A IDEIA – RADICALIDADE ESTÉTICA E RADICALIDADE POLÍTICA – [três perguntas a MANUEL VILLAVERDE CABRAL] – por António Cândido Franco

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[Manuel Villaverde Cabral nasceu circunstancialmente em Ponta Delgada (1940),

passou infância e juventude em Lisboa, frequentou a ESBAL,

passou pelo café Gelo, em 1963 exilou-se em Paris.

Dele recolhemos o testemunho que se segue relativo ao período anterior ao exílio.]

A sua chegada ao café Gelo, em Lisboa, no Rossio, deu-se em que altura?

Eu não posso de forma alguma dizer que “cheguei” ao Grupo do Gelo, que na minha memória está sobretudo associado ao grupo do Cesariny. Ora, eu nunca pertenci a tal grupo nem tinha “cabidela” para isso. Devo ter passado por lá duas ou três vezes no final dos anos 50-início dos 60, quando eu tinha os meus vinte anos. Lembro-me de aperceber o velho Raúl Leal, nem sei se sentado à mesa ou apenas passando por ali, e de ver o Cesariny e o Goulart Nogueira numa conversação de índole abertamente erótica e da qual eu mal entendia o que se tratava. Naturalmente, nem abri a boca para me meter na conversa. Devia estar sentado respeitosamente longe deles…

 Com quem mais conviveu no grupo que por lá então se reunia?

Quem seguramente me terá levado por lá foi o desenhador João Rodrigues, juntamente com outros quasi-contemporâneos meus como o João César Monteiro e possivelmente o Adriano de Carvalho, que era um jornalista nosso amigo e inspirador (de quem o César fala no seu primeiro livro, Corpo Submerso de 1959). Conhecíamo-nos todos da pequena boémia à volta, concretamente, dos colaboradores da revista de cinema Imagem, naquela Lisboa longínqua e estranha, entre o Chiado, o Rossio, os Restauradores e o Rato, que frequentei desde que entrei (e saí pela mesma porta) para a ESBAL no início de 1958 até fugir para França em 1963.

Consegue individualizar no grupo a figura do poeta Manuel de Castro?

Infelizmente, não. Não me lembro de o ter visto e muito menos falado. Aliás, isso passou-se com todo esse grupo até encontrar alguns deles em Paris, em especial o José Manuel Simões, que era amigo do Fernando Gil que, sei hoje, terá frequentado o Gelo com o Helder Macedo, antes de irem ambos também para fora.

 Lembra-se dalguma história passada no grupo que valha a pena contar?

Além das fugazes memórias que relatei, não me recordo de mais nada. Quem possivelmente também me terá chamado a atenção para aqueles grupos literários foi um amigo de Oeiras, que reencontrei depois em França, chamado Fernando Barros, autor ele próprio de um livro de poemas, tanto quanto sei sem continuidade, mas que fugiu para França por estar ligado à chamada FAP-Frente de Acção Popular… O que ligou o Gelo, desde Cesariny e a geração de Manuel Castro à minha e à dos amigos que citei (e outros), foi um radicalismo estético que, apesar do controle que o Partido Comunista exercia sobre nós, desde logo sobre mim, já então admirávamos e que, por seu turno, contribuiu para tomarmos um pouco mais tarde (a partir de 1964-1965) posições políticas fora do PCP e, críamos e queríamos nós, à “esquerda” dele. Esta questão da ligação entre estética e política nas décadas finais do fascismo português ainda está bastante por estudar em Portugal e o Gelo faz parte dessa história tão importante para uma geração como a minha!

Abril de 2014

 

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