DIA DA GALIZA. “Da Terra Mãe da língua” – João Aveledo*

*(João Aveledo é bichólogo. Biólogo e professor de Laboratório de Diagnóstico Clínico)

            Dizem que, após colidirem a Laurásia com a Gondwana (os supercontinentes do norte e do sul na Era Paleozoica), há mais de 280 milhões de anos, formou-se o Maciço Hespérico, um importante sistema montanhoso. Posteriormente, processos geológicos erosivos acabariam por transformar o núcleo desta cordilheira no planalto conhecido como Meseta Central Ibérica. Teria sido durante a orogenia alpina, há uns 30 milhões de anos, que os seus contornos foram alterados, surgindo no recanto noroeste o chamado Maciço Galaico-Duriense.

            Por cima de estados, por cima comunidades autónomas, o Maciço Galaico-Duriense estende-se suavemente ondulado das ribeiras do Návia às do Douro, da Costa da Morte aos Montes de Leão. Eis um território variado e de características naturais peculiares.

            Lugar de encontro da fauna e da flora das regiões euro-siberiana e mediterrânica, onde as influências predominantes do Atlântico dão lugar às do Mediterrâneo, o que quanto mais ao sul e mais ao leste melhor se vislumbra, assim como nas bacias dos grandes rios (Douro, Lima, Tâmega, Minho, Sil e Ulha).

            Finisterrae europeu, com costas que o Atlântico e o Cantábrico recortam para dar paisagens amenas e diversas, ora aprazíveis, ora medonhas. País dos mil rios, em palavras de Álvaro Cunqueiro, onde os vales fluviais inundados polo mar originaram as rias, um dos ecossistemas com maior produtividade biológica do mundo, graças ao afloramento de nutrientes que banha o litoral galego-português.

            Terras temperadas pola corrente do Golfo, que contribui para a benignidade de um clima, em geral, morno e chuvoso. Clima que só nas serras interiores do oriente deixa sentir os rigores da continentalidade. Terras velhas de granitos e xistos, com solos maioritariamente ácidos e areosos que, apesar da abundância de precipitações, no estio conhecem as secas. Mas onde também existem, raros e dispersos, solos serpentínicos ultrabásicos, como os da Capelada, ou Bragança, com condições edáficas tão restritivas que obrigam a singulares adaptações evolutivas na vegetação. A Capelada, mesmo ao pé de uma das falésias mais espectaculares da Europa, guarda rochas que estão entre as mais antigas do planeta (os anfibolitos de Ortegal têm uma datação estimada em 1.156 milhões de anos).

            Mátria de bosques lendários, como a Fraga de Caaveiro, o Vidoeiral de Monte de Ramo, a Devesa da Rogueira, o Teixedal de Casaio ou a Mata de Albergaria. Florestas que a oriente são sobrevoadas por águias reais e às quais os ursos parecem querer regressar. Bosques climácicos que desde há um século retrocedem frente ao avanço do eucaliptal invasor.

            Montes de lobos e garranos bravos, de tojeiras e urzais que ardem periodicamente e periodicamente se regeneram. Montes que conservam, por vezes, relíquias de eras glaciais, como as lagartixas-das-branhas (Lacerta vivipara) e, outras vezes, reminiscências de um passado subtropical, como o feto macaronésico Culcita macrocarpa.

            Falamos da Terra Mãe, do meio que configurou a nossa identidade como povo, do berço dessa língua que no aquém-Minho foi batizada como galego e por esse mundo lá fora como português.

 

João Aveledo

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