CRÓNICA DE DOMINGO -” A História pode dar alguma ajuda” – XVII – por Carlos Leça da Veiga

 

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Embora fiel ao titulo usado por dezasseis vezes, desta feita, o que devia escrever era que à História, não basta dever ajudar mas sim, tem mesmo de dar alguma ajuda. A situação política actual deste nosso País sente os efeitos dum retrocesso de grande monta na tão desejada justiça social e, por igual, sofre com aqueles que mão malévola, deliberadamente, não só contrariam a Democracia da Igualdade, da Liberdade e da Fraternidade e asfixiam a Solidariedade Social, como, também, à vista de todos, para gáudio dos possidentes, não hesitam em querer mandar saldar o País. Tudo quanto é estratégico está a ser posto ao desbarato.

Bem precisamos duma reviravolta significativa mas, desgraça nossa, nada indicia verem-se-lhe vislumbres .

Se pensar em factos já passados não basta, bem sabido, para trazer uma cura, esse rememorar, para uns tantos compatriotas – poucos que sejam – dalgum modo, sempre faculta algum alívio e possibilita uma ajuda, senão para ter-se esperança, pelo menos, para manter-se o sonho.

Parece-me muito apropriado recordar e festejar o acontecimento histórico que, na minha opinião, foi aquele que, de verdade, deu inicio à derrota dos germânicos na chamada Segunda Grande Guerra de 39/45 e que, nos dias que correm, sabe bem poder recordar.

Por muito exaltadas que sejam – como bem mereceram e merecem –  as façanhas militares que duma maneira heroica conduziram à destruição da máquina bélica dos nazis, foi no dia 13 de Maio de 1940 – cinco anos antes – que houve um facto político  imensamente feliz e não menos indelével  que só por si – não hesito em afirmá-lo – determinou o começo da derrota germânica e, em definitivo  – para mim isso é indiscutível  –  marcou, para todo o sempre, a História da Humanidade.

Nomeado Primeiro-Ministro do Reino Unido, em 10 de Maio desse fatídico 1940 – há setenta e cinco anos – Winston Churchill, três dias depois, com a sua habitual determinação e vigor políticos e com uma oratória celebre e inigualável, ao pedir um voto de confiança aos deputados dos Comuns teve a coragem – tão incomum nos políticos – de só prometer aos seus concidadãos nada mais que sangue, sofrimento, lágrimas e suor o que, para todo o sempre, na memória dos seus contemporâneos e nas páginas da História ficou consagrado como  “Sangue, suor e lagrimas”.

Em 29 de Setembro de 1938, em Munique, dois anos antes, Neville Chamberlein, Chefe do Governo do Reino Unido e os seus comparsas continentais, então, tal qual como acontece ás governações políticas dos dias em que estamos a viver, baixaram os braços perante a prepotência iniqua do capitalismo nazi dos  germânicos e, ás suas ordens – a Paz de Munique – numa indiferença covarde, deixaram apagar do mapa um estado livre, independente e sem culpas no cartório,a Checoslováquia.

“Entre a desonra e a guerra, escolheste a desonra e tens a guerra” foi a mensagem que Winston Churchill dirigiu à submissão de Chamberlein, seu colega de bancada parlamentar e cuja política do chamado apaziguamento, uma imbecilidade de grande oportunismo e conveniência políticas, deu tempo bastante para que os germânicos, com melhor preparação, dessem inicio a essa imensa carnificina que de 39 a 45 dizimou milhões de vidas em vários Continentes. Apaziguar, acima de tudo – agora, diz-se “estabilidade política” – já que,  antes aceitar Hitler, o seu fanatismo e a sua brutalidade do que dar ouvidos à voz daqueles, sempre proscritos e carne para canhão, que numa ânsia de equidade queriam tocar no bolso dos “donos daquilo tudo” que, esses, sempre tem havido.

Nos dias de hoje, com todas as nuanças possíveis de equacionar versus deturpar – e, para esta, há uma legião de fâmulos sempre disponível – quanta covardia pode detectar-se nos chamados dirigentes europeus – uma outra edição dos Chamberlein – perante as múltiplas ameaças duma outra força armada que, agora, sem estar a precisar de disparar não é menos cáustica e dá pelo nome de poder económico, de indústria bancária, de força do mercado, de ajustamentos político-financeiros, de austeridade, de união europeia, de equilíbrios estratégicos, de moeda única ou, ainda, impossível esquecer-se, de obediência a velhos interesses expansionistas que, sem pausas, pululam neste mundo ocidental

Para infelicidade dos Povos, quaisquer daquelas modalidades de pressão e de ameaça, em quaisquer estados desta União Europeia, vivem paredes meias com a ajuda interessada e interesseira das várias forças políticas do arco-íris neoliberalista que, bem municiadas pela comunicação social, sem cessar, fazem pairar sobre milhões de europeus – cuja alienação tem sido sabiamente inculcada – a ameaça da banca rota, da inexistência duma qualquer alternativa fiável, da miséria instalada, da ingovernabilidade, do caos político e, caso imprescindível, para mais atemorizar, do terrorismo instalado. Tudo, tal como em 1938, nada que contrarie quem sabe meter na ordem a malandragem que não aceita o mundo tal qual sempre foi, deve e tem de ser.

Que falta faz ao mundo uma reedição de W. Churchill. Defeitos não lhe faltaram mas, em compensação, ficou a dever-se-lhe o exemplo de como, mesmo sozinho, não deve ter-se medo de enfrentar o touro.

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