DIA DA GALIZA. “PORTUGAL – GALIZA, Que Futuro?” – António Gomes Marques

image001Comemora-se hoje o Dia da Galiza e a Coordenação do blogue solicita que façamos um texto que da Galiza fale, sugerindo mesmo voltar a uma das suas grandes figuras, talvez a mais venerada pelos galegos, que é Castelao, a quem dedicámos um longo texto neste blogue publicado. De facto, a história da Galiza do século passado não pode separar-se da história de vida deste ilustre cidadão, seguramente a figura primeira da Galiza.

Recentemente, deslocámo-nos a Pontevedra com o principal propósito de conhecer a obra plástica de Castelao e valeu a pena. Para falar da sua pintura, dos seus desenhos, de que salientamos o álbum «Nós» (de que há uma nova edição fac-similada da Editorial Galáxia, Vigo, 2009), ou dos seus Álbuns de Guerra -Átila en Galícia. Galícia mártir, Milicianos- não temos o necessário conhecimento técnico e em pormenor para nos atrevermos a fazê-lo, para além de não caber num texto com o objectivo de assinalarmos o Dia da Galiza, álbuns estes que nascem com a intenção de fazer a propaganda da República, no seguimento do apelo do Governo da República na reunião em que juntou intelectuais e artistas galegos em Valência, mostrando Castelao nestes álbuns a dureza e a crueldade provocadas pela Guerra Civil. Deixamos uma imagem de «Non enterran cadavres, enterran semente», do álbum «Galícia mártir», datada de 1937 e que pudemos ver no Museu da referida cidade, cujo original tem as medidas de 30,50 x 22,70 cm.

Non enterran cadavres, enterran semente
Non enterran cadavres, enterran semente

Na pequena introdução ao álbum «Nós», Castelao reconhece o aparente pessimismo dos seus desenhos, não deixando de dizer que «…, eu sigo coidando que o pesimismo pode ser libertador cando desperta carraxes e cobizas d’unha vida mais limpa.». Também dignas de nota são as caricaturas que profusamente desenhou.

 Retenhamos também os desenhos que viriam a dar origem a mais uma obra: «As Cruces de Pedra na Galiza», obra esta que gostaríamos, um dia, de comparar com as fotografias de Duarte Belo insertas no livro «Os rostos de Jesus – uma revelação», com introdução de José Tolentino Mendonça (Temas e Debates/C. de Leitores, Lx., Out. de 2013) e, já agora, com fotografias que tirámos no Norte do país, nomeadamente na zona de Miranda do Douro.

 Mas a obra plástica de Castelao não se esgota nas referências que acabamos de fazer, salientando-se as obras em cor, com alguns óleos de grandes dimensões, da paisagem galega mas, sobretudo, os dedicados a cegos e emigrantes, aos quais dedicou grande parte da década de 20 do século passado. Na década seguinte, a intensidade com que se dedicou à política redundou em prejuízo desta sua produção pictórica, voltando ao desenho, os célebres desenhos de negros, apenas no final dos anos 30, já no exílio, que o levaria a Cuba, a Nova Iorque e à Argentina.

 Em 1938, na Revista Bimestre Cubana, Castelao publicou um desenho de Valle-Inclán morto, naturalmente resultado de uma imagem que lhe ficou gravada aquando do enterro deste outro grande escritor, em Janeiro de 1936, de quem Castelao foi amigo e grande admirador. Quem vê o desenho também não vai esquecê-lo!

 Esta faceta do artista merece outras referências mas terminamos falando apenas de quatro grandes desenhos, a série a que chamou «Os meus companheiros», todos representando cegos –influenciado pelos seus graves problemas com a visão?-, os quais foram produzidos quando já vivia em Buenos Aires, nos anos de 1940/41, não sendo menos importante nestes desenhos a presença das paisagens galegas, da sua Galiza, o país a que já não regressaria vivo, tendo falecido naquela cidade argentina em 7 de Janeiro de 1950.

 A Galiza é, aliás, uma presença constante na obra de Castelao, em todas as suas formas de expressão: escrita, pintura, desenho, caricatura.

 Mas a escolha de 17 de Maio para o Dia da Galiza também merece uma referência, o que nos levaria a falar da obra de uma outra grande figura galega, Rosalía de Castro (1837-1885) que, nesse dia do ano de 1863, publica os seus «Cantares gallegos», (Imp. De Juan Compañel, Vigo, 1863), antecipando os seus poemas de uma introdução que começa assim: «Grande atrevimento é, sin duda, pra un probe inxenio como o que me cadróu en sorte, dar á luz un libro cuias páxinas debian estar cheias de sol, de armonía e daquela naturalidade que, unida a unha fonda ternura, a un arrulo incessante de palabriñas mimosas e sentidas, forman a maior belleza dos nosos cantos populares.» Leia-se este excerto de «Has de cantar» (in Rosalía de Castro, «Cantares gallegos», Ediciones Akal, S. A., Madrid, 1994):

Cantarte hei, Galicia,

Teus dulces cantares,

Que así mo pediron

Na beira do mare.

Cantarte hei, Galicia,

Na lengua gallega,

Consolo dos males,

Alivio das penas.

Lendo os poemas, logo concluímos que não há justificação para tal modéstia, sendo considerado um livro chave na afirmação da Galiza e da sua língua. Dezassete anos depois voltaria Rosalía de Castro à poesia, publicando «Follas novas» (La Ilustración Gallega e Asturiana, Madrid, 1880). Castelao sublinhou bem a dívida que a língua galega tem para com os seus poetas, aproveitando todas as oportunidades para o lembrar como, a título de exemplo, no seu discurso no Congresso dos Deputados de Madrid, em 8 de Setembro de 1931:

«A ressurreição da nossa língua no século XIX foi um serviço à democracia, e os poetas galegos foram os criadores do alento civil da Terra. O galego é falado pela maioria dos habitantes da Galiza e é por todos entendido.»

Mas aquela viagem a Pontevedra serviu também para revisitar a Casa Museu Rosalía de Castro, em Padrón.

Na casa de Rosalía de Castro, em Padrón

E, como não poderia deixar de ser, de Padrón a Vilanova de Arousa são apenas 36 km, não perdendo assim a hipótese de visitarmos a Casa Museo Valle-Inclán, declarada monumento nacional em 1976 dado ser ali que o escritor nasceu, na casa dos seus avós maternos. Estivemos ali em 1994, ainda não era Casa Museu, falámos com uma senhora que se disse familiar do escritor –sobrinha-neta?-, mas que não se mostrou muito receptiva à ideia de transformar a casa no que é hoje, nem tão pouco de a nos mostrar. Na visita de Outubro de 2013, viemos a saber que nesse mesmo ano de 1994 um incêndio destruiu o seu interior, o que obrigou à sua reabilitação, respeitando em absoluto a casa original, quando da sua transformação em Casa Museu.

Um aspecto do piso de baixo da Casa Museu

Ao evocar D. Ramón de Valle-Inclán (1886-1936), não podemos deixar de falar na grande admiração que o escritor sempre dedicou a Eça de Queiroz, ao ponto de o traduzir para castelhano -«y muy bien», escreveu Francisco Umbral (Valle-Inclán – Los Botines Blancos de Piqué», Ed. Planeta, S. A., 3.ª ed., Barcelona, Março de 1998)-, ficando uma vontade enorme de entrar na polémica provocada por Fernández Montesinos, no seu ensaio de 1970, «Modernismo, esperpentismo o las dos evasiones», o que nos é impedido pelo facto de não conhecermos esta obra, ficando-nos pelo que, na obra citada, escreve Francisco Umbral: «Entre Queiroz y Valle no hay sino un vago parentesco galaicoportugués» (pág. 112), o que nos leva ao que, neste Dia da Galiza, mais nos interessa e que é este parentesco bem presente entre os dois países da Hespaña, termo este que, em Castelao, significava «Ibéria ou Península Ibérica. A vontade manifestada por Castelão foi que a Hispânia se construísse como uma Federação das nações que a constituem: Castela, Catalunha, País Basco, Portugal e Galiza», como escrevemos numa nota a «Uma Carta a Oliveira Salazar», da autoria de Castelao e de Ramón Suárez Picallo, que publicámos em português corrente neste blogue «aviagemdosargonautas.net».

Da Casa Museu de Valle-Inclán a Rianxo, a terra natal de Castelao, contornando a Ria de Arousa, são mais 30 km, mais quilómetro menos quilómetro, ou seja, mais 30 minutos de carro atendendo a que viajamos por uma estrada cheia de curvas. Aqui chegados, logo nos apressámos a calcorrear as suas ruas, à procura da casa onde nasceu Castelao, hoje uma outra casa, não a original, onde, no seu centenário, colocaram uma placa, como igualmente fizeram na outra casa onde viveu por muitos anos.

Aqui chegados, há que referir que a constante referência de Castelao a Portugal não se limitou a esta sua concepção de Hespaña, como não é por acaso que na referência àquela carta ao ditador português se diz que a «publicámos em português corrente», sendo a leitura de Castelao e o estudo do período e do ambiente histórico em que viveu o nosso autor que nos impediram de dizer que a traduzimos.

Olhemos para a obra maior de Castelao, «Sempre em Galiza» (Através Editora, da Agal-Associaçom Galega da Língua/Editorial Galáxia, Junho de 2010), livro que, no dizer de Miguel R. Penas, «…é um dos alicerces ideológicos em que se apoiou o nacionalismo galego para se reconstruir após a barbárie fascista que começou no ano 1936, e da qual ainda hoje padecemos consequências bem directas na Galiza». No mesmo opúsculo -«Sempre Castelao – Sete achegas a Castelao e ao Sempre em Galiza» (que acompanha a edição da obra de Castelao)-, escreve Fernando Vasquez Corredoira, o responsável pela publicação da primeira versão em português corrente do «Sempre em Galiza»: «Sabemos, porque se tem dito e se diz com a recorrência venerável do lugar-comum, que galego e português são uma e a mesma língua.», acrescentando mais à frente que «Singular ocupação a minha a de rescrever em português o que já foi escrito em português, ponderando, peneirando, polindo, imaginando como poderia ter sido e como por ventura ainda poderá ser esta nossa língua.»

 Castelao dedica muito da sua obra a esta questão e, quando luta pela autonomia da Galiza, tem como objectivo último a criação da tal Federação das nações de Hespaña, como já referimos, como constantes são as referências à cultura portuguesa e a alguns dos seus ilustres representantes, como Oliveira Martins e Teixeira de Pascoaes, sem, claro, esquecer Camões.

 Infelizmente, Galiza e Portugal nunca foram capazes de se unir na luta pelos muitos interesses comuns, onde a língua seria o factor mais forte dessa necessária unidade e a União Europeia, como a conhecemos, nada vai contribuir para que os dois povos irmãos possam construir em liberdade um futuro que aos dois traga vantagens, enquanto não formos todos capazes de acabar com a chamada burocracia de Bruxelas e os políticos que nos (des)governam, esmagando os países do Sul e, inevitavelmente, destruindo a própria Europa e o invejável estado social europeu.

 Para ilustrar o que acabamos de dizer, e referindo apenas o interesse de Portugal e Galiza, basta recorrer a um artigo, publicado no Público de 26 de Abril último, «As mentiras de Pires de Lima», da autoria do Secretário-geral da Rede Ibérica de Entidades Transfronteiriças, Xoan Mao. Neste artigo, desmente as afirmações de Pires de Lima, o «clownesco» ministro da Economia do (des)governo português, sobre a necessária linha ferroviária, em bitola europeia, que deveria ligar o porto de Leixões e o aeroporto Sá Carneiro a Vigo, permitindo o transporte de passageiros e de mercadorias entre o Porto, aquelas infra-estruturas e a Galiza, Vigo, nomeadamente, trazendo vantagens económicas aos dois países e um grande contributo para combater a crise económico-financeira que vivemos. Seria vantajoso para os dois países e para os seus povos, mas não será vantajoso para os «donos disto tudo» que mandam nos governos europeus.

 Xoan Mao não devia surpreender-se com as mentiras do «clownesco» ministro, sendo natural que agora já saiba que o (des)governo português outra coisa não faz do que mentir diariamente.

 A terminar, não podemos deixar de referir que vemos uma pequena luz ao fundo do túnel no caso de o povo português apoiar Henrique Neto para a Presidência da República, o único candidato que, na sua Estratégia para Portugal, propõe para o desenvolvimento da economia portuguesa a transformação do porto de Sines num «hub» de transbordo de mercadorias (transhipment, é o nome internacional), para isso tendo já grande capacidade e ainda potencialidade para alargar o cais para os maiores navios de contentores, permitindo assim que, depois, os navios mais pequenos, com capacidade até 12 toneladas, transportassem, a partir de Sines, as mercadorias para outras regiões ao longo da costa portuguesa e que, a partir de Leixões, pudessem chegar à Galiza pela referida linha ferroviária. Este projecto, se concretizado, traria um valor logístico incalculável ao porto de Sines, sonhando Henrique Neto ainda com a possibilidade que se abriria para atrair a Sines novas fábricas que receberiam componentes de várias partes do Mundo, permitindo a montagem de produtos finais e a sua exportação por via marítima, como referido, e aproveitando as citadas infra-estruturas para o seu transporte até à Galiza, com óptimas possibilidades de desenvolvimento para Portugal e Galiza, para além da criação de mais emprego nos dois países irmãos. Falta que os portugueses sejam capazes de o exigir.

 Portela (de Sacavém), 2015-05-17

Leitura recomendada, para além das referidas no texto:

«Castelao – na luz e na sombra», biografia da autoria de Valentín Paz-Andrade, Editorial Galáxia, S. A., Vigo, 2012.

1 Comment

  1. Na transcrição que se faz da introdução de Rasalía de Castro, no seu «Cantares gallegos», há um erro; escreve-se «atrevimento» quando deveria escrever-se «atrevemento».

Leave a Reply