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A PROPÓSITO DE UM ENCONTRO ACIDENTAL, A PROPÓSITO DA CRISE NA EUROPA, A PROPÓSITO DA CRISE EM PORTUGAL, A PROPÓSITO DA APRESENTAÇÃO DE UM TEXTO SOBRE UMA NOVA BOLHA A REBENTAR EM BREVE: ALGUMAS REFLEXÕES – por JÚLIO MARQUES MOTA – I
A propósito de um encontro acidental, a propósito da crise na Europa, a propósito da crise em Portugal, a propósito da apresentação de um texto sobre uma nova bolha a rebentar em breve: algumas reflexões
Dizem-nos que a crise já passou, ali mesmo ao virar da esquina. Bravo então. Mas um problema aqui me surge, preciso de ir ao oftalmologista, porque ao virar da esquina, desta e de todas as esquinas, a crise passada, ultrapassada, a descer da escada por onde tinha escalado, é que eu não vejo. Mais ainda, o que vejo são, do ponto de vista humano, os graves e adicionais sinais da crise que começam já a ser visíveis agora. Mais simples ainda, os sinais da crise vão-se acumulando em crescendo até que isto há-de rebentar em qualquer lado e assim mesmo, a começar exactamente ao virar de uma qualquer das esquinas onde os políticos começarem a ser abatidos. E estas são as mesmas esquinas a que os mentirosos dos nossos políticos se referem agora. Veremos se estou enganado ou não e o tempo o dirá.
Um pequeno exemplo desse crescendo de sinais de que as pessoas não aguentam. Há duas semanas atrás, fechei o meu dossier Piketty. Um texto de mais de 900 páginas sobre as contradições ditas fundamentais do sistema capitalista e afinal a obra de Piketty não nos poderá fornecer o que muitos dizem que fornece, a saber, uma teoria geral do capitalismo, unificando teoria do crescimento e repartição, como o pretende o prémio Nobel, Paul Krugman. Quanto à teoria de crescimento não está lá, pelo menos a teoria que explique as origens do crescimento e a sua dinâmica. Fecho o livro que acabei de ler. Saio do café a pensar que temos obrigatoriamente de voltar aos clássicos, aos antagonismos de classes e deixar Piketty quase que de lado. Saio do café de livro lido, passo pelo PINGO DOCE, faço as compras da casa e depois, de sacos nas duas mãos, dirijo-me a pé para o local onde escrevo estes meus textos, a minha casa. No caminho paro para descansar os braços. Uma senhora, na casa dos 55-60 anos, dirige-se a mim e pergunta-me: desculpe, posso fazer-lhe uma pergunta?
Pode. Claro que pode.
Desculpe-me com esta minha pergunta: o senhor é professor?
Sou. Há, não, não sou, já fui. Sabe, foi uma farda que vesti quase durante 40 anos. Ainda não me habituei a reconhecer que já a despi. Ou talvez não, se calhar entrou-me pela alma adentro mesmo que com essa roupagem já tirada do meu corpo. Desculpe este meu desabafo de “velho” professor. Mas porquê a sua pergunta?
Sabe, vejo-o na Vénus a ler, a sublinhar os livros, vejo-o empenhado a viver o que está a ler, vejo-o empenhado em registar o que lhe agradou ou desagradou quando escreve nas margens dos livros. Sinto-o agarrado à vida, gostava de ser eu assim, desabafou com um ar triste.
Apanhado de surpresa, convido a senhora a avançarmos uns metros para a esplanada do café Bolero, vinte metros mais à frente. Sentamo-nos. Olho-a, mulher bem vestida, mulher que já soube o que era viver bem, de rosto ainda a mostrar traços de uma grande elegância que já foi mas que as suas marcas na cara aí registou. Quando escreve nas margens dos livros, sinto-o agarrado á vida, lembro-me do que me acabou de dizer. Ponho-lhe a minha mão sobre o braço, cuidadosa, carinhosamente. Digo-lhe então; mas o que a faz não ter âncora na vida? Não será que precisa de um qualquer outro apoio, clínico que seja?
Do que me diz, fico a saber que o marido o tempo já levou, para a eternidade ou para outras companhias mais alegres, para outros corpos mais apelativos, não fiquei a saber mais nada. Nem era relevante. Tem dois filhos, tem dois netos. Dos dois filhos, e deles vai sabendo pelo telefone, um em Angola outro dele no norte, para os lados de Trás-os-Montes, um emigrado, outro emigrante no próprio país, para um local nunca até aí pensado, depois de encerrada em Coimbra a empresa em que trabalhava. Por falência, pela crise. Tem dois netos que ouve igualmente pelo telefone. E quanto ao resto? Do resto, fico igualmente a saber, passa a vida a pensar nos problemas reais ou imaginários que os filhos e os netos têm ou que ela imagina que podem vir a ter. De noras não me falou. Possivelmente famílias outrora funcionais, mas famílias agora rasgadas, destroçadas. A crise verdadeiramente instalada em tudo o que lhe diz respeito.
Ouço-a dizer-me: precisava de ser como o senhor, que nos transmite a ideia de estar bem empenhado em lutar contra as misérias do mundo. Uma boa âncora, portanto. Gostava de ser assim, de ter coisas na vida a que me agarrar e que me fixem um sentido que os tempos de agora me levaram.
Um discurso de bom recorte. De novo, olho-a nos olhos e uma tristeza infinita parece saltar-lhe da menina dos olhos, parece espalhar-se por cima da mesa, parece ocupar os silêncios curtos que se vão criando à medida que cada um de nós pensa no que vai dizer ao outro, a seguir. E remato, parece-me que anda por aí uma certa depressão a cavalgar. Tem que tratar disso. Precisa de apoio, acho.
Sabe, ando a ser acompanhada nos HUC pela doutora X.
Pois bem, fale com ela, fale-lhe na nossa conversa, peça-lhe sugestões de leitura. Ela conhece-a, eu não, ela poderá indicar-lhe que livros pode ler. Depois, faça o seguinte: leia um livro, pegue num caderno de notas, tipo A4, faça o resumo do livro. A seguir, escreva o que pensa do livro, do que gostou e porquê, do que não gostou e porque razões. Escreva numa letra legível. Meta depois o seu texto num envelope, feche-o, coloque-lhe a data em que o escreve. Guarde esse envelope, todos os envelopes que assim fizer. Dois anos depois, volte ao que escreveu, envelope a envelope, pense no que a sua dor de então lhe ditou a escrever. Far-lhe-á bem, disso estou seguro.
Para amenizar a situação falo-lhe de Stuart Mill, um expoente da cultura britânica no século XIX, falo-lhe da sua autobiografia, da forma como ele venceu a sua depressão, lendo, escrevendo, depois discutindo sobre o que lia, sobre o que escrevia. Falo-lhe dos meus esforços estipulando livros de leitura obrigatória nas disciplinas por onde passei, ditos livros de leitura complementar porque obras de cultural geral para quem queria ser economista. Falo-lhe de uma amiga minha que sobreviveu à morte macabra do filho único, ainda muito novo a formar-.se em Direito, escrevendo, guardando na gaveta o que escrevia, tratando por essa via as suas dores, como que a bisturi, e que hoje está bem, bem firmada e com um editor que lhe vai publicando o que escreve e que não se considera arrependido dessa opção de editar esta “jovem” escritora, futuro nome, talvez, na literatura portuguesa.
Despeço-me desejo-lhe felicidades. Agradece-me com muita delicadeza o carinho com ela tido. Curioso, até nesta despedida.
Nisto, uma “gaffe” monumental da minha parte. Podia-me ter oferecido para ser o leitor de um dos tais envelopes, mais tarde. Não o fiz, por delicadeza, mas aqui reconheço, por uma delicadeza tipicamente burguesa. Se a reencontrar corrigirei a minha posição, claro está.
Uma mulher cuja dor as estatísticas não registam, cuja vida se reduz a farrapos, que a quer refazer e assim desses fragmentos quer fazer um vestido bonito, ou seja uma outra vida, uma mulher que pela vida dos filhos e dos netos teme, vidas que a crise estragou e de que delas muito pouco até agora se registou.
Uma mulher invisível da crise, e invisíveis há pois muitos e muitas cujas reacções amanhã ninguém sabe quais serão. O pior ainda está para vir, avisava a Cruz Vermelha, a referir-se a todas as sequelas que iriam aparecer e a adicionar-se aos estragos já feitos e não tratados, não reparados. Esta mulher, a sua história, fazem parte do exército de invisíveis para serem abatidos pelo sistema. Será que estes invisíveis o vão consentir? Será que nós, todos nós, o vamos permitir? Ou será que todos em conjunto faremos as coisas eclodir para esse massacre impedir?
Bom, mas a crise já passou, é o que agora já nos dizem. Pois bem, a crise que se começou objectivamente a criar no final dos anos 70 princípio dos anos 80, rebentou em 2008, e foi mudando de figura, ampliando-se sempre, pois passou de crise de subprime a crise da banca, na Europa, depois rapidamente, a crise dos défices públicos, depois dos défices externos, depois do volume das dívidas soberanas, cruzando-se com as crises do imobiliário na Espanha, na Irlanda, na Holanda, Trata-se de um rebentar de verdadeiras bombas de estilhaços e ao retardador, bombas activadas em Bruxelas, Berlim ou algures, num crescendo de deflagrações que ainda não pararam.
Mas a crise já passou, é o que agora nos andam a dizer. Vejamos alguns dados sobre a crise, sobre as posições dos países europeus de agora face ao período em que se desencadeou a crise, para se perceber bem o beco sem saída a que as politicas de austeridade nos têm levado e mais ainda para se perceber que cada vez estaremos mais endividados, cada vez com menos capacidade de resposta para uma verdadeira saída da crise.
Mas devemos sublinhar que procurar degradar a vida dos trabalhadores dos países sem dificuldade, pelo abaixamento das condições de trabalho, pelo abaixamento dos seus salários nominais, pelo degradar das condições sociais em que criam os seus filhos, pelo degradar dos apoios na saúde, na educação, no desemprego, para assim baixar os custos de reprodução social, baixar os custos por unidade produzida e assim dinamizar as exportações, com uma moeda sobreavaliada, o euro, e com todos os países a querer fazer o mesmo, é objectivamente um absurdo, é uma ideia só pensável e exigida ou por ignorantes em economia ou então por verdadeiros predadores às ordens de potências externas, como parece ser o caso de Durão Barroso, Comissão Europeia, da senhora Christine Lagarde, FMI, de Mario Draghi, BCE, de Jens Weidmann, Bundesbank. Desde 2010 a insistirem neste absurdo das políticas de contracção que fazem aumentar o rendimento (!), ou seja, a garantirem-nos que seremos tanto mais ricos (no futuro) quanto mais pobres formos agora, com as políticas de contracção que farão disparar depois em alta os rendimentos de todos nós! E depois, como uma asneira destas nunca vem só, dizem-nos que devemos deflacionar para obtermos excedentes, o que é, de imediato, uma impossibilidade pois sendo para cada um dos Estados em dificuldade os países da UEM os seus principais parceiros, a deflação interna praticada por todos não altera os preços relativos internacionais, não aumenta a competitividade do país. E dos resultados alcançados por este grupo de predadores da coisa pública continuemos a mostrar resultados. Como nos assinala Matt O’Brien, no Washington Post :
“Toda a gente gosta de andar a fingir que a crise do euro acabou.
São os políticos que não querem ouvir a palavra “resgate” novamente. São os banqueiros centrais que nunca querem ouvir a palavra “deflação” de novo. São as pessoas que nunca mais querem ouvir as palavras “spreads da dívida pública”. Mas estar-se suspenso nesta crença, é claro, não faz nada para acabar com a depressão da Europa. O desemprego está ainda acima dos 25% na Grécia e em Espanha, de 15 por cento em Portugal e de 10 por cento na Irlanda.
Então porque é que a Europa não tem verdadeiramente nenhum sinal de retoma? Bem, é a dívida, oh estúpidos, é o que nos dizem”.