BISCATES – “Admirável mundo novo” – por Carlos de Matos Gomes

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 As obras do pensamento tornam-se clássicas quando percebemos que contêm as chaves para vermos o que, em cada momento da História, está a acontecer à humanidade de que fazemos parte. O Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley é um desses clássicos.

Voltei ao Admirável Mundo Novo porque tive de falar, juntamente com o professor António José Telo, sobre as grandes guerras mundiais do século XX num ciclo de palestras organizadas pela Fundação Dom Luís, de Cascais. O professor António José Telo falou do enquadramento histórico dos conflitos e eu desses acontecimentos com perspetiva do ficcionista, do inventor de passados, de presentes e de futuros que os romancistas são.

O grande problema dos romancistas não é a verosimilhança do que escrevem com o passado – se os factos narrados ocorreram mesmo assim, se os ambientes eram aqueles e aquelas as palavras dos diálogos – o problema é o futuro, de que forma correspondem na realidade as projecções que fazem para o futuro. E não estou a falar apenas de ficção científica, ou de literatura fantástica, estou a falar das ideias que de modo mais ou menos evidente fazemos passar nossos romances.

A obra foi publicada em 1931, antes da Segunda Guerra Mundial, e denunciava aspetos desumanizadores do progresso científico e material. Considerava que, no futuro, a família, o sentimento, a espiritualidade, a velhice, seriam conceitos ultrapassados. Homens e mulheres seriam padronizados, em grupos uniformes, de acordo com o grau de intelectualidade e funções produtivas. As massas seriam constituídas por indivíduos irrelevantes, controladas pelo sistema para servirem e produzirem bens de consumo através de uma estratégia de manutenção da ordem social, conduzida pelos órgãos de comunicação e complementada pelo condicionamento psicológico.

Aldous Huxley teve a oportunidade de confrontar as suas previsões para um futuro que ele imaginava como tendo um horizonte de 600 anos apenas década e meia mais tarde. Em 1946, escreveu um prefácio à obra original referindo o “remorso crítico”, para apresentar o grande defeito que a guerra tinha revelado no seu romance: apenas ter sido oferecida ao Selvagem John uma única alternativa à vida demente na Utopia (a da civilização absolutamente estruturada do futuro): a vida de um primitivo na aldeia dos índios (a nossa).Desculpou-se por, na altura (1931), a ideia de o livre arbítrio ter sido concedido aos seres humanos para que pudessem escolher entre a demência e a loucura ser uma noção divertida e que podia ser verdadeira. Ora – brinca Huxley – se fosse agora, daria ao primitivo John a possibilidade de uma existência sã de espírito numa comunidade de exilados e refugiados, que teriam abandonado o Admirável Mundo Novo. É, como se vê, com uma antecipação de 80 anos (1931-2011), da solução de Passos Coelho e do seu governