A PROPÓSITO DE UM ENCONTRO ACIDENTAL, A PROPÓSITO DA CRISE NA EUROPA, A PROPÓSITO DA CRISE EM PORTUGAL, A PROPÓSITO DA APRESENTAÇÃO DE UM TEXTO SOBRE UMA NOVA BOLHA A REBENTAR EM BREVE: ALGUMAS REFLEXÕES – por JÚLIO MARQUES MOTA – III

júlio marques mota

A propósito de um encontro acidental, a propósito da crise na Europa, a propósito da crise em Portugal, a propósito da apresentação de um texto sobre uma nova bolha a rebentar em breve: algumas reflexões

(CONCLUSÃO)

E entretanto já com esta crónica escrita e publicada no blog A Viagem dos Argonautas, eis que, 4 a seis meses depois, me cruzo com esta mulher de 55-60 anos, de ar elegante a ir para o Pingo Doce, quando eu tinha acabado de vir de lá. Cruzo-me com ela, olho-a, olha-me, sinto que a conheço e pergunto: desculpa, não foi consigo que em tempos falei sobre livros a ler? Um sorriso enorme se lhe estampou no rosto que pareceu mesmo iluminado pela luz de um muito bom fotógrafo em pleno dia e a resposta dela foi curta: foi sim senhor.

Não quer vir até à pastelaria Vénus beber um café, perguntei.

Sim, aceito, ouço-a dizer.

Chegámos à Vénus, fomos para o meu local habitual, uma mesa ao fundo da segunda sala, junto ao vidro para a rua. Pediu um café e eu pedi um café e uma garrafa de água sem gás e fresca. O nosso pedido foi prontamente satisfeito. Propôs-se pagar. Recusei, dizendo-lhe que era minha convidada, pois que a ideia era minha. Uma pequena discussão à volta de quem pagaria e ganhei eu. Paguei.

Retomei o assunto onde meses antes o tinha deixado, sobre as leituras dos livros. Pede-me para repetir a sugestão e aproveito para desenvolver melhor o meu ponto de vista. E este era muito simples. Sugeri-lhe ainda que por cada livro que lesse, que procurasse então na sua vida pessoal e na das suas amigas, algumas relações, comparações ou oposições, às histórias que teria, por hipótese, lido. Depois que escrevesse tudo isso. Mais tarde que revesse tudo isso, como lhe tinha indicado, que reflectisse em tudo. E acrescentei o que para era fundamental: se quiser, posso ser para um ou dois livros um seu leitor, leitor do que escreve, do que relaciona, do que critica, do que pensa, enfim.

Senti que uma certa cumplicidade se tinha instalado naquela mesa do café entre duas pessoas, eu, um homem já bem na curva da terceira idade, e ela, alguém que nem estava a começava a dar os seus primeiros passos nesta mesma curva. Riu-se da minha proposta, um riso de alegria, de cumplicidade e de ternura igualmente e o carinho projectado naquela cara era tanto que a minha companhia mais parecia uma adolescente tímida como tudo, meio engasgada, meio atrapalhada, a dizer-me, Oh, não, sentia-me envergonhada. Tanta vergonha como se me estivesse a despir na primeira noite de casamento. Um outro despir é certo, mas seria sempre um despir. Senti a mão dela na minha e ouço-a dizer-me: desculpe, mas não imagina como lhe fico agradecida pela sua disponibilidade.

Nada disto me tinha passado pela cabeça, disse. Deixei a mão dela passear-se sobre a minha e pediu-me, com uma voz que mais parecia vir do fundo da alma: pode-me repetir a sequência de leitura e de escrita?

Tem papel, tem caneta, perguntei.

Tenho.

Pega numa esferográfica de boa marca, uma Cross penso, e numa agenda-bloco de notas.

Começo a dizer-lhe a sequência do que lhe tinha dito, vejo-a escrever muito devagar, vejo-a forçar a pressão dos dedos na parte inferior da esferográfica, como se esta lhe estivesse a fugir, vejo-lhe, de repente, a caneta ficar suspensa no ar. Olho-a, os músculos da sua face tensos, um olhar de querer ver o mundo, de o agarrar, de nele se embrulhar, mas ao mesmo tempo com uma enorme vontade de fugir daquilo tudo, daquela escrita que não se escrevia, daquelas letras que se não liam. Assustada, como que paralisada por um raio que destrói tudo à sua frente, assustada então, vejo-lhe os olhos espantados mas de quem quer calar a dor que lhe vai na alma, de quem quer bloquear as lágrimas que dos olhos lhe querem saltar.

Bolas, pensei eu, ao ouvir o que ouvia, ao ver o que nunca imaginaria. Senti-me eu próprio de músculos tensos a pensar que história é esta, talvez até a sentir-me gozado, por um mundo de escrita falado com quem parece não saber escrever. Senti-me como fulminado pelo significado do que via, senti-me igualmente de olhos esbugalhados, senti-me cheio de raiva fortemente contida e disse para mim mesmo: calma, tem calma, há por aqui um engano qualquer. Não, não pode ser, não pode ser que não saiba ler, que não saiba escrever. Não falaria como fala, se assim fosse. Está em pânico, mas porquê? Ainda penso, está em pânico por medo, por medo de rasgar o seu passado, colocando-o à luz do que é hoje, medo de rasgar a sua intimidade e das pessoas mais próximas, medo de se poder expor a alguém que não conhece, medo de que a esferográfica toque o papel. Vejo-lhe esse medo na forma como os dedos apertam a parte de baixo da Cross, como a mão se recusa a descer ao papel e fica a tremer no ar, a tremer muito. Que sensação terrível, meu Deus, é o que sinto.

Desculpe, não consigo escrever, a pensar talvez no que eu poderia estar a sentir, diz-me ela, interrompendo as minhas congeminações à volta do que estava a ver, com as suas palavras a recusarem-se em poderem ser ouvidas por ninguém, nem por mim que ternamente lhe queria beber os ténues sons que dos seus lábios saiam, tão baixos eram os sons por ela pronunciados. Não sei o que se passa, não consigo, não consigo mesmo

Tenho razão no que estava a pensar, digo a mim mesmo. Fico menos tenso, o olhar meio perdido a olhar para ela mas sem a ver, e a seguir ponho a minha mão em cima da dela, fazendo-lhe uma festa lentamente. Sinto que ficamos ambos mais calmos. Assumo a minha postura normal de quem queria perceber alguém que estava à minha frente e extremamente fragilizada. Tinha que ter cuidado se queria ser útil. A mão que não está sobre a dela, estendo-lha e digo: dê-me a caneta e a agenda, por favor. Recebo a agenda e a caneta. Procuro um espaço para escrever e enquanto o faço vou observando a caligrafia no que está escrito. Uma letra de forma regular, bem feita, notando-se aqui e ali uma nervuras nas letras, uns cortes na fluidez das letras, como se paragens a meio das palavras tivesse havido,  por hesitações sentidas. Sabe pensar, sabe escrever, sabe ler, afinal. E escrevi devagar, muito devagar, a sequência do que ela deveria fazer, numa letra da quarta classe completamente legível. E li-lha devagar, com alguma insegurança, pois pisava agora um terreno que desconhecia totalmente.

Senti-me com essa escrita transportado para outro tempo, para o tempo da infância, o tempo das cumplicidades intimas, o tempo das aprendizagens da timidez e das incapacidades nossas e dos outros, o tempo das cumplicidades de adolescentes sem maldade. Quando acabei de escrever na agenda que ela, em princípio, irá muitas vezes ler, ouço-a dizer-me lenta, muito lentamente, dando a cada palavra a espessura da dor que a sustentava e o tom da esperança que a alimentava : hei-de conseguir escrever e quando o conseguir quero que seja o meu primeiro leitor. Aceita?

Não se encherá então de vergonha, questiono eu, alegre que nem uma criança da escola primária, como quem ganhei uma disputa com um seu colega mais velho, nem que fosse ao jogo do pião ou do pincho

Sorriu-se, levantou-se e pergunta se fico. Fico, foi a minha resposta. Inesperadamente agarrou-me nas duas mãos, curva-se um pouco e diz-me, com uma ternura que nunca mais hei-de esquecer: até um dia destes. Hei-de vir procurá-lo aqui. Do fundo da minha alma, obrigado por tudo.

Sai. Vejo-a sair da Vénus, agora uma mulher bem direita, peito para a frente como não a tinha visto até ali. Direita, a lembrar a minha marechala acima citada, nas ruas de Faro de blusa branca vestida, a lembrar a minha mãe aos Domingos, de blusa de chita às cores vestida e de cesta de queijos à cabeça,  pelas ruas de Fratel a vender queijos, vejo-a agora a levantar-se e assumir um passo seguro, de certeza com a certeza muito intima de que voltará a ser capaz de escrever, de que irá escrever, com a certeza de que voltará a ter âncora na vida, com a certeza de que matará o vazio que até ali a consumia. E com a certeza de que voltará  alegremente a sorrir, a sorrir para o marido, para os filhos para os netos, para todos nós.

Estranha história, dir-me-ão. Poderá ser estranha, mas esta é  a pura verdade do que não inventei. Porém, por falarmos em coisas estranhas, não será bem mais estranho que a primeira versão deste texto tenha sido redigida em Julho de 2014 e que tudo o que aí se diz sobre a crise possa ser assumido como uma citação de ontem, final de Abril de 2015? A crise já passou? A crise já pertence à história e história são as águas passadas, diz-nos ainda agora o primeiro-ministro espanhol Mariano Rajoy (The Oslo Times, Dezembro 2014). A crise já passou à história, é passado mas presente são os muitos milhões de desempregados em Espanha. Nada tem a ver uma coisa com a outra mas o país e o tempo do país é o mesmo, agora, Abril de 2015!

Se mudarmos de plano e lermos não Rajoy mas Schauble ouvimos o mesmo discurso e vale a pena citar do seu artigo publicado pelo New York Times,  Outubro de 2015:

“(…) muitos países europeus está a colher os frutos dos esforços das suas reformas e dos seus esforços de consolidação orçamental. Países como a Irlanda e a Espanha, que colocaram em marcha amplas reformas quando foram atingidos pelos problemas financeiros de há alguns anos atrás, têm agora algumas das maiores taxas de crescimento na Europa.

Christine Lagarde, à frente do FMI, também chamou a atenção para a necessidade de mais reformas estruturais. Umas tais reformas incluem, por exemplo, os mercados de trabalho mais flexíveis; o abaixamento das barreiras à concorrência no sector dos serviços; uma estrutura tributária mais robusta e outras medidas similares. Eu partilho inteiramente deste ponto de vista. A política monetária pode somente comprar o tempo. O nosso trabalho é o de procurar garantir de que este tempo está a ser utilizado para pôr em ordem as finanças públicas e a colocar as economias sobre trajectórias sustentáveis de crescimento.

(…)

As prioridades para a Alemanha, como o actual presidente do grupo do G-7, são a modernização e as melhorias na regulação. Os estímulos — em ambas as políticas, na monetária e na orçamental — não fazem parte do plano.” ( o sublinhado é nosso)

E se nos virarmos para a Inglaterra lemos o mesmo discurso. Com efeito numa peça assinada pelo ministro do Tesouro inglês e pelo ministro das finanças alemão lemos, num artigo do Financial Times de Novembro de 2014:

“A Alemanha e o Reino Unido estão economicamente a ter bons resultados

Isto valida as difíceis decisões que tomámos para consolidarmos as finanças públicas e reformarmos as nossas economias.

Alguns países, como por exemplo o Reino Unido, têm ainda que proceder a importantes ajustamentos orçamentais para assegurar a sustentabilidade futura das finanças públicas. Os outros países devem manter o ritmo das reformas estruturais para impulsionar o crescimento e dar resposta ao envelhecimento da população.

Cada país da Europa precisa de reformas a nível nacional. Para muitos países, isto significa consolidar as finanças públicas;

Alguns sugerem que a reforma da UE é impossível. Já provámos que esta é uma posição errada. No ano passado viu-se pela primeira vez cortarmos no orçamento da UE.”

Cortar no orçamento europeu quando a Europa está em crise, expressão máxima de uma Europa conseguida, é inacreditável mas coerente com a posição alemã: os estímulos monetários e orçamentais estão fora do plano. Simplesmente assim. Esta é a política europeia, a mesma que justifica que em tempos de crise e pela primeira vez na história da Humanidade e em tempos de forte crise, se tenha cortado, por decisão de Bruxelas, nos orçamentos da saúde de muitos países. Os resultados estão bem à vista.

Vejo a minha amiga sair do café-pastelaria Vénus, direita como tudo, de ombros alinhados com as costas e já não caídos para a frente, sinto-a nessa postura a pensar que a sua crise existencial há-de vencer. Assim o espero, assim o desejo, mas não se pode ignorar que a crise a ultrapassa e que vai ser na sua luta diária por alcançar a qualidade de vida que a crise lhe roubou, um verdadeiro travão. Mas fico com a ideia que a alimenta uma certeza: a de que há-de vencer. Assim estivéssemos todos nós e garantidamente citações como as que acabo de colocar deixariam de ser possíveis de tomar como escritas hoje e por autoridades dos países mais fortes da Europa, porque tal como ela, perante a adversidade saberíamos ter ganho posição e tornar impossível o que honestamente é impensável mas é real: que são loucos os líderes que nos governam e nos capturam a democracia.

E é tudo, sobre este encontro acidental.

Júlio Marques Mota

Textos de referência

Cruz Vermelha Internacional, Pensar diferente, impactos humanitários da crise económica na Europa, publicado em A Viagem dos Argonautas

Júlio Marques Mota, Pequena Crónica sobre Faro-nº4, A Crise na vida das “Marias” do Mundo, publicado em A Viagem dos argonautas.

Matt O’Brien, Why the euro crisis still isn’t over, in 1 chart, Washington Post.

Satyajit Das, The Road to Nowhere” – Europe’s Debt Crisis. Publicado em A Viagem dos Argonautas.

Satyajit Das, Europe’s Debt Crisis Endgames—Stealth Solutions. Publicado em A Viagem dos Argonautas.

Standard and Poor’s, The Long Haul: Eurozone Deleveraging Could Stunt Growth For Years, Junho de 2014.

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Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

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