Diz-me o meu amigo que achou muito curioso o encontro que tive com aquela senhora idosa no sábado passado. Contudo, não me deu a sua opinião sobre se deveria ou não ter convidado a senhora a vir comigo comprar o caderno para o neto. Se calhar acha, tal como eu na altura, que seria excessivo da minha parte. De qualquer modo poderia dizer-mo. Fazia-me sentir melhor.
Mas imagine que logo no domingo houve uma cena pavorosa cá na rua. Decididamente, aqui o meu bairro anda muito agitado. Julgo que já lhe falei de uma senhora que mora aqui perto, não sei se na rua de Santo Ambrósio ou mais acima, que está muitas vezes no café a contar histórias terríveis que, ao que ela diz, se passam com pessoas que aparecem no serviço onde ela trabalha. Uma vez, já há muito tempo, o Serafim da Esplendorosa contou-me que ela trabalha nos serviços sociais não sei de quê. Ele explicou-me, mas eu não liguei muito. A dita senhora parece que se chama Otilinda. Ou será Otacília? Desculpe, não me lembro. O que sei é que ela tem aquela mania de falar alto no café, e que põe o marido extremamente nervoso com esse mau costume.
A Heloísa e eu almoçámos cedo, e ela, como habitualmente, foi ao café. Passava pouco da uma hora. Normalmente, eu vou também, mas desta vez não o fiz por causa de todos aqueles trabalhos que a Maria da Luz me deixou para fazer. Fiquei no meu quarto a passar coisas a limpo, que ainda me faltava muito para acabar. Confesso-lhe que nem uma hora era passada, já eu dormia a sono solto. Mas apesar de o quarto ficar nas traseiras da casa, o estrondo que houve na rua acordou-me e pôs-me num estado de sobressalto. Corri à janela do quarto da Heloísa, que dá para a frente, e fiquei aterrado, ao ver uma grande quantidade de pessoas em frente à Esplendorosa, a observarem a cena lá dentro, uns a recomendarem calma, outros a rir e a fazer pouco.
Como deve calcular, fiquei assustado, a pensar no que se poderia estar a passar. Já lhe tenho dito que detesto sarilhos e cenas. Já uma vez me perguntou se por acaso eu não serei um bocadinho medroso. Não o sou de modo nenhum, acredite. O que se passa é que ouvir gritos me faz muitas dores de cabeça. E que como sou assim um pouco alto, como já deve ter reparado, embora não tenhamos estado muitas vezes os dois frente a frente, tenho muito medo de magoar alguém, se tiver que dar algum empurrão ou coisa assim. No liceu, nunca andei à pancada. É verdade. Às vezes, falavam-me nisso, mas eu dizia que não podia perder tempo com isso. Que tinha de ir estudar.
Voltei para o meu quarto, e pensei em continuar a estudar. Depois, lembrei-me da minha mãe, e que talvez devesse ir ver o que se passava. Olhe, fiquei numa inquietação. Voltei à janela, e eis que vejo chegar uma ambulância. Resolvi-me a ir ao café. Vesti o meu casaco, fechei a porta à chave e desci a escada muito devagar, procurando não fazer barulho. Não me pergunte porquê. Claro que sei que ninguém estava à escuta ou à minha espera para me bater. Na rua, toda a gente estava à porta do café, ou a olhar para lá. Lá me convenci a descer a rua e a ir espreitar, para ver se percebia o que se passava. Estava mesmo a chegar ao pé de todos aqueles basbaques, quando sai uma maca com um homem deitado, em estado bastante comatoso, ao que me pareceu. Era o marido da Otilinda/Otacília! Parecia ter a cabeça partida e ferimentos por todo o corpo.
Afastei-me para o outro lado da rua, onde pensei que podia estar mais sossegado. Do lado de dentro da Esplendorosa a Heloísa fazia-me gestos, a mandar-me para casa. Mas o pessoal começava a debandar. Percebi também que estavam polícias a falar com as pessoas, no interior. A Maria Antónia, um pouco vermelha, saiu e veio ter comigo. A Otilinda/Otacília, à porta, parecia querer vir atrás dela. Mas a Toninha virou-se, e deve ter-lhe deitado um olhar tal, que a outra recuou logo para o interior do estabelecimento.
– Imagina, Mauricinho, que aquela bucha – disse-me ela. Realmente a Otilinda/Otacília é bastante anafada – resolveu meter-se comigo, e, como o marido se quis interpor, deu-lhe um encontrão tal, que ele foi por um mostrador a dentro.
– Mas isso é incrível! – exclamei eu, espantadíssimo. – Como é que ela pode dizer uma coisa dessas?
– Não faço ideia. Se calhar ela acha-me, a mim que sou uma rapariga séria, uma leviana qualquer. Vai apanhar um murro, um dia destes.
– E o marido? Como está ele? O estado é grave?
– Um bocado, ao que parece. A trancada que a mulher lhe deu foi forte. Ele quis impedir a mulher de me tocar. Coitado, ela é maior do que ele, e atirou-o pelos ares.
– Mas a que propósito a senhora – eu a tentar perceber o que tinha acontecido – resolveu embirrar contigo?
– Nem vais acreditar. A bestinha estava para ali a contar aquelas histórias do arco da velha do costume, o marido a ouvir muito chateado, o pessoal à volta a pôr o ar de quem não tem nada a ver com o assunto, ela vira-se de repente e olha-me para mim. Gritou-me que eu estava a fazer olhinhos ao marido e veio por aí fora, a apontar-me o dedo. O marido veio a correr e levou um safanão que foi pela vitrine dentro. Agarrei-a pela gola do casaco, e informei-a de que lhe ia partir a cara. Ela tentou bater-me, mas levou logo ali para contar.
A Heloísa e a D. Henriqueta chegaram ao pé de nós, bastante ofegantes. A minha mãe atacou logo:
– Que fazes aqui, Maurício? Vai para casa.
A D. Henriqueta, mais calma, foi dizendo:
– Aquela senhora anda há que tempos a ver se arranja problemas. Como não consegue impressionar ninguém com as histórias dela, resolveu tentar arranjar uma nova para lá meter os outros. O pobre do marido já não sabia o que fazer com a vida, agora ficou neste estado. E ela vai ter que pagar os prejuízos.
Fomos para casa. A Maria Antónia, quando iam a subir para o terceiro, aproveitou a Heloísa estar a abrir a porta com a chave, para me dizer muito baixinho: