Catarina Eufémia e a poesia (2) – por Carlos Loures

 

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Gravura de José Dias Coelho

Passa hoje mais um aniversário do dia em que teve lugar um dos mais criminosos (e simbólicos) actos de repressão fascista – o assassínio de Catarina Eufémia no dia 19 de Maio de 1954, em Baleizão. A análise que fiz sobre a onda de poemas que o crime desencadeou, ficou desactualizada pela publicação da antologia Catarina Eufémia que, sob a direcção de José Casanova e publicada em 2014 pelas Edições Avante, acrescentou às obras que referi no meu artigo um número substancial de outras poesias.

Tendo acedido a que um poema meu fosse incluído nessa antologia, gesto de que não me arrependo e que, segundo se verifica pela leitura da lista de colaboradores, assumido também seguido por outros poetas não pecepistas, parece-me excessiva  a partidarização da antologia, mesmo considerando que se trata de uma obra com a chancela das Edições Avante. Não ponho em causa a filiação da camponesa mártir no PCP. Há quem conteste essa filiação – a mim parece-me, do ponto de vista literário (trata-se de uma colectânea poética), completamente irrelevante. Sendo ou não militante do PCP, Catarina mostrou uma coragem e uma dignidade que honram os portugueses em geral e as mulheres trabalhadoras em particular. Há figuras que, pela sua dimensão simbólica e pelo lugar que ocupam no imaginário colectivo, não são, não devem ser, exclusivo de um partido. Pela diversidade ideológica que o conjunto de colaboradores representa, sou da opinião que Catarina Eufémia pertence a todos os que, num Portugal oprimido por um regime fascista, lutaram pelo derrube desse regime. E pertence também aos que o fizeram, usando a força da palavra poética.

Em Novembro de 2014, José Casanova morreu. Prestamos homenagem à sua memória de lutador não calando a crítica que faríamos ao seu trabalho se estivesse vivo. E reconhecemos o mérito desta antologia como fonte de informação, abundante, abrangente, sobre a poetização de um episódio dramático da luta contra a opressão salazarista.

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