EDITORIAL – Sondagens, previsões e profecias

logo editorialJá aqui falámos do negócio das sondagens eleitorais e de como, pretendendo desvendar o futuro, tentam muitas vezes servir o passado, conservando-o. Sabemos também como os vaticínios no futebol são influenciados mais pelo que se deseja que suceda do que por uma análise serena e objectiva das forças em presença – e, neste campo, como disse alguém, «prognósticos, só depois do jogo».

As previsões dos politólogos, exprimem o que os seus autores, baseados na experiência da História, entendem que vai suceder. Do mesmo modo, os ecologistas, úteis por nos prevenirem contra procedimentos criminosos e lesivos da conservação da natureza, pecam frequentemente por tremendismo.

Veja-se o caso da águia-pesqueira que deixou de nidificar em Portugal há quase vinte anos, que se considerava uma espécie extinta e que voltou agora às nossas arribas. Quando da construção da ponte Vasco da Gama, previu-se a extinção dos flamingos. E não é que as simpáticas aves adoptaram os numerosos pilares da ponte para instalar os ninhos e ali acolher os seus trôpegos e encantadores nascituros?

Para a vaga de emigração dos nossos jovens e para o facto de atingir particularmente os mais capazes do ponto de vista da qualificação académica – afectando licenciados, mestres e doutores que formamos com os nossos impostos e que vão usar a competência adquirida nas nossas universidades e institutos – para esta hemorragia demográfica, é difícil prever um final feliz, mas… nunca se sabe.

Já neste blogue temos referido a previsão optimista de Albert Jacquard – o geneticista francês (1925-2013) que defendia previsões inusitadas, mas bem sustentadas cientificamente. Porque um dos motivos da falência das profecias e previsões é considerar que os dados que o passado e o presente nos proporcionam, são válidos para avaliar o futuro. O envelhecimento da população mundial, só é uma tragédia à luz dos valores do capitalismo em que a produção constitui um factor primordial. Um exemplo – se a acumulação do capital que a produção, baseada exploração intensiva da força do trabalho permite deixar de ser um motor de toda a economia, o facto de haver um aumento da percentagem de velhos na população mundial, não representa necessariamente uma tragédia – a experiência acumulada pelas pessoas mais velhas, poderá mesmo significar, numa sociedade que se oriente por valores diferentes, uma mais-valia.

A vida tem uma força insuspeitada e, quando parece estar num impasse, encontra caminhos improváveis para se manter. Análises que agitem fantasmas do passado e os coloquem como inevitáveis referenciais para o futuro, são, por vezes, tentativas para evitar a irupção do futuro – do improvável e sempre surpreendente futuro. Prognósticos válidos, só os que se fazem depois do jogo.

Leave a Reply