Se não tivesse existido a Grécia, os líderes europeus teriam de a inventar
Edward Hugh
Ele deve ser escolhido de entre vós como um bode expiatório. Hipponax
Um dos aspectos mais intrigantes de todo o drama grego moderno é a forma tragicómica que o país parece estar constantemente condenado a viver fora dos temas bem conhecidos, provenientes da sua própria mitologia. O exemplo mais recente é a maneira do que foi outrora o berço da civilização europeia a ter-se deixado converter em modelo de tudo o que os seus concidadãos europeus não são. Ou pelo menos, esta é a história em que é suposto devermos acreditar.
A historiografia e a cultura grega estão repletas de referências a uma figura – o pharmakos, ou bode expiatório – em que era necessário a sua morte para que outros pudessem viver. Na verdade, o ritual do pharmakos é provavelmente tão antigo quanto a própria experiência humana. Na Grécia clássica, era costume em tempos de crise alguns pobres infelizes serem escolhidos para servirem como um bode expiatório, e cujo castigo servia para acalmar os demónios, para que estes ficassem curados. .
A infeliz vítima, de acordo com os textos, fera primeiramente agredida, sovada, com ramos de figueira e depois cerimoniosamente levada através da Comunidade reunida para receber uma acusação verbal antes da execução de sentença, que invariavelmente significava ser morto em sacrifício ou então definitivamente banido. Todo este processo, normalmente, tem sido interpretado pelos antropólogos como o meio de purificação do grupo relativamente ao sentimento de alguma “poluição”, à ideia de algum tipo de praga ou de um grande infortúnio que inexplicavelmente se abateu sobre eles. A fonte do mal é primeiro acumulada na vítima – o bode expiatório – que é então sacrificado a fim de que o mal possa ser extinto e a cidade fique limpa. .
De acordo com o britânico Jane Harrison, especialista do século XIX sobre os clássicos, o pharmakos era visto como um “horror infectado”, até mesmo porque a melhor coisa seria ” pôr fim a uma vida que era pior que a morte”. A ressonância de tudo isto com a história recente da zona euro não deve ser difícil de discernir. Para muitos a Grécia acaba por estar a incarnar tudo o que é muito mau na União Monetária. Devido ao seu próprio laxismo, a Grécia foi transformada na maçã podre que põe em perigo tudo o resto. A Grécia precisa então de ser posta de lado, deve mesmo ser expulsa. Hipocritamente ou não, alguns vão mesmo até ao ponto de sugerir que seria do melhor interesse do país conhecer este destino, sofrer um Grexit forçado como um acto de bondade, de uma forma que é também uma reminiscência dos argumentos utilizados para justificar acabar com o bode expiatório em grande sofrimento . Uma vida que era, afinal, “pior que a morte”.
A linha na areia que foi traçada lentamente por todo o país mas seguramente tornou-se uma fronteira impermeável. O passo lógico a dar agora pelo país, é o “controlo dos capitais”, ou então, como muitas vezes ouvimos, como se uma tal medida possa ajudar o país a permanecer dentro da moeda única, enquanto que na realidade é o primeiro passo a dar pela estrada fora a caminho da saída.
Extraordinariamente, aqueles que são mais elogiados por serem “não como a Grécia”, muitas vezes, face a uma análise séria da sua situação, são apenas versões mais suaves da mesma coisa. Eles têm dívidas que são quase tão insustentáveis como a da Grécia (Itália ou Portugal), eles têm défices orçamentais muito mais elevados (Espanha), eles precisam de mais postos de trabalho e de pensões de reformas como a Grécia, e se nada mais fizerem estarão seguramente prisioneiros em semelhantes “armadilhas do crescimento”. Ainda longe dos outros que estão a ser sujeitos à dura austeridade e a uma violenta pressão para “um violento amor”, ou seja, para aplicação intensa das reformas ditas estruturais, estes países ditos periféricos são os grandes beneficiários – sem qualquer tipo de condicionalidade – da compra de títulos da dívida pública pelo banco central, um recuo para garantir ultra baixas taxas de juros e um agradável acesso aos mercados de que o país transgressor permanece frustrantemente isolado. Dado que a Grécia é tão obviamente o membro mais fraco do grupo, que tipo de lógica bizarra leva os líderes da UE a impor à Grécia a mais difícil das condições, especialmente dado que muitíssimo está em jogo para todos nós?
Vista a situação a uma certa e adequada distância, não é difícil argumentar que se a Grécia não tivesse existido, muito provavelmente, seria necessário inventá-la. Entre tantas partes em briga, a presença da Grécia tem servido para os unir, para fazer com que, face a ela, possam reafirmar bem alto que eles, afinal, não são como a Grécia. Quaisquer que sejam os seus defeitos, o facto de que o ministro das Finanças Varoufakis se ter encontrado em minoria de 18 para 1 em Riga diz-nos mesmo muito: a Grécia é o laço que os une.
Assim, a Grécia tem sofrido muito para que a Europa se possa salvar, e isto aconteceu por duas vezes.
A primeira vez foi quando a dívida do país conscientemente não foi reestruturada em 2010, provocando um ajustamento orçamental impossível, que inevitavelmente foi seguido por uma ultra profunda recessão. Esta decisão, como é frequentemente reconhecido, permitiu que os bancos europeus fossem salvos, enquanto ao mesmo tempo levava a que todos os outros países em dificuldade afirmavam que as suas economias simplesmente não estavam a ser como a da “Grécia”. Na verdade, a muito alardeada União Bancária Europeia é muito simplesmente um subproduto dos trabalhos gregos, tal como era a promessa de salvar o euro enunciada por Draghi. Sem a ameaça de contágio da Grécia para justificar esta posição, para que é que isto haveria de ser feito?
E agora, diante dos nossos olhos, a história está-se a repetir. A segunda vez em que a Grécia salva a Europa foi com uma tragédia semelhante à primeira. A Grécia está faminta de dinheiro, enquanto os restantes países estão a receber um apoio substancial na dívida e a desfrutarem de verem os seus juros reduzidos a níveis extraordinariamente baixos através da compra de títulos feita pelo programa de flexibilização quantitativa de Draghi. Os objectivos dos défices orçamentais em países como a França, Espanha, Itália e Portugal tem sido relaxados e em todo o caso os riscos de crédito da dívida pública já não atraem a atenção do investidor como antes acontecia. Toda gente quer cavalgar na onda de Draghi em vez de estar contra ele. E exactamente como é que a QE avançou tão facilmente no board do BCE quando o Conselho de Governadores do BCE está tão profundamente dividido? Não seria porque aqueles que mais se lhe opuseram também são aqueles que mais estão a favor de se forçar ao Grexit, não será isto?
Poderá ter havido um qualquer tipo de “aliança profana” entre falcões e pombas no banco central, uma vez que a QE coloca no lugar e no essencial “um cordão sanitário” mesmo quando muitos andavam ocupados a negar que havia um sério risco de deflação real. Naturalmente, é a presença deste “cordão sanitário” que a QE seria absolutamente essencial para o bem-estar existencial da moeda comum, se viesse a acontecer o pior nas negociações com o novo governo grego.
Como é que poderia ser de outra maneira , naturalmente, para que aqueles que são julgados os mais fortes consigam o apoio da maioria, enquanto que os que são considerados os mais fracos são deixados expostos – como os bebés frágeis num longínquo passado do mundo – aos lobos e às inclemências do tempo , para apenas se testar se são suficientemente fortes para sobreviver antes de ser alimentados?