SE NÃO TIVESSE EXISTIDO A GRÉCIA, OS LÍDERES EUROPEUS TERIAM DE A INVENTAR, por Edward Hugh – II

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(continuação)

O PRIMEIRO RESGATE PERMITIU CRIAR UM CORTA-FOGO

A Grécia, sem dúvida, sofreu muito em consequência do atraso na aceitação de que a dinâmica de dívida inicial do país era insustentável. Na verdade, os técnicos do FMI estavam disso convencido disto desde o início, mas os dirigentes da UE opuseram-se a esta posição e do ponto de vista grego um longo tempo crítico foi perdido. Como o FMI explicou   na sua revisão do programa do primeiro resgate : “Uma reestruturação da dívida inicial teria sido melhor para a Grécia, embora isto não tenha sido aceite pelos seus parceiros da zona euro.”

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Teria sido bem melhor para a Grécia pois que teria permitido ao FMI emprestar por um longo período, o que significaria que a taxa de redução do défice orçamental poderia ter sido mais lenta. Em linguagem simples a austeridade aplicada teria sido menos intensa e o ajustamento económico mais fácil de gerir. Esta é a filosofia que no momento presente está a ser utilizada para com os défices de Espanha e da França. Estes dois países desde há muito tempo que têm batalhado contra a pressão de que os défices se situem abaixo do valor crítico de 3% do PIB previsto no Tratado de Maastricht, e há um consenso de que se trata de uma coisa boa.

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Um reconhecimento bem mais cedo de que a Grécia estava insolvente teria certamente ajudado os gregos, mas isso não seria bem vindo para os outros governos da UE que teriam preferido assim ajudar os seus bancos – e em primeiro lugar ajudar aqueles que tinham andado a financiar os excessos . “O contágio da Grécia foi uma grande preocupação para os membros da zona euro”, explica o FMI, “dada a exposição considerável dos seus bancos face à dívida soberana na periferia da zona euro”.

Deste modo, um programa onde havia sérias dúvidas sobre a sustentabilidade da dívida a longo prazo foi adoptado,  devido ao risco de contágio com outros países na zona euro. O resultado daí resultante foi o de que a correcção da Grécia teria que ser concretizada mais rapidamente (ou uma tentativa teria que ser feita nesse sentido) resultando daí uma recessão muito mais acentuada do que o que seria absolutamente essencial. Esta maneira de fazer as coisas, não é desejável, mas ainda menos desejável é fazê-lo e não se responsabilizarem pelo facto de o terem feito.

O objectivo da linha de argumentação que é aqui enunciado não é a de defender a visão de mundo de Syriza ou do actual governo grego, é antes a de sugerir que os erros cometidos anteriormente são o que produziram um clima no qual prosperam os argumento do tipo dos de Syriza. Simplesmente, estar a culpar os gregos por isso é uma farsa. Os líderes europeus precisam olhar para além do actual governo grego e pensar sobre os interesses de longo prazo dos próprios gregos. Colocar o governo grego numa situação de absoluta falta de dinheiro e esmagar a retoma da economia grega – o que só irá posteriormente fomentar mais radicalismo– não é seguramente a maneira correcta de fazer as coisas.

Qual é a dimensão do risco de recessão na Grécia?

Obter os dados concretos sobre a realidade da economia grega desde Fevereiro é ainda difícil, uma vez que todos os desenvolvimentos importantes são ainda muito recentes. No entanto, todas as informações de que se dispõe actualmente apontam na direcção de um grave enfraquecimento da economia. O sentimento económico tem vindo a diminuir nos últimos meses, e a sua queda no mês de Abril foi particularmente acentuada. A economia contraiu nos últimos três meses do ano passado, e certamente contraiu-se novamente nos primeiros três meses desse ano, gerando-se uma nova recessão quase que de certeza.

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O Greek Parliament Budget Office declarou no final de Abril que, na sua opinião, a Grécia estava em risco de uma nova recessão. “Um acordo com os credores é urgente porque o país está em perigo de cair em profunda recessão e falta de estratégia pela parte do governo prejudica a economia”, dizem-nos no seu último relatório trimestral. Na verdade, a economia está quase que certamente numa situação de recaída e numa trajectória de recessão desde o último trimestre de 2014. Os depósitos bancários caíram de 26 mil milhões de euros desde então e as dívidas pendentes do Estado aumentaram quase 3,5 mil milhões de euros no primeiro trimestre de 2015.

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A maioria das empresas está a ter sérios problemas financeiros e enormes dificuldades com clientes e fornecedores estrangeiros. Multiplicam-se os empréstimos vencidos e não pagos e o sector de venda a retalho está a ter muitas dificuldades , enquanto os novos investimentos são quase inexistentes. A economia atingiu um ponto onde mesmo as empresas saudáveis estão em perigo, diz o relatório. Alguns factos a reforçar esta visão também vem também do registo comercial grego, que se refere a uma queda anual de 21,8% na criação de novas empresas nos primeiros três meses do ano.

Como os serviços do Parlamento sobre o Orçamento do Parlamento, a economia está a começar a sofrer de dificuldades de tesouraria e de liquidez. Os bancos sofreram uma grave redução dos depósitos e embora muita destes sejam cobertos pela assistência de liquidez de emergência (ELA) obtida através do BCE o facto que aqui importa é que as pessoas vão ter preferência em serem elas a guardar as suas divisas Euros no caso de Grexit ocorrer . Isso por si só reduz a actividade da economia.

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Mas, além disso, o próprio governo grego debate-se com falta de liquidez, o que significa que não está a pagar aos seus fornecedores pontualmente, se é que lhes está a apagar. Estes fornecedores precisam então de empréstimos bancários em capital de curto prazo mas os bancos estão também com falta de liquidez e assim por diante. Basicamente, a economia está a sofrer de uma grave crise de liquidez e de dificuldade de acesso ao crédito (credit crunch) e é difícil ver como é que nesta situação não se vai ter um grave efeito negativo sobre a actividade económica. As últimas previsões da EU sobre a Grécia reconhecem este estado de coisas e baixaram as suas estimativas quanto ao  crescimento do PIB para 2015 de 2,5% para 0,5%. Mais ameaçadoramente também previram que as perspectivas de dívida para este ano passam de 170.2% para 180.2% do PIB. Uma vez que a Grécia está efectivamente falida, isto inevitavelmente significa mais perdão de dívida pela parte dos parceiros da zona euro, se a Grécia está para permanecer na União Monetária. Um ponto que é captado pelo FMI com sinais de crescentes tensões dentro da própria Troika sobre como as coisas estão a ser manipuladas.

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Na base dos existentes objectivos quanto ao resgate, era considerado que Atenas iria ter um excedente primário — receitas do governo líquidas das despesas públicas e com exclusão da carga da dívida soberana — de 3 por cento do PIB em 2015. Mas de acordo com o Financial Times, o representante do FMI para a Grécia, Poul Thomsen, disse aos ministros das finanças da UE em Riga que os dados iniciais mostram que Atenas estava a caminho de ter provavelmente um défice primário de até 1,5% do produto interno bruto para este ano.

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Como Peter Spiegel do FT nos diz: “com o grande excedente primário transformado agora num défice considerável, os níveis de dívida da Grécia começarão a disparar novamente. Isto forçaria Atenas a tomar medidas drásticas de austeridade ou então a que os credores da zona euro concordem num outro resgate, concedendo um perdão parcial da dívida para que a Grécia continue num caminho sustentável da dívida . Altos funcionários disseram que Thomsen mencionou especificamente a necessidade de perdão parcial da dívida durante a reunião de três horas.”

(continua)

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