uso que dá de si, poema a poema. A santidade cobra-lhe uma exorbitância de tempo de vida, dando-lhe em troca a maternidade da inquietude!

            Ninguém escolhe ser poeta, tal como ninguém escolhe ser santo. – Acontece!

            O poeta nasce impregnado de poesia e envolvido nela vive, tal doença incurável que o encaixilha no mundo, desenhando-lhe sobre os olhos um véu transparente… Véu que ensopa, com o seu colorido, a paisagem que o circunda, que o faz ver o que outros não vêm.

            Desenhando-se palavra a palavra, o poeta leva algum tempo a esvair-se, porque agarrado à sua condição cismática, entorpecido pelos rasgões de luz que só ele avista na rotina deslavada, e o golpeiam em profundidade e em dor…

            Todas as cambiantes autoriza o véu, fazendo do olhar do poeta uma mágica de explosões, um desgrenhamentos de ideias, uma série de êxtases imprevistos. Há na vida do poeta um cenário irreal que a realidade admite, como só aos santos é possível alcançar!

            Ser capaz de intuições para lá da intuição dos sábios, o poeta vive na “outra banda” do mundo, e vêm para o meio de nós pregar os gritos que ninguém ouve, falar das sofridas agonias que ninguém vê, apontar luz amorosa que se suspende, com receio de penetrar nas entranhas da alma humana, pois esta engrossou a sua ferocidade…

            Tal qual os santos, o poeta não cessa de bater nas vidraças da banalidade, até que a noite trágica do mundo o silencia, quando por fim consegue assassinar-lhe a palavra e o canto!

            Porém, a sua voz nunca mais acaba, nasce de novo! E, num dado momento, outro poeta surge cm o mesmo véu sobre os olhos para ver o que ninguém vê. – E o poeta diz outra vez tudo com um som original! – As fisionomias do amor e da morte, os objectos, a cor, a luz… A sua voz e o seu canto crescem! O que foi eco quase extinto, aumenta, tornando-se clamor, chamando os homens…

            Sem ter culpa que esse estado aborreça os homens, ser poeta é ser possuído por uma santidade pagã… E, em vida, pagar caro por isso!

 

 

 

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