
TERCEIRO ACTO
Daí a dois dias. O cenário é o mesmo do primeiro acto. O honrado chefe de família está sentado no chão por ter vendido há muito a mobília a pouco e pouco. Deixa cair a fronte pensativa nas mãos febris e descarnadas
CENA I
O HONRADO CHEFE E OS SEUS BOTÕES
O honrado chefe – Adivinho que não poderei resistir a este desgosto. Sinto avizinhar-se a passos agigantados a terrível comoção cerebral, que me vai libertar deste martírio. Acaba-se hoje o dinheiro cá em casa. É o terceiro dia. Nada nos resta que vender ou que empenhar. Não tenho quem me valha nesta aflição. Sou incontestavelmente um cavalheiro muitíssimo encravado. Toda a minha vida fui um homem de bem, cumpri sempre os meus deveres, nunca abusei dos meus direitos e amanhã não terei que dar de trincar aos meus filhos. Se, ao menos, fosse pelicano, arrancaria do peito a carne que os alimentasse. Mas não… (Apalpando-se) Não há maneira de sacar desta minha plástica nem sequer meio bife de lombo. Só tenho a pele e osso… (Cambaleando). É a primeira vertigem… É a morte que se aproxima… (Indo à porta) Meus filhos!…
Os botões – (uns para os outros) E quantos dramas semelhantes haverá por esta Lisboa!
(continua)
25 de Fevereiro de 1923
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Ver os actos e cenas anteriores de Um Drama Impressionante, de André Brun, em:

