A NOSSA RÁDIO – EM MEMÓRIA DE MANOEL DE OLIVEIRA – CONCLUSÃO . por Álvaro José Ferreira

Imagem2Capa da edição videográfica (VHS) do filme “‘Non’, ou a Vã Glória de Mandar” (Atalanta Filmes, 1992)

Capa da edição videográfica (DVD) do filme “‘Non’, ou a Vã Glória de Mandar” (Madragoa Filmes, 2001)Imagem3

Imagem4Capa do CD “‘Non’, ou a Vã Glória de Mandar: Banda Sonora Original” (Editions Milan Music, 1990)

“Douro, Faina Fluvial” (1931) – versão de 1994, com música original de Emanuel Nunes
[Versão com música original de Luís de Freitas Branco >> aqui]

Sinopse: A azáfama da zona ribeirinha da cidade do Porto é ilustrada tendo o rio Douro como personagem central, como pano de fundo. Homens, mulheres e crianças, gente humilde, agitam-se no confronto com ele, convergindo num só rosto. O retrato dentro de retrato dá-nos a ver o lugar no tempo e o seu ambiente humano.

“Hulha Branca” (1932)

Sinopse:
Filmado com a mesma câmara e os restos de película de “Douro, Faina Fluvial”, retrata a inauguração da Central Hidroeléctrica de Ermal, no Rio Ave. A central foi fundada em Janeiro de 1932, pelo pai de Manoel de Oliveira, Francisco José de Oliveira, um industrial que soube enxergar antecipadamente a importância da energia eléctrica numa época em que ela era ainda considerada um luxo. Foi o primeiro fabricante de lâmpadas eléctricas em Portugal. Após a sua estreia comercial em 1938, “Hulha Branca” foi considerado um filme perdido. Só voltou a circular em 1998, após o seu restauro pela Cinemateca Portuguesa.

“Já se Fabricam Automóveis em Portugal” (1938)

Sinopse:
Reflexo da paixão automobilística do cineasta, que na juventude participou de corridas de automóveis, inclusive no Brasil, o filme retrata a tentativa de fabricação de um novo modelo da fábrica Ford na cidade do Porto. O modelo fora especialmente criado por Eduardo Ferreirinha, o Ed, e chamava-se justamente Edfor em sua homenagem. Ferreirinha, que fora o criador dos três automóveis em que Manoel de Oliveira competiu, criou este novo modelo usando um motor Ford, um chassis modificado e uma carroçaria própria. Foi ao volante de um destes carros que o cineasta venceu uma prova em 1938, a II Rampa do Gradil.

“Famalicão” (1941)

Sinopse:
Origens lendárias de Vila Nova de Famalicão, centro de comunicação rodoviária e ferroviária entre várias localidades do Norte. As alegres e pitorescas ruas. Acontecimentos registados nos jornais da terra. Edifícios: Hospital da Misericórdia, Câmara Municipal, Monumento a Camilo Castelo Branco, em S. Miguel de Ceide. Trabalho nos campos. Igrejas. Os arredores românticos. Indústrias de fiação e tecidos, de botões e de relógios (única na Península). Aspectos típicos: vindimas, malhadas, feiras.

“Aniki Bóbó” (1942)
Baseado no conto “Meninos Milionários – O Jogo dos Polícias e dos Ladrões” (1935), de João Rodrigues de Freitas.

Sinopse:
A primeira longa-metragem de Manoel de Oliveira, segundo o conto de Rodrigues de Freitas, “Meninos Milionários”, em cópia restaurada. O título é a invocação de um jogo infantil para dividir os que serão “polícias” e “ladrões”. Uma belíssima incursão no mundo da infância que é, simultaneamente, um documento excepcional sobre a cidade do Porto no começo da década de 40.

“O Pintor e a Cidade” (1956)

Sinopse:
O pintor deambula pelas ruas do Porto e representa nas suas aguarelas aquilo que vai observando: os prédios, as crianças, as pessoas que se deslocam entre casa e trabalho, o bulício da cidade…

“O Pão” (1959)

Sinopse:
O pão de cada dia obriga a um esforço constante, de que o homem sai dignificado… O ciclo da semente: fecundação, nascimento, recolha, transporte do grão, moagem industrial, panificação moderna, distribuição e consumo do pão. Regresso da semente à terra. Um novo ciclo se inicia…

“Acto da Primavera” (1963) [excerto]
Representação popular do “Auto da Paixão”, de Francisco Vaz de Guimarães (séc. XVI), na aldeia da Curalha (concelho de Chaves).

Sinopse:
Representação da Paixão de Cristo numa aldeia de Trás-os-Montes, também mostra, de modo magistral, a imperceptível passagem do quotidiano à representação do sagrado e o regresso ao quotidiano. Dois filmes em que ritual e teatro, de certa forma, se confundem.

“A Caça” (1964)

Sinopse:
Dois rapazes desocupados deambulam pelo campo. Simulam a caça (mas não têm espingardas), emaranham-se, perdem-se de vista, até que um deles cai no pântano, começando a afundar-se lentamente. O amigo grita por socorro. Vários homens mobilizam-se, e vão acudir. Vão dar com ele coberto de lama preta, enterrado. Só a cabeça de fora, continua a gritar. É preciso fazer um cordão humano para o tirar dali. Mas esta cadeia de solidariedade rompe-se porque os salvadores começam a discutir entre si. Um homem berra para lhe darem a mão e estica o seu braço: é maneta.

“As Pinturas do Meu Irmão Júlio” (1965)
Com versos e comentários de José Régio; música original de Carlos Paredes.

Sinopse:
Obra documental, dedicada ao pintor Júlio Reis, irmão do escritor José Régio, que se torna, a partir daqui, um frequente colaborador de Manoel de Oliveira. O fio condutor está nas memórias de José Régio, reconstituindo a figura do irmão a partir das lembranças de sua convivência na casa em que nasceram e onde estão guardados muitos dos seus quadros.

“O Passado e o Presente” (1972)
Baseado na peça de teatro homónima (1971), de Vicente Sanches.

Sinopse:
Os ridículos, a incoerência, o parasitismo da alta burguesia. Tudo gira em torno do desprezo de Vanda, uma jovem mulher, pelos vários maridos em vida, e a mórbida veneração que lhes dedica, uma vez viúva. O resultado desta perpetuação do luto é, entre outros, que Vanda não tem vida sexual (a ameaça fálica é assim evitada de cada vez).

“Benilde ou a Virgem-Mãe” (1975)
Baseado na peça de teatro homónima (1947), de José Régio.

Sinopse:
No Alentejo, numa grande casa isolada, suspeita-se que a filha dos proprietários, Benilde, está grávida. O médico, chamado em segredo pela governanta, Genoveva, confirma o seu estado de gravidez. Mas Benilde jura que não conheceu homem algum, e que se está à espera de um filho é por vontade de um anjo de Deus. Um vagabundo circunda a casa, com uivos tremendos, sem nunca ser visto. A convicção de Benilde da intervenção divina, perturba todos à sua volta, particularmente a sua tia que procura explicações mais razoáveis. Benilde anuncia a Eduardo, seu noivo, destruído pelos factos, que vai morrer em breve. Na hora da morte diz-lhe que em breve se encontrarão.

“Amor de Perdição” (1979)
Baseado no romance homónimo (1862), de Camilo Castelo Branco.

Sinopse:
No início do século XIX, Simão Botelho e Teresa de Albuquerque, pertencendo a duas famílias rivais, amam-se apaixonadamente. Teresa está prometida a um primo seu, Baltazar Coutinho. A jovem decide entrar num convento. Simão mata Baltazar e é preso. O pai, magistrado, recusa-se ajudá-lo por não lhe perdoar amar a filha do seu pior inimigo. Das respectivas celas, Simão e Teresa correspondem-se por escrito, com a ajuda de Mariana (uma jovem criada que ama secretamente Simão). Condenado à morte, Simão é indultado e enviado para o exílio. No Porto, embarca para a Índia e despede-se de Teresa que, ao longe, lhe acena um último adeus, pelas grades da janela da sua cela, na torre do convento. Teresa cai morta nos braços da camareira. Simão morre na viagem, poucos dias depois. No funeral, a bordo, Mariana, que o seguia para o desterro, atira-se ao mar para se agarrar ao seu cadáver e com ele morrer.

“Francisca” (1981)
Baseado no romance “Fanny Owen” (1979), de Agustina Bessa-Luís.

Sinopse:
«”Amor de Perdição” deu a Manoel de Oliveira o texto da nossa realidade romântica. O texto de Agustina Bessa Luís, “Fanny Owen”, o pretexto de evocar a ficção dessa realidade. O resultado é o mais belo, sumptuoso e delicado filme do cinema português… História impossível, como são as histórias reais de dois seres de ficção em busca de um pouco de realidade, vítimas coniventes da ficção sem inocência de Camilo… “Francisca” não é apenas a prova de maturidade de um grande cineasta… O seu reino (de Manoel de Oliveira) é outro: a sedução da obscuridade luminosa da paciência.» (Eduardo Lourenço)

“Nice – À Propos de Jean Vigo” (1983)

“Lisboa Cultural” (1984)

Sinopse:
Um filme sobre a cidade de Lisboa, nas suas múltiplas dimensões culturais, as quais abrangem o cruzamento de raças, de povos, de hábitos, de costumes. Um centro cosmopolita que, para além das pessoas, dá ênfase ao património arquitectónico, assim como a uma série de lugares da capital portuguesa.

“Le Soulier de Satin” [“O Sapato de Cetim”] (1985)
Baseado na peça de teatro homónima (1929), de Paul Claudel.

Sinopse:
Durante o Século de Ouro espanhol, Doña Prouhèze, mulher de um nobre, ama profundamente Don Rodrigo. Este é forçado a deixar Espanha, rumando à América – onde será vice-rei –, e o rei impõe a Doña Prouhèze reger a cidadela de Mogador, em África. Prouhèze manda uma carta a Don Rodrigo, mas este só a lê dez anos depois. Deixando o Novo Continente, Rodrigo chega a Mogador, para reencontrar Prouhèze, que acaba por morrer enclausurada na fortaleza. Passados dez anos, Rodrigo, que ficou mutilado, conhece Sept-Epées, a filha de Prouhèze.

“Mon Cas” [“O Meu Caso”] (1987)
Baseado na peça de teatro “Mário ou Eu-Próprio – O Outro” (1957), de José Régio.

Sinopse:
Pouco antes do início de uma representação teatral, um desconhecido entra em cena para expor o seu próprio caso. Logo é interrompido por um trabalhador do teatro, depois por uma actriz, até ao autor e por fim toda a companhia. Cada qual acaba por falar do seu “próprio caso” e gera-se a discussão. A cena vai finalmente ter lugar, mas tudo recomeça da mesma maneira. Ouve-se então um texto de Beckett. Mais uma vez sobe o pano, desta vez o som está ao contrário, uma verdadeira torre de Babel! Seguidamente, assiste-se ao diálogo de Job com Deus, com os mesmos actores da peça a fazerem de amigos de Job. No final, Job e a mulher são felizes na “Cidade Ideal”, de Piero della Francesca.

“Os Canibais” (1988)
Baseado no conto homónimo (1868), de Álvaro Carvalhal; música original de João Paes.

Sinopse:
Filme-ópera, com música de João Paes, um dos mais livres e originais de toda a obra de Oliveira. Versão irónica do tema dos “amores frustrados”, que tanto ocupou o cineasta nos anos 70, em que a perversão das relações amorosas e o sacrifício carnal são levados, literalmente, às últimas consequências. Também é um filme atravessado de uma ponta a outra por um dos temas obsessivos do realizador: a representação. Representação que passa de um tom macabro ao de um Carnaval.

“‘Non’, ou a Vã Glória de Mandar” (1990)
Música original de Alejandro Massó.

Sinopse:
O pano de fundo deste filme é a Guerra Colonial portuguesa, durante a qual um oficial, o alferes Cabrita, relata aos seus companheiros de armas, enquanto fazem a patrulha pela savana africana, a História de Portugal, uma epopeia construída em torno de grandes derrotas. O enredo termina com a eclosão da Revolução de 25 de Abril de 1974, dia em que o oficial morre, depois da sua patrulha ter caído numa emboscada.

“A Divina Comédia” (1991)

Sinopse:
Afinal nós é que compomos a grande comédia humana a que chamo “A Divina Comédia”: o prazer pela vida, o sexo como ídolo, o poder como ambição suprema e a morte como limitação de tudo; ou a aceitação do sofrimento e da ressurreição como verdadeira glória!? Eis o dilema! Afinal um filme histórico ou, se preferirem, uma parábola sobre a civilização ocidental.

“O Dia do Desespero” (1992) [1/2]
Baseado em cartas de Camilo Castelo Branco e num trecho do romance “O Amor de Perdição” (1862).

Sinopse:
“O Dia do Desespero” conta a história verídica dos últimos anos do eminente escritor português de século XIX, Camilo Castelo Branco. Esta evocação baseia-se, fundamentalmente, em algumas das suas cartas. Os textos são, poderemos dizê-lo, o fio condutor da evolução dramática de um homem viril, polémico e romântico que contrastava com o espírito funesto, instável e irresignado. Camilo afunda-se, sem remissão, num conflito íntimo, ou melhor, interno, “um drama em gente”, como diria Fernando Pessoa. Havia de ser a cegueira o impulsor para o acto final da sua vida. Acto final da sua vida? E o além-túmulo?

“O Dia do Desespero” (1992) [2/2]

“Vale Abraão” (1993)
Baseado no romance homónimo (1991), de Agustina Bessa-Luís.

Sinopse:
“Vale Abraão” é a história de Ema, uma mulher de uma beleza ameaçadora. Para Carlos, o marido com quem casou sem amor, “um rosto como o seu pode justificar a vida de um homem”. O seu gosto pelo luxo, as ilusões que tem na vida, o desejo que inspira aos homens, fazem-lhe valer o epíteto de “A Bovarinha”. Conhecerá três amantes, mas esses amores sucessivos não conseguem suster um sentimento crescente de desilusão que a leva a definir-se como nada mais que “um estado de alma em balouço”. Ema morrerá – “acidentalmente? Quem sabe?” – num dia de sol radioso, depois de se ter vestido como se fosse para ir a um baile.

“A Caixa” (1994)
Baseado na peça de teatro homónima (1981), de Prista Monteiro.

Sinopse:
Numa inclinada rua do bairro popular de Alfama, um cego perdeu a caixa de madeira onde são depositadas as esmolas e pequenas recordações da venda simbólica de chaveiros de recordação para turistas. O que guarda naquela caixa de madeira preta, pintada com a misteriosa sigla ABLB, pode dizer-se que é todo o seu sustento. A filha do cego, sempre distraída com os trabalhos domésticos, cai estendida sobre a pilha de roupa que lava para os seus clientes. O seu marido, desempregado como o resto dos amigos, vive da caixa de esmolas do velho e do trabalho da mulher. Quando a caixa desaparece, o assunto torna-se motivo de conflito violento, quase uma tragédia. Mas não há mal que venha por bem, e a ironia do destino possibilita que a filha do cego se consiga libertar da carga familiar que suportou durante todo aquele tempo.

“O Convento” (1995)
Baseado no romance “As Terras do Risco” (1994), de Agustina Bessa-Luís.

Sinopse:
O professor Michael Padovic é um investigador norte-americano que está a trabalhar numa tese que se destina a provar que Shakespeare tinha ascendência espanhola e não britânica. Mas faltam-lhe alguns documentos essenciais, os quais julga estarem nos arquivos do antiquíssimo Convento da Arrábida, em Portugal. Por esta razão, ele e a sua mulher, Hélène, viajam de Paris até à Arrábida, onde se instalam. O seu anfitrião é o guardião do convento, uma estranha personagem que dá pelo nome de Baltar. Há qualquer coisa de misterioso em Hélène que cativa Baltar. Para distrair a atenção do marido dela, sugere-lhe que ele contrate como sua assistente, Piedade, a nova arquivista do convento. Hélène descobre que o marido a rejeita em favor do trabalho e o facto de Piedade ser jovem e bonita aumenta ainda mais a tensão, servindo ao mesmo tempo os propósitos diabólicos de Baltar e a subtil manipulação de Hélène. A situação torna-se extremamente bizarra e culmina de forma inesperada.

