PENSAR A ÁGUA COMO O NOSSO PRINCIPAL BEM por clara castilho

Temos tido como certo a presença da água nas nossas vidas. Pagamos mensalmente uma quantia pela que gastamos e não nos preocupamos muito com isso. Mas esse tempo acabou.

agua

Falar de “água” não é só a que bebemos e a de que nos servimos no dia a dia. Falar de água é também falar de direitos da água (ou seja, o direito de aproveitar as águas subterrâneas, os aquíferos e os rios), de terras que contém extensões de água (lagos, lagoas e mananciais naturais na superfície ou águas subterrâneas), projectos de dessalinização, de purificação da água e tecnologias de tratamento, tecnologias de irrigação e perfuração de poços, empresas de serviços públicos de saneamento de água , etc.

Pensemos que no que respeita à água potável, todas as crianças merecem água limpa. No entanto, mais de 1 600 crianças, com idades inferiores a 5 anos, morrem todos os dias de diarreia causada pela água sem condições. Este número é superior às mortes de SIDA e malária juntas. Água limpa, condições sanitárias básicas e educação para a higiene são algumas das mais efectivas medidas para prevenir a doença das crianças e a sua morte.
Por exemplo, na Zâmbia, crianças têm que andar 3 km, 3 vezes por dia, em vez de irem à escola, para conseguir um pouco de água semi-potável.

Pensemos na cidade de São Paulo onde a falta água e o seu racionamento pode afectar cinco milhões de habitantes. Diz-se que o problema vem de infra-estruturas de abastecimento e pela seca que dura há já um ano. E isto porque a principal barragem de abastecimento a São Paulo está apenas 6-7% da sua capacidade, quando em Maio de 2013 estava a mais de 60%. Os mais pobres já são afectados, dado que não têm reservatórios e dado que a água já só pinga das torneiras.

Pensemos em que detém o controlo dos serviços públicos de água e saneamento privatizados. Nos últimos quinze anos, 180 cidades de 35 países, recuperaram esse controle. É o que pode ler-se no documento elaborado por três organizações internacionais, o Instituto Transnacional (TNI), o Observatório das Multinacionais e a Unidade de Pesquisa de Serviços Públicos (PSIRU), publicado em Novembro de 2014, sobre a distribuição da água. Este relatório é o primeiro mapa global sobre a remunicipalização da água no mundo e vem confirmar a tendência de regresso ao poder público destes serviços públicos essenciais. As razões mais apontadas são os problemas provocados pela gestão privada cujo objectivo é a obtenção de lucro máximo: falta de transparência, corrupção, aumento brutal dos preços, insuficiência de investimentos, degradação da qualidade dos serviços.

Das cidades que remunicipalizaram os serviços estão 81 cidades de países desenvolvidos, entre as quais estão Berlim, Budapeste, Joanesburgo, Accra, La Paz, Buenos Aires, Kuala Lumpur, Maputo ou Atlanta. O relatório indica que durante este mesmo período de tempo, apenas algumas cidades de países em desenvolvimento seguiram o caminho inverso: Yeda, na Arábia Saudita e Nagpur, na India.

Pensemos no facto de os grandes bancos estarem comprando água pelo mundo inteiro e no facto de os governos se estarem movendo para limitar a capacidade dos cidadãos de serem auto-suficientes no abastecimento de água.

Pensemos no caso do Oregon, EUA que autuou Gary Harrington por coletar de água da chuva em três lagoas situadas em seu terreno privado, condenando-o com 9 acusações e 30 dias de prisão.

Pensemos no multimilionário T. Boone Pickens, proprietário dos direitos da água do aquífero Ogallala, o que lhe permite drenar aproximadamente 200.000 acre-pés (ou 65 bilhões de litros de água) por ano, sem que ninguém o condene por isso.

Pensemos que já há uns anos a cota de mercado no sector da água tem cada vez mais importância e valor no mercado pois é identificada como um bem fundamental, muito mais crucial e importante do que o petróleo ( Goldman Sachs: “A água será o próximo petróleo” e UBS: “A escassez da água é a crise definitiva do século XXI”).

Será que temos que transformar indignação em acção? Foi o que fez o Movimento Gota D’ Água, no Brasil que assumiu como missão sensibilizar a população para causas sociais e ambientais utilizando ferramentas de comunicação em multiplataforma. Que iremos nós fazer?

2 Comments

  1. Sendo esta verdade assustadora ,faz-me recordar a Letra do Fado de Mueda (Norte de Moçambique) ,que dizia com graça ,mas triste : …. onde a Água das Pedras é mais cara que a gasolina . O grande interesse das multinacionais pela Água não é inocente trás “água no bico”. Estejamos atentos ,é muito importante.

Leave a Reply