SYRIZA DEVE FICAR À ESQUERDA DA LINHA – O QUE ESTÁ EM JOGO É BEM MAIS DO QUE A PRÓPRIA GRÉCIA – por BILL MITCHELL – I

Falareconomia1

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

mapagrecia

Syriza deve ficar à esquerda da linha – o que está  em jogo  é bem mais do  que a própria   Grécia

Bill Mitchell, Syriza must stay left of the line – more is at stake than Greece

Bilbo Economic Outlook, 24 de Março de 2015

Houve eleições regionais na Comunidade Autónoma da Andaluzia (Espanha) no fim de semana e com estas viu-se  o partido dos trabalhadores socialistas espanhol (PSOE)  manter-se  no poder. Os resultados mostraram que o  partido político da ala esquerda – Podemos – que recebeu quase 8 por cento dos votos espanhóis (5 lugares) nas eleições do Parlamento Europeu em maio de 2014, foi o terceiro na eleição da Andaluzia, ganhando 15 dos 109 lugares. Os paralelos com o Syriza na Grécia são agora rotineiramente feitos. Estou a ficar com a ideia , no entanto, que a menos que as coisas mudam muito  dramaticamente na Grécia, o Syriza realmente pode acabar  não apenas  por minar  as agendas  progressistas na  Europa como podem eles  estarem a auto-destruir-se   sob o punho de ferro da Troika (eu não uso os termos “instituições” ou o “grupo de Bruxelas”).

Isto é, do meu ponto de vista,  para mim de grande interesse neste momento porque estou a pensar esboçar um projecto de livro de 2016 com um co-autor, em que  nos queremos centrar largamente sobre  o desaparecimento dos movimentos de  esquerda e social-democratas do mundo, embora possamos  reduzir o âmbito de análise a uma análise mais concentrada sobre a Europa. De particular interesse é a inferioridade mórbida da esquerda francesa relativamente à Alemanha  no período pós II Guerra Mundial e a forma pela qual os  monetarismos americanos se  têm infiltrado e trabalhado na base desta  inferioridade. Uma grande parte  do projecto da União Monetária pode ser visto através desse tipo de lentes. Então temos um grande quadro de direita,  mas tem sido sempre assim. De interesse imediato, porém, é a possibilidade de que Syriza faça regredir as  causas progressivas em vez de se tornar  a ponta de lança para uma mudança radical  na Europa e para acabar com esta era destrutiva que tem sido a era do neoliberalismo.

Entretanto,  os socialistas (PSOE) têm sido o  partido dominante na  Andaluzia desde 1982 quando a região se tornou  uma   comunidade autónoma e teve  eleições pela primeira vez.

Algumas notas de imprensa pretendem mostrar que Podemos “fez  espectaculares avanços  nas eleições da região espanhola da Andaluzia” e que as eleições  “ mostraram  que há actualmente um sentimento de  anti-austeridade semelhante ao que levou  Syriza  ao poder na Grécia  a ganhar raízes em  Espanha” .

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Mas com a região  a ser o epicentro do colapso na  habitação, o prolongado  desemprego em massa e uma gama escândalos de corrupção, minando  o Partido Socialista, perguntamos-nos se o resultado para o Podemos é realmente tão forte como alguns o estão a sugerir.

Como um aparte, o  mais recente escândalo de corrupção em causa tem a ver com o abuso do chamado ERE[1], que era um fundo concebido para ajudar as empresas a demitir trabalhadores. Os socialistas criaram esse fundo  em 2001.

Evidentemente, muitos trabalhadores que foram pagos por este fundo  nunca tinham trabalhado com as empresas envolvidas, os subsídios eram pagos a empresas que ainda nem sequer se tinham aplicado a despedir  trabalhadores e várias comissões e outras anomalias  (subornos) foram ter às  companhias de seguros, aos consultores, aos gabinetes de advogados  e aos funcionários do governo. Estes pagamentos corruptos são, aparentemente, a ponta do iceberg de negócios de venda  fraudulentas de terrenos.

Assim, temos um verdadeiro exercício para se sacar muito dinheiro .

Esta também é a região que tem as maiores  taxas  de desemprego em Espanha (actualmente 34,2 por cento) e mais de 60 por cento das pessoas entre os 15-24 anos estão sem trabalho.

Em 2013, a revista Atlantic refere-se a esta região  como a mais castigada  das regiões de  Espanha, mostrando dois gráficos bem elucidativos.

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E mesmo assim os socialistas foram capazes de manter o poder. E neste quadro  é muito forte o desafio que se levanta ao partido Podemos.

O desaparecimento da esquerda na Europa não se inicia  com o aparecimento da Grande Crise Financeira. Pode-se realmente considerar que a Grande Crise Financeira  foi o culminar de um movimento constante para a direita feito pelos partidos políticos de esquerda, em todos os lugares, o que permitiu que se desse uma ridícula desregulamentação sobre  o  trabalho e sobre os   mercados financeiros e evitar por esta via a política orçamental.

Li o livro do académico  holandês Ton Notermans que  foi  publicado em 2000  (que trabalha na Universidade Tecnológica de Tallin em Estônia) – Money, Markets, and the Stae – que analisa  a evolução das  políticas económicas das  sociais democracias  desde 1918 (publicado pela Cambridge University Press).

O capítulo da abertura é intitulado  – Social Democracy in the Macroeconomy – que é o lugar perfeito para começar uma análise como esta  porque a análise macro deu  aos partidos de  esquerda  um significado e espaço de intervenção no período imediatamente a seguir à  segunda guerra mundial, que agora perderam.

A essência de seu argumento é que os Partidos Sociais-Democratas  só  podem sobreviver em sistema capitalista se estes  podem mediar  os conflitos de classes   e  lutar pelo pleno-emprego em defesa dos trabalhadores enquanto se mantém em simultâneo a estabilidade  dos preços.

Notermans diz-nos (p.1):

A visão social-democrata da sociedade previa um mundo no qual os seres humanos controlam as suas circunstâncias, ao invés de ser controlados por elas. Uma característica essencial de uma sociedade seria que ele garantia aos  seus membros uma subsistência decente. Em vez de haver  grandes camadas da população  a viverem   condenadas à inactividade por recorrentes crises económicas, todos aqueles que estão em condições  de terem um emprego devem ter a possibilidade de o terem. Aqueles a quem temporariamente ou permanentemente, lhes falta de capacidade para proverem a si-próprios  devem ser capazes de contar com a solidariedade da sociedade para lhes proporcionar os meios decentes de subsistência. A incapacidade de trabalho não deve ser uma condenação a viver uma existência marginalizada.

Existem ainda muitos outros requisitos, incluindo o de que a “sociedade deve ser democrática”.

Notermans concluiu que:

Em suma, o programa social-democrata  tinha como objectivo de referência reformar a economia de mercado a fim de combinar a liberdade política e a liberdade económica.

(continua)

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[1] Nota do Tradutor. Sobre o  caso ERE diz-nos El País em 17 de Fevereiro de 2015 :

 O que  é o processo ERE ?

É a investigação dos auxílios concedidos pela Junta da Andaluzia a empresas em dificuldade entre 2001 e 2011. A estes subsídios acederam  milhares de trabalhadores legais, mas também  pessoas que ainda não tinham trabalhado em entidades subvencionadas ou que  não tinham o direito às prestações. Os fundos, com 855 milhões de euros, foram processados através de CC OO e UGT e empresas de consultoria e companhias de seguros, que também estão a ser  investigadas, bem como gestores de empresas e instituições beneficiárias e empresas envolvidas em todo o processo.

Quem e que entidades  estavam presumivelmente implicadas ?

No caso figuram  cinco indiciados, entre os quais se incluem os antigos presidentes da Andaluzia José Antonio Griñán e Manuel Chaves, acusados pelo Tribunal Supremo a que se somam os  266 envolvidos pelo juiz.

O principal  dos 266 acusados pelo juiz  que conduz o processo é o ex-Director Geral do Trabalho, Javier Guerrero, a quem  também se atribui  o uso de dinheiro público em drogas e álcool. Também estão envolvidos responsáveis das empresas de consultoria  Vitalia e Uniter , que receberam 68 milhões em comissões. Destes fundos, a Guardia Civil estima que 50 milhões são  ilegais. Na trama de corrupção também figura o agente John Spears, ex-sindicalista da UGT.

A quanto ascende a  fraude ?

A investigação do processo  considerou que houve fraudes sobre os fundos públicos  entre 2001 e 2011 no valor de 136, 1 milhões  por sobre-comissões  (fizeram-se pagar até  20% às entidades que mediaram no pagamento dos subsídios), 73,8 milhões por ajudas da  Junta de Andalucía   a  empresas que não cumprem as condições de acesso aos mesmos fundos e 12,3 milhões entregues  a intrusos (pré-aposentados   de empresas não-beneficiárias dos fundos). O  fundo  ERE  foi dotado com 855 milhões e o custo final, quando se cumpriram as obrigações contraídas , será 1.217 milhões.

Texto disponível em:

http://ccaa.elpais.com/ccaa/2014/03/12/andalucia/1394624960_221752.html

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Pode ler o original de Bill Mitchell em:

Syriza must stay left of the line – more is at stake than Greece

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Publicação autorizada pelo autor.

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