Nas enciclopédias vulgares, capazes de administrar “cultural geral a toda a família” pode ler-se que as primeiras experiências com balões foram feitas em França, no ano de 1783, numa localidade próxima de Lyon…
Ao ler isto, fica-se varado, em brasas! – As brasas que a História dos outros acendem no peito de um português, não servem tanto para o experimentar como para o menoscabar… O pior é que a História assopra onde quer e, assim, temos o céu coalhado de experimentos de voar e pioneiros, todos eles os “únicos” e os “primeiros”. Enfim, a prova de quem foi o primeiro argonauta dos ares não é boa de tirar… Por isso, penso que há que contar a história dos nossos aeronautas, nem menos valentes no ar do que foram os argonautas no mar de quinhentos…
Na primeira metade do século XVI, estava-se ainda na fase experimental “de pássaro”, por assim dizer, que é mais uma acção que depende da vontade e arrojo individual (um pouco como os pegadores de touros!), do que expediente de aturado estudo e observação da Natureza. Esta é a história de João de Almeida Torto, enfermeiro no Hospital de Santo António de Viseu, mas também «barbeiro com carta de sangrador, astrólogo, mestre de primeiras letras e escrevente de cartas familiares de namoro». Enfim, um pícaro de complexa relojoaria.
Pode deixar-se enlevar o leitor no maravilhoso… Com a bizarria deste escriba que, deixe que se diga, foi um poeta do espaço…
Não sabemos se cheirava a maresia e vinha do largo oceano, para as matas que circundavam Viseu, um hausto de salsugem e aventura, o que sabemos é que no dia 20 de Junho do ano de 1540, João de Almeida Torto decidiu fazer a demonstração pública de um aparelho voador de sua invenção, «a maior das maravilhas, qual vem a ser um homem voar com asas feitiças da torre da Sé até ao Campo de S. Mateus», como dizia um pregão lançado pela cidade.
O acontecimento é-nos relatado por uma escritora do século XVII, D. Maria da Glória, denominada a «Probenda», e vem citado pelo Pe. Henrique Cid nas suas «Efemérides» e por Albino Lapa na sua obra «Aviação Portuguesa» (ed. 1928).
Porém o Ícaro de Viseu teve pouca sorte… Haverá pessoas que, mercê de certos indícios, da sugestão de um nome de família, não carecem de apresentação para que as identifiquemos? – O certo é que o nosso argonauta do espaço se chamava Torto e, como garante o adagiário popular português «Quem torto nasce, tarde ou nunca se endireita»… Assim sucedeu com o infeliz: – A experiência teve desastroso resultado, pois o parelho caiu sobre um telhado e o seu incauto tripulante perdeu os sentidos, vindo a morrer poucos dias depois.
Os obstáculos à incorporação do espírito experimentalista das Descobertas noutras áreas deviam ser muitos: – De tempo e de espaço, de herança cultural, de ambiente e de linguagem científica, sobretudo para um enfermeiro de Viseu e «barbeiro com carta de sangrador» .
Leonardo da Vinci (1452-1519) havia deixado uns desenhos sobre maquinismos voadores, mas não se atrevera a experimentá-los! – Todavia, ficou conhecido por mil e uma razões de peso… Enquanto o nosso João de Almeida Torto, que experimentou o seu invento, nesse andar as apalpadelas, cientificamente comovente, ficou na prateleira dos esquecidos… No entanto, apesar do seu nome próprio para o anedotário, não foi ele um verdadeiro homem da Renascença e seu experimentalismo?!
Parece que tem direito a umas escassas linhas nas velhas enciclopédias portuguesas, que ainda se podem adquirir nos alfarrabistas… Prontos a inventariar navegantes de água salgada, injustos e ignorantes, não nos lembramos deste argonauta do espaço, e esquecemos um herói que foi prisioneiro do maravilhoso… e pagou com a vida o seu “atrevimento”!
