SE NÃO TIVESSE EXISTIDO A GRÉCIA, OS LÍDERES EUROPEUS TERIAM DE A INVENTAR, por Edward Hugh – III

 

 

 

 

Falareconomia1

Selecção  e tradução de Júlio Marques Mota

 

 

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(conclusão)

A política do medo

A pergunta é, qual será a consequência política a longo prazo da economia grega se afundar de novo? A muito forte progressão no apoio popular a Syriza ao longo dos últimos anos pode ser visto como um dos efeitos secundários de uma excessivamente profunda recessão/depressão. Fazer com que a economia grega se continue a degradar profundamente não só vai complicar o cenário político ainda mais como vai também tornar mais difícil o encontrar-se um consenso.

Foi colocada uma demasiada ênfase na política da EU em querer “derrotar” Syriza, ao invés desta procurar garantir a estabilidade de longo prazo da Grécia e do seu povo. Muitos políticos da UE serviram-se da situação e jogaram com ela , utilizando o espectro de Syriza para lutarem contra o populismo interno aos seus respectivos países. Naturalmente, os casos da Espanha e de Portugal vêm-nos imediatamente à mente. Mas será que esta a falta de flexibilidade serve os interesses de longo prazo da Europa? Os problemas da Grécia estão ainda também colocados em termos de longo prazo, e não podem ser resolvidos nas negociações que medeiam entre o agora e o mês de Junho. Resgatar fundos para pagar ao FMI e ao BCE – ou melhor ainda pagá-lo directamente – teria feito sentido, utilizando esses pagamentos como um meio para pressionar Syriza , mas estar a estrangular a economia grega é que não.

Entretanto passou a verificar-se crescimento em 2014, mas este foi um muito modesto crescimento em relação a queda que o precedeu. Adicionalmente, a economia do país ainda está a sofrendo de deflação, com uma queda dos preços ao consumidor de 1,9% em Março desde há um ano, e assim está desde há 24 meses consecutivos com uma inflação negativa. O que o país precisa da UE e do FMI não é de uma cama feita de pregos, mas sim e sobretudo de um apoio para mover a economia de regresso ao caminho da dinâmica de um crescimento mais forte. Em vez de estar a tratar o país como um bode expiatório, como um exemplo do que não se deve fazer, a Grécia tem mesmo muita necessidade do tipo de apoio positivo que Portugal, Itália e a Espanha têm recebido a fim de começar a atrair alguns investimentos construtivos. Todos devemos servir, mas nem todos são obrigados a servir de exemplo.

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O que é necessário não é uma lição de moral – de ambos os lados – mas simplesmente há por aqui um pragmatismo já velho e bem antiquado. Se o PIB grego realmente constituiu uma parte pouco significativa do PIB de zona Euro onde está então o problema? Os políticos dos EUA fazem tanto alarido sobre os Estados como o Alabama, ou outros estados federados bem similares? É no melhor interesse de todos, e cada um de nós sabe que isto faz sentido.

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A Grécia já fez um ajustamento muito substancial nos seus saldos orçamentais e nas suas contas externas. Do ponto de vista orçamental, Paul Krugman estima que isso equivale a cerca de 20% do PIB   entre cortes nas despesas públicas e fortes aumentos de impostos. É uma pena se por causa de uma unha final é todo o reino que cai. Actualmente a Grécia já perdeu menos competitividade do que a Finlândia desde o ano de 2000. Isto não quer dizer que uma é mais competitiva do que a outra, a Finlândia era muito mais competitiva na viragem do século mas tudo isto indica que o país progrediu muito mais do que a polarização anti-Syriza sugere nas declarações que actualmente são feitas sobre a Grécia aos seus cidadãos .

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Naturalmente o país “enganou-se” sobre os seus parceiros da zona euro e os sacrifícios eram inevitáveis mas certamente uma solução mais pragmática e mais equitativa poderia ter sido encontrada. Simplesmente punir um país pelo que alguém considere que ele tenha “feito de errado” por causa dos seus representantes eleitos não leva praticamente a lado nenhum e pode pôr muito em risco, incluindo entre os aqueles que não directamente envolvidos.

Edward Hugh, If Greece Had Not Existed, Europe’s Leaders Would Have Had to Invent It, texto editado por A Fistful Of Euros-European Opinion. Texto disponível em:

http://fistfulofeuros.net/afoe/if-greece-had-not-existed-europes-leaders-would-have-had-to-invent-it/

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