OS MEUS DOMINGOS – UM DRAMA IMPRESSIONANTE  – por ANDRÉ BRUN

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(1881 - 1926)
(1881 – 1926)

 

SEGUNDO ACTO

No dia seguinte. A cena representa a esquina da Rua do Ouro e da Rua Luciano Cordeiro. Multidão de transeuntes e de carros eléctricos. O honrado chefe de família procura ansiosamente com a vista e com o olfacto alguém conhecido.

CENA I

O HONRADO CHEFE, VÁRIOS DESCONHECIDOS, DEPOIS E BAPTISTA

Coro de desconhecidos

É singular e que quezília!

Propositado até parece…

Mas nenhum de nós conhece

Este honrado chefe de família!

(Bailado)

 

Passam e tornam a passar, enquanto o honrado chefe se arrelia a olhos vistos.

O honrado chefe – E é isto!… (Ao público) V. Ex. as vão ver que sou capaz de estar aqui toda a tarde e não aparece um patife das minhas relações que me empreste o dinheiro necessário para alimentar a minha mulher, os meus filhos, o meu gato e o papagaio até ao fim do mês. (Vendo de súbito ao longe o seu amigo mais íntimo e correndo para ele).  Ó Baptista! Caíste como a sopa no mel. Não calculas a minha aflição e vais ser o salvador dum homem, duma mulher, de seis crianças e dois animais domésticos, dos quais um canoro e outro mamífero e felino. Emprestas-me cinquenta mil reis?

O Baptista – Perdão! V. Ex.a está laborando num formidável equívoco. Honny soit qui mal y pense. Eu não sou quem você pensa…

O honrado chefe – O quê? Pois não és o Baptista, meu velho amigo de infância?

O Baptista – (Que o é, mas não está disposto a andar com os cinquenta paus) Quem me dera! Não, senhor… V. Ex.ª está confundido. (Em confidência) Eu sou aquele oculto e grande cabo a quem chamais vós outros Tormentório e justamente andava por aqui à procura de um camaradão a quem pudesse extrair, sem clorofórmio, duzentos escudos que me são urgentes…

O honrado chefe – Nesse caso desculpe V. Ex.ª. (Consigo mesmo) É curioso! Nunca vi duas criaturas mais parecidas.

O Baptista – Efectivamente sou desde muito novo uma das pessoas mais parecidas que há em Lisboa. Já o meu pai era a mesma coisa. (Afasta-se)

O honrado chefe – (Depois de cismar um largo instante). Sim… É isto mesmo… Não há outro remédio. O homem que rouba para dar de mastigar à sua descendência poderá ser um criminoso à face da lei; mas Deus, que vê tudo, perdoa-lhe, sorri e passa-lhe a mão no cabelo. (Sobe à plataforma de um eléctrico que vai à cunha e põe-se a apalpar o bolso interior do casaco de um sujeito).

 (continua)

25 de Fevereiro de 1923

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