DIA DA GALIZA. “[carta a um amigo]” – Carlos Quiroga*

*(Carlos Quiroga é escritor, editor de revistas maravilhosas e professor de literaturas lusófonas na Universidade de Santiago)

 Lisboa, 12 de Abril de 2015.

[1]

caro Isaque,

sei que as regras eram outras mas a escrita nunca teve. Ainda não tomei café, apenas um chá numa casa que tenho ao pé, como a cidade. Tou debruçado por cima da Travessa-do-Fala-Só, nada melhor para o caso neste domingo ensolarado. A casa leva o nome de Equity Point, a menina ao balcão só fala inglês, portanto eu Falo-Só. Aderi à visita de estudos que o meu colega leitor organizou, o esforçado João Ribeirete. Chocado como nunca por tanto turista, por tanto inglês. O Império Primeiro da materialidade parece até chegado ao coração do outro, o da espiritualidade, que futurava aquele Fernando António que tantas voltas deu à cabecinha. Esta língua que agora uso, que nasceu num ninho a norte também tomado, também estrangeirante para quem lá se entranha, só simbolicamente cabe neste uso raro, nesta prática estranha que tu promoves tanto e tão estranhamente manual, pessoal, pessoana. Mas de um tipo que se suicidou de escrita haveria que ter receios. E eu estou num banco de jardim, 09:39, a olhar para a Baixa, o Castelo, encostado ao Bairro Alto, sobre a Travessa-do-Fala-Só, em domingo de sol e barulho lá por baixo. Uma coisa infernal que promove pelos vistos uma corrida daquelas. Novos ritos sociais. Tou num banco de jardim e tu tens entre os teus confrades demasiados confrades de escrita suicidados, demasiados para ter cuidado. E não falo (Só) pelo claro Antero, esse demasiado evidente. Evidente pelo jardim, pelo modo. Também o tal hotel abaixo (posso ver no pátio as últimas meninas do meio da Europa, ou sei lá de que parte distante e outra gritada na pele branca e na boca), o tal hotel a pé delata a memória suicida de Sá Carneiro e outros bodes, da escrita e da vida. Somos desamparados na vida, os que escrevemos como os de antes escreviam, e escrevemos por isso, e eu escrevo por isso também. Dupla ou multiplicadamente desamparado como galego, estrangeiro na minha terra, no teu ninho de boca, e estrangeiro aqui, dupla ou multiplicadamente aqui, com tanto inglês.

Falo (Só) portanto aqui, com algum sentido. Lisboa é a capital do meu desamparo, e ainda que há uns minutos nem imaginava que ia escrever-te, a carta que no rito aquele das Correntes d’Escritas tu te lembraste de promover, ainda que nem imaginava que eu ia escrever nada e a ninguém, nem mesmo para mim (que é como natural e habitualmente faço) tem todo o sentido isto fazer.

As tropas exaustas de estudantes caminham para Belém, que é um modo de dizer que foram na Pr. do Comércio pegar o E15, peregrinar ao Oriente da religião que os trouxe aqui. É a última manhã do mundo e eu já tenho feitas todas as peregrinações. Todas as desse tipo. Sim, até se morresse agora, suicidado de sol, escrita ou bala neste jardim até seria um modo alto, luminoso e belo de encerrar estas páginas, visita e vida em geral. Poderia deixar de escrever, e não só esta inusitada carta (tb. para mim), poderia deixar de escrever em geral, acabar TUDO, e tudo estaria, ficaria, fecharia perfeitamente bem. Mas não tomei ainda café e ultimamente não sou gente se não tomo um café, para além de que era uma das regras que tu terás inventado –ou eu sonhei que terias, para me salvar. Obrigado, Isaque, por me salvar, vou tomar um café lá no Príncipe Real.

Carl. Quir. [rubricado]

[2]

meu caro Isaque,

vai uma segunda parte que é mais do mesmo, estado de alma e estado de estado. E estou de novo ao mirador. Revigorado de café e natas. Aqui até é necessário acrescentar a palavra ‘pastel’ para não haver dúvida. Aqui até esperam talvez que apontes com o dedo a coisa. Aqui tanto turista tanto entupe a paisagem e o ar, por reação o Fado, um tipo de idade finge que canta aí na frente. Tem um amplificador exageradamente alto, que abafa o som mais modesto e puro de um jovem de guitarra algo mais abaixo. Isto é um circo para e de estrangeiros. A vida é isso.

Bom, tomei um café com natas lá encima num Pastelaria Fábrica muito perto do Pavilhão Chinês, dentro. Um local antigo, de colunas, só mulheres que falam a nossa língua. Ainda que no balcão havia um cartaz à mão e em inglês pedindo para fazer fila. A maioria jovens às moscas, alemães em grupo, a maioria jovens. “Ó Fado ó Fado canta na rua/ Falo português…”, canta o tipo que finge que fala, que canta na rua, que trama o burguês, que bebe Caramulo, que tem caixinha preta com “obrigado/ Thanks”.

Ó deuses, e agora canta Rosalia de Castro…!!! Adeuses aos Rios, Fontes, Terrinha que nos criou, alucinante…!!! E fala “adiós”, “solidás”, “cando”, mete o hibridismo que também chama a atenção de um casal maduro… O homem do casal aproxima-se do tipo e quando ele acaba de cantar fala alguma coisa. O artista protesta num precário espanhol,

no, Amancio Prada, ele hizo la música, una vez una sehora portuguesa me disse que era moi bonita esta canción, que tenia que grabarla! Pero es de Amâncio Prada…!

O homem do casal ainda retruca alguma coisa. O cantor (ele tem um microfone de pé, afinal acompanha o gravado a sério) (por isso se pode ouvir no Largo o que diz para o outro), o cantor assegura ainda que a sua mulher é de Monção. O casal deve ser galego. Certeza que falou em espanhol. Sabe quem é Rosalia, reconhece, defende em espanhol. O cantor (que já esqueceu o casal, que atravessou pelo meu lado e foi embora), o cantor cantou agora uma canção em francês. O cantor poliglota fingido não sabe quem é Rosalia, mas acaba de cantá-la na nossa língua, hibridada de tiques mas reconhecidamente nossa. Mente propalando Amâncio Prada, acreditando que a música é a canção. Para ele é certamente, e talvez até deva ser para todo o mundo. Mas o coração e alma, esse âmago das coisas em que se pensa até uma canção, é sempre a língua, a nossa língua Isaque, galego pobre ou portuga novo rico pelo menos em saudades da glória passada.

Enfim, escrevi tudo isto num jacto, mas sentei às 11:00 neste banco e vejo que passam 24 min. Dei uma volta às portas do Jardim Botânico, espreitei a boca da Rua Monte Oliveti, lembrei-me da casa do Hermínio Monteiro onde um dia me obrigou a fechar de chaves dono, e lembrei-me do tom de antes, da morte. De novo. O Hermínio está morto. O Cesariny que ele me deu também. O Herberto Helder que tb. me deu à mesa do café pairava em adeuses igualmente na tua carta. Alguma gente que li, conheci, gostei, morreu. Até a Amália que agora o tipo canta, essa foi mais complicada mas até ela gostou de mim e eu necessariamente em reciprocidade. Quanta gente morta, caramba. Que tom mais tonto de morte tem esta merda. Será que me vejo já incapaz de olhar as pernas, corpos, destas mulheres jovens, belas, sem esperança alguma de já as querer amar, falar? Que injusto num dia tão lindo, tão cheio de mulheres, sol, tanto falar de gente morta. Tudo isto é bem mais belo que uma catedral, e mais bem de vida do que ela. Tu e a carta e o dia e o Herberto em morte também algo de culpa (ou toda) têm. Também a idade que já tenho, a situação, a consciência lúcida do nada ser, do sonhar tantas vezes inútil, do não querer já nada fingir, nem mesmo de escritas. E no entanto escrevendo.

Carl. Quir. [rubricado]

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