“Party” (1996)
Baseado na peça de teatro “Party: Garden-Party dos Açores – Diálogos” (1996), de Agustina Bessa-Luís.

Sinopse:
Leonor e Rogério fazem dez anos de casados. Por sugestão de Leonor, organizaram um “garden party”, em comemoração do acontecimento, nas esplanadas do seu palácio, herança que os antepassados do seu marido lhe deixaram em Ponta Delgada, nos Açores. Leonor, tomada de súbito capricho, pensa em cancelar o “garden party”. Rogério contesta: «Impossível, Leonor! Os convites foram enviados e os convidados já estão à porta.» Entre os convidados há dois amigos especiais, Irene e Michel, que, de quando em quando, vêm aos Açores. Irene é uma famosa actriz grega de idade madura, que se faz acompanhar do amante Michel, um “bon vivant” francês, pretenso D. Juan, apesar da idade. Michel sente-se na obrigação de fazer corte à Leonor, jovem, elegante, bela de rosto, alegre e atractiva. Leonor parece aceitar o jogo que não passa despercebido nem ao marido nem à amante de Michel, os quais não intervêm e até parece divertirem-se com isso. No auge da festa levanta-se um fortíssimo vendaval que arrebata os guarda-sóis, derruba as mesas, arrasta as cadeiras e põe os convidados em debandada. Mais tarde, aquele casal de amigos estrangeiros, Irene e Michel, voltam aos Açores, são convidados por Leonor e Rogério para jantar no palácio onde, cinco anos antes, tinham estado no “garden party” que findou desastradamente. Michel não esqueceu Leonor e esta não deixou de guardar uma grande curiosidade por este particular sedutor, o que fez com que o antigo “flirt” renascesse, tanto mais que Leonor se enfastiava com um quotidiano vulgar que ela adorava quebrar, fosse com o que fosse, e a libertasse para aquele espírito de aventura que dentro dela fervilhava. É então que acontece o inesperado.

“Viagem ao Princípio do Mundo” (1997)

Sinopse:
Um realizador português contrata um actor francês para um filme que vai ser uma co-produção franco-portuguesa. O pai do actor francês, falecido muito jovem, era de origem portuguesa, embora a sua mãe fosse francesa. Durante a rodagem, o actor começa a pensar no seu falecido pai e decide visitar a vila onde ele tinha nascido, na esperança de encontrar a tia ainda viva. O realizador e outros dois actores sugerem acompanhá-lo na viagem, servindo de intérpretes, já que ele não fala português. Durante o caminho, o realizador (Manoel) começa a lembrar-se da sua infância nesta zona de Portugal. É então que menciona uma personagem chamada Pedro Macao, cuja estátua é descoberta junto à berma da estrada e que parece encarnar o destino dos homens na terra: um destino complicado e solitário. Quando chegam à vila, a tia do actor francês parece fria e desconfiada. Está cautelosa quanto a este seu sobrinho há muito desaparecido que nem sequer fala a mesma língua que ela. Também não aceita a presença do realizador nem a dos dois intérpretes que substitui pela sua nora. A tia é tão taciturna que, de forma irritada, o actor francês acaba por puxar as mangas para cima apontando para as veias para lhe explicar que são os dois do mesmo sangue. É nesta altura que Ema – a velha tia – começa a amolecer e os dois tentam lembrar-se o mais possível do pai do actor francês. Discutem também as dificuldades da vida na aldeia e as mudanças avassaladoras que a modernidade tem trazido. Por fim, o sobrinho diz-lhe que gostaria de visitar a campa do seu avô no cemitério local.

“Inquietude” (1998)
Baseado no conto “A Mãe de Um Rio” (1981), de Agustina Bessa-Luís.

Sinopse:
São homens famosos, cobertos de honrarias, incensados por todos… mas velhos, muito velhos. E então, para que o filho escape à decrepitude e à decadência, que já não tardam, o pai incita-o a suicidar-se. O que não vai ser fácil… Quando o pano cai sobre esta nota trágica, estamos nos anos 30, no Porto, onde Susy, uma cocotte, está à beira da morte numa mesa de operações, e resume assim a sua vida: «Tudo isto não é senão um detalhe». Para consolar o dandy que com ela acabara de viver uma história de amor, um amigo conta-lhe a história de Fisalina, uma camponesa que um dia descobre que tem pontas dos dedos em ouro: durante mil anos ela será a mãe de um rio…

“A Carta” (1999)
Inspirado no romance “La Princesse de Clèves” (1678), de Madame de La Fayette.

Sinopse:
“A Carta” é uma transposição inspirada no romance do século XVII, “La Princesse de Clèves”, de Madame de La Fayette, e recriada nos dias de hoje. Mantendo o mesmo pundonor da personagem principal, que na versão “A Carta” é simplesmente a senhora de Clèves, uma vez que a acção já não é entre príncipes, mas num meio de alta sociedade dos dias de hoje. A história desta princesa evidencia um coração que logo se sente invulgar e que por ser tão verdadeiro se faz ainda mais fascinante e enriquecedor do drama e das personagens.

“Palavra e Utopia” (2000)
Com textos do Padre António Vieira.

Sinopse:
Em 1663, o Padre António Vieira é chamado a Coimbra para comparecer diante do Tribunal do Santo Ofício, a terrível Inquisição. As intrigas da corte e uma desgraça passageira enfraqueceram a sua posição de célebre pregador jesuíta e amigo íntimo do falecido rei D. João IV. Perante os juízes, o Padre António Vieira revê o seu passado: a juventude no Brasil e os anos de noviciado na Bahia, a sua ligação à causa dos índios e os seus primeiros sucessos no púlpito. Impedido de falar pela Inquisição, o pregador refugia-se em Roma, onde a sua reputação e êxito são tão grandes que o Papa concorda em não o retirar da sua jurisdição. A rainha Cristina da Suécia, que vive em Roma desde a abdicação do trono, prende-o na corte e insiste em torná-lo seu confessor. Mas as saudades do seu país são mais fortes e Vieira regressa a Portugal. Só que a frieza do acolhimento do novo rei, D. Pedro, fazem-no partir de novo para o Brasil onde passa os últimos anos da sua vida.

“Vou Para Casa” (2001)
Baseado no livro “Je Rentre à la Maison” (2001), de Jacques Parsi.

Sinopse:
Gilbert Valence é um actor de teatro, e o seu talento e a sua carreira deram-lhe os papéis mais importantes que um actor pode desejar. Uma noite, no fim de uma representação, a tragédia irrompe na sua vida: o seu agente e velho amigo, Georges, diz-lhe que a sua mulher, a filha e o genro acabaram de falecer num acidente de viação. O tempo passa, a vida volta à normalidade. Gilbert Valence partilha agora o seu tempo entre o seu neto, que adora, e o teatro. Algum tempo mais tarde, o seu agente propõe-lhe um papel de protagonista num telefilme com os ingredientes em moda: droga, sexo e violência. E ele zanga-se: não teve a carreira que teve para agora aceitar comprometer-se num trabalho que lhe repugna totalmente, sob o pretexto que ganhará muito dinheiro. Mas no dia em que um realizador americano lhe propõe fazer Ulisses, uma adaptação do romance de Joyce, ele aceita com entusiasmo. No estúdio, com a iluminação e o décor instalados, o realizador sugere um ensaio: Gilbert Valence tem algumas hesitações, algumas falhas de memória, mas isso não é muito grave: retomarão no dia seguinte. Mas no dia seguinte, em plena rodagem, o velho actor sente o mundo escapar-se-lhe, e não consegue enfrentar a realidade. O texto foge-lhe. E ele pára e diz muito calmamente: «Vou para casa…»

“Porto da Minha Infância” (2001)

Sinopse:
«Porto da Minha Infância» é um repositório de recordações da infância e juventude do cineasta e, ao mesmo tempo, um retrato do Porto segundo a sua visão singular. O filme, uma encomenda da Sociedade Porto 2001, cumpre-se 70 anos após “Douro, Faina Fluvial” e marca o reencontro do autor com o filme-documentário, contando também com intervenções habituais do realizador: Agustina Bessa-Luís, Leonor Silveira e Duarte de Almeida (João Bénard da Costa).

“O Princípio da Incerteza” (2002)
Baseado no romance “O Princípio da Incerteza: Jóia de Família” (2001), de Agustina Bessa-Luís.

Sinopse:
Desde a sua infância que António, rapaz rico e de boas famílias, e José, filho de uma criada, partilham tudo, vigiados pelo seu olhar protector. E quando adultos, os pequenos jogos do amor não fazem senão aumentar essa proximidade: António casa-se com Camila, por quem José sempre estivera apaixonado, e tem como amante Vanessa, sócia de José nos seus negócios pouco recomendáveis.

“Um Filme Falado” (2003)
Baseado no livro de baseado no livro de Jacques Parsi.

Sinopse:
Verão de 2001. A pequena Maria Joana viaja com a mãe, Rosa Maria, professora universitária, ao encontro do pai, num cruzeiro que parte de Lisboa e se dirige a Bombaim. Uma viagem de recreio que é também uma viagem pela civilização mediterrânica, a marca mais profunda da cultura ocidental. Da Grécia Antiga aos Romanos, as influências árabes, o Antigo Egipto, Constantinopla, os Descobrimentos Portugueses, a Revolução Francesa. No cruzeiro viajam, para além do comandante do navio, um americano de origem polaca, três mulheres famosas, de diferentes nacionalidades: uma empresária francesa de renome, uma antiga modelo italiana, uma actriz e professora grega. O navio avança no seu percurso. Mas algo terrível está para acontecer.

“O Quinto Império – Ontem Como Hoje” (2004)
Baseado na peça de teatro “El-Rei Sebastião” (1949), de José Régio.

Sinopse:
«O Quinto Império – Ontem Como Hoje», baseia-se na peça teatral “El-Rei Sebastião”, de José Régio, na qual se pretendeu analisar o rei, o homem e a mítica personagem. O rei D. Sebastião, depois da estrondosa derrota na Batalha de Alcácer Quibir (1578), mais conhecida pela Batalha dos Três Reis, e por jamais ter sido identificado o seu corpo após a batalha, tornou-se no mito do Encoberto, ele que fora antes o Desejado e o destinatário ao mito. Mito, aliás cantado e exaltado nos sermões do Padre António Vieira (século XVII), pelo filósofo Sampaio Bruno (século XIX), e no século XX pelo poeta Fernando Pessoa e pelo filósofo José Marinho, entre outros escritores e pensadores portugueses, como ainda por estudiosos estrangeiros.

“Do Visível ao Invisível” (2005)

“Espelho Mágico” (2005)
Baseado no romance “O Princípio da Incerteza: A Alma dos Ricos” (2002), de Agustina Bessa Luís.

Sinopse:
Alfreda, uma jovem aristocrata, vive fixada na ideia de que assistirá a uma aparição da Virgem Maria. Afectada por uma doença grave, Alfreda procura apoio junto de um padre, de uma freira e de um professor inglês. Entretanto, um plano é armado para satisfazer o desejo de Alfreda, e “aliviá-la” de algum do seu dinheiro…

“Belle Toujours” [“Bela Sempre”] (2006)

Sinopse:
«”Belle Toujous” ocorreu-me à ideia inesperadamente e, como tinha gosto de prestar a minha homenagem a Luis Buñuel e a Jean Claude Carrière, fiquei feliz por ter encontrado o modo de o fazer, talvez o melhor, e meti mãos à obra. De que se trata? De retomar duas das estranhas personagens do filme “Belle de Jour” [1967], e fazê-las reviver, trinta e oito anos depois, na estranheza de um segredo que só ficara na posse da personagem masculina e cujo conhecimento se tornara crucial para a personagem feminina». (Manoel de Oliveira)

“Cada Um, o Seu Cinema” (2007)

Sinopse:
Um filme absolutamente único, realizado por ocasião dos 60 anos do Festival de Cannes, o festival de cinema mais importante do mundo, reúne o modo como 33 cineastas de 25 países olham o cinema e as salas de cinema, lugar de comunhão dos cinéfilos do mundo inteiro. Objecto cinematográfico imperdível, autêntico compêndio do estado do mundo do cinema e das singularidades de cada cineasta.

“Cristóvão Colombo – O Enigma” (2007)
Inspirado no livro “Columbus Was 100% Portuguese” (1987), de Manuel Luciano da Silva e Sílvia Jorge da Silva – traduzido e publicado em Portugal com o título “Cristovão Colon (Colombo) era Português” (2006).

Sinopse:
Não se trata nem de um filme científico ou histórico, nem de carácter propriamente biográfico, mas sim de uma ficção de teor romanesco, evocativa da grandiosa gesta dos Descobrimentos Marítimos, onde se apresenta a novidade de que Cristóvão Colombo era, afinal, de origem portuguesa, nascido na vila alentejana de Cuba, e ter por isso dado à maior ilha por ele descoberta no mar das Antilhas, o nome da sua terra natal, Cuba.

“Rencontre Unique” [“Encontro Único”] (2007)

“Singularidades de uma Rapariga Loura” (2009)
Baseado no conto homónimo (1874), de Eça de Queiroz.

Sinopse:
Numa viagem de comboio para o Algarve, Macário conta as atribulações da sua vida amorosa a uma desconhecida senhora: mal entrara para o seu primeiro emprego, um lugar de contabilista no armazém em Lisboa do seu tio Francisco, apaixonara-se perdidamente pela rapariga loira que vivia na casa do outro lado da rua, Luísa Vilaça. Conheceu-a e quis de imediato casar com ela. O tio, discordando, despediu-o e expulsou-o de casa. Macário conseguirá enriquecer em Cabo-Verde e quando já tem a aprovação do tio para finalmente casar com a sua amada, descobre então a “singularidade” do carácter da noiva.

“O Estranho Caso de Angélica” (2010)

Sinopse:
Uma noite, Isaac, jovem fotógrafo e hóspede da pensão de Dona Rosa, na Régua, é chamado com urgência por uma família abastada, para tirar o último retrato da filha, Angélica, uma jovem mulher que morreu logo após o casamento. Na casa, em luto, Isaac descobre Angélica e fica estupefacto com a sua beleza. Quando encosta o olho à lente a jovem parece voltar à vida, só para ele. Isaac apaixona-se instantaneamente por ela. A partir desse instante, Angélica irá assombrá-lo dia e noite, até à exaustão.

“Painéis de São Vicente de Fora – Visão Poética” (2010)

“O Gebo e a Sombra” (2012)
Baseado na peça de teatro homónima (1923), de Raul Brandão.

Sinopse:
Apesar da idade e do cansaço, Gebo persegue a sua actividade de contabilista para sustentar a família. Vive com a mulher, Doroteia, e a nora, Sofia, mas é a ausência do filho, João, que os preocupa. Gebo parece esconder algo em relação a isso, em particular a Doroteia, que vive na espera ansiosa de rever o seu filho. Sofia, do seu lado, espera também o regresso do marido, ao mesmo tempo que o teme. Subitamente João reaparece e tudo muda.

“O Velho do Restelo” (2014)

Sinopse:
Um mergulho livre e sem esperança na História, tal qual como a conhecemos, como um sedimento fértil, na memória de Manoel de Oliveira. Oliveira reúne num banco do século XXI Dom Quixote, o poeta Luís Vaz de Camões e os escritores Teixeira de Pascoaes e Camilo Castelo Branco. Juntos, levados pelos movimentos telúricos do pensamento, eles deambulam entre o passado e o presente, derrotas e glórias, vacuidade e alienação, em busca da inacessível estrela.

Nota:
As sinopses foram retiradas do Sapo Cinema.

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