A PROPÓSITO DE UM ENCONTRO ACIDENTAL, A PROPÓSITO DA CRISE NA EUROPA, A PROPÓSITO DA CRISE EM PORTUGAL, A PROPÓSITO DA APRESENTAÇÃO DE UM TEXTO SOBRE UMA NOVA BOLHA A REBENTAR EM BREVE: ALGUMAS REFLEXÕES – por JÚLIO MARQUES MOTA – II

júlio marques mota

A propósito de um encontro acidental, a propósito da crise na Europa, a propósito da crise em Portugal, a propósito da apresentação de um texto sobre uma nova bolha a rebentar em breve: algumas reflexões

(continuação)

Avancemos um pouco mais e no quadro do mesmo modelo, o modelo de política economia que tem sido utilizado na União Europeia, vejamos o que os analistas de Standard and Poor’s nos dizem sobre o futuro.

E em forma de conclusão de um grande texto de análise sobre a crise na Europa dizem-nos os analistas de Standard and Poor’s:

“O fraco crescimento e a polarização política poderiam seguir-se na crise instalada enquanto as políticas de austeridade, de consolidação das contas continuarem a ser aplicadas.

Na nossa opinião, a verdadeira escala da subida dos rácios de dívida em muitas nações da periferia mesmo a partir dos níveis de 2006 e a inversão desta situação que foi relativamente muito pequena desde os valores de pico sugerem-nos fortemente que o processo de desendividamento, verdadeiramente apenas só agora começou. Enquanto que para Portugal, Espanha, Grécia, Itália, Irlanda e Eslovénia, a dívida como proporção do PIB aumentou numa média de 106 pontos percentuais do PIB entre o início de 2006 e o valor de pico trimestral verificado em 2013, o rácio terá decrescido apenas 3 pontos percentuais do PIB a partir daquele pico. A disparidade entre esses dois valores assinala no nosso ponto de vista a lentidão dos progressos realizados na periferia em conseguir a redução conjunta do endividamento privado e público, mesmo admitindo que o crescimento nominal do PIB (o denominador desta equação) terá melhor desempenho no futuro do que tem tido desde 2006.

Nesse sentido, consideramos que a recuperação económica já frágil da zona euro provavelmente irá continuar a ser moderada. Além disso, se as expectativas de recuperação se tornarem decepcionantes achamos que isso poderá vir a agravar a polarização política e, portanto, representa uma ameaça crescente para a sustentabilidade do crescimento, e em que se trata muito frequentemente de reformas impopulares. Temos observado o crescente descontentamento público, mais recentemente, evidenciado por muitos eleitores ao optarem pelos partidos eurocépticos nas eleições parlamentares europeias de Maio de 2014. Sem uma mais rápida recuperação económica e crescimento ao nível do volume de emprego, pensamos que a insatisfação popular poderia mesmo aumentar. Em última análise, porém, o crescimento permanecerá dependente das exportações líquidas, uma vez que a procura interna irá enfrentar ventos continuamente adversos. Os nossos ratings soberanos, portanto, reflectem a nossa opinião cautelosa sobre as perspectivas de crescimento da zona euro a médio prazo”

Acabo de ler o texto da Standard and Poor’s e relembro a senhora cujo nome nem sequer fiquei a saber. Vejo-a distanciar-se, de ombros levemente inclinados como quem suporta uma carga que não é capaz de aguentar, ou ainda, vejo-a caminhar de olhos no chão, senti-a por dentro como alguém que se sente projectada no vazio em que se tornou a sua vida. E a análise feita pela  Standard and Poor’s no texto referido é implacável quando nos diz que todo um continente está a ser destruído por políticas de austeridade absurdas para se alcançar o desendividamento das economias em questão e o resultado alcançado quanto a esse objectivo é, pura e simplesmente, vizinho de ZERO, de três por cento segundo a Standard and Poor’s, organização que de modo algum pode ser acusada de esquerda!

Necessariamente assim, necessariamente assim é o que é explicado pelos muitos economistas de referência internacional e que por opção não navegam nas águas sujas de Bruxelas. Citando um deles, Satyajit Das:

A Europa agora assemelha-se a um doente mental crónico, a receber o tratamento apenas suficiente para se manter viva. A recuperação total e completa é altamente improvável no presente plano médico de saúde. A Europa assemelha-se a uma economia de zombies, que funciona de forma deficiente, com graves crises periódicas de saúde económica. O risco de uma falha súbita de órgãos vitais é desconfortavelmente elevado.

Ou ainda, diz-nos o mesmo autor:

Os problemas da Europa estão bem documentados. Muitos países europeus têm elevados níveis de endividamento e, em alguns casos, diremos mesmo que estes níveis são insustentáveis, compostos por um conjunto de maturidades e de pressões de notação feita a partir das agências de rating. (…)

Reduzidas mesmo antes da crise, as taxas de crescimento da Europa são demasiado baixas para sustentar os níveis de dívida atuais. Muitos países europeus adicionalmente não têm estruturas de custos competitivos em termos globais. (…)

A austeridade por causa da dívida é auto-destrutiva. Os cortes na despesa e os aumentos de impostos levam a contrair a actividade económica, levando-se assim ao efeito perverso de se ter depois aumento do défice orçamental e da dívida. A austeridade adicional só vem agravar um ciclo vicioso negativo em que a economia se vai afundando até mergulhar numa profunda recessão e com um claro aumento do desemprego (…) – Satyajit Das, Europe’s Debt Crisis Endgames—Stealth Solutions, 24 de Janeiro de 2013,

Tudo logicamente explicado, tudo o que Standard and Poor’s nos fala hoje está escrito, tudo está previsto nos bons textos de Economia. E ninguém acredita que tudo o que está a ser feito o seja por ignorância dos homens que conduzem as políticas cujos resultados catastróficos estão escritos até mesmo no vento que nos sopra aos ouvidos, estão sentidos na dor de milhões de europeus, sem emprego, sem casa, sem futuro, sem direitos que ontem eram tomados como universais e hoje considerados como privilégios imerecidos, estão marcados na alma de todos nós como o mais hediondo crime contra a Europa cometido desde os tempos de Hitler. E não sendo esta situação então o resultado da ignorância, trata-se pois de uma situação explicável somente pela ganância pessoal e pela maldade quer dos que dirigem os destinos deste nosso continente quer ainda dos seus vassalos a nível nacional. Os exemplos são muitos.

 De repente, relembro-me de um texto da Cruz Vermelha Internacional onde se dizia:

“Quando as pessoas pedem ajuda, é muitas vezes como um último recurso. Elas estão a pedir comida ou medicamentos ou dinheiro para pagar os serviços públicos ou o aluguer de casa para não serem despejadas das suas casas. Milhões são afectadas pela pior crise desde há seis décadas; uma crise que tem visto as pessoas estarem a perder os seus empregos e as casas, e isto quando elas nunca tenham imaginado que alguma vez uma tal situação lhes poderia acontecer; uma crise que fez com que os pobres fiquem ainda mais pobres. ‘Crise’ era suposto significar dificuldades temporárias, um solavanco na estrada da vida e que iria, em breve, passar. Quem teria imaginado que isso duraria tanto tempo e que iria afectar tantas pessoas e em tão grande profundidade? Actualmente existem mais de 18 milhões de pessoas que receberam ajuda alimentar financiada pela UE, 43 milhões que não recebem o suficiente para comer todos os dias e 120 milhões em risco de pobreza no conjunto dos países abrangidos pelo Eurostat. E enquanto isso, ainda esperamos que a crise vá acabar em breve, quando para muitos a crise apenas começou. Ou está ainda prestes a começar.” Dito ainda de uma outra maneira, ainda no mesmo relatório diz-se que “ o pior está ainda para vir”.

Para muita gente a crise apenas começou, para muita gente ainda está prestes a começar, é o que se assinalava em Setembro passado, assinado pela Cruz Vermelha Internacional. Curiosamente o texto da Standard and Poor’s deste mês bate no mesmo sentido, ao afirmar que o longo caminho para o desendividamento apenas agora está a começar. Terrível, portanto, e para darmos um outro exemplo saiba-se que actualmente em Espanha, a seguir às mortes por causas naturais, a segunda causa de morte é actualmente o suicídio! E tudo por causa da crise quando agora nos dizem que o desendividamento dos países, começou muito mal e que verdadeiramente só agora é que vai começar! Mas estamos a falar antes depois da crise ter estalado, estamos a falar agora quando já temos os países massacrados pelas políticas de austeridade. E mesmo assim continua-se a apostar nas políticas de austeridade. Acabo de escrever isto e lembro-me da frase acima: “Quando as pessoas pedem ajuda, é muitas vezes como um último recurso”. Relembro no espaço entre os meus olhos e o ecrã a figura daquela mulher a olhar para o chão enquanto caminhava. Espero que não seja o último recurso, penso.

Por confronto a esta mulher cujo nome continuo a ignorar, perdida na vida e à procura da mesma, relembro a minha marechala que encontrei um dia pelas ruas de Faro à procura do caminho para ir apanhar a camioneta para Albufeira e sobre a qual escrevi uma crónica de Faro sobre as Marias do mundo, sobre uma emigrante russa de há muitos anos que queria saber onde apanhar a camioneta para ir para Albufeira. Mas esta Maria, queimada pela vida desde há muitos anos, queimada pelos sistemas em que acreditou e que ruíram, mandou depois os seus netos e a filha para a Rússia, para aí conquistarem o direito a um futuro por uma formação condigna, técnica, obtida nas escolas e nas Universidades onde se ensina, esta Maria fazia-se ressaltar pela força de vida que dela emanava, enquanto esta mulher, aqui em Coimbra, é a dor e a impotência em movimento lento como resultado de uma crise que os netos lhe levou, é a curvatura na linha de ombros que com isso a marcou. Relembro a minha marechala de blusa branca, bordada, muito direita, a fazer-me lembrar a minha mãe, na aldeia de Fratel a vender queijos ao domingo, de cestos de queijos à cabeça e de blusa relativamente semelhante, relembro-a também na força quase que bruta que mostrava perante a adversidade. Relembro o que então escrevi:

“Fixei-me na segurança daquela mulher, a Marechala. Fico-me com a certeza de que ninguém lhe fará mal, na boleia que pode ser pedida ou que lhe pode ser oferecida, fico-me com a certeza de que ninguém será mesmo capaz de lhe fazer mal, mesmo que queira, tal é a vida, tal é a força que se respira nos seus movimentos, nas suas palavras.

Mas a Maria, a da Rússia, a emigrante a residir em Albufeira ignora a crise ocidental, os mecanismos que a produzem e que tudo arrasam e hoje não sei se terá emprego, em Albufeira ou algures, se não lhe terão cortado nas remunerações, se o dinheiro a enviar passou a não ser suficiente para formar os seus netos, jovens do futuro, se tudo se lhe tornou ou não ainda mais precário.”

De novo assaltam-me as lembranças. E relembro o relatório já citado da Cruz Vermelha onde se afirma:

“Levará décadas a aparecerem à superfície, a tornarem-se visíveis, as consequências a longo prazo desta crise. Este relatório mostra que os problemas provocados serão sentidos durante décadas mesmo se a economia mudar de rumo para melhor num futuro próximo.”

Pois bem, esta mulher que gostaria de ser como eu, foi o que disse, e cujo nome não conheço faz parte já desses efeitos invisíveis, não registados em nenhuma das estatísticas de Eurostat. Esperemos que se levante como o fez a nossa marechala citada. Esperemos, mas a capacidade anímica não é claramente a mesma. Entretanto as políticas de austeridade vão-se continuando a impor, a tornar tudo ainda mais difícil, e com estas políticas o sistema neoliberal vai criando novas bombas prontas a rebentar ao menor sinal de tensão, bombas estas que criarão novos efeitos a nível local e global, efeitos que se irão adicionar aos que até agora não se trataram, ou que basicamente só se agravaram.

(continua)

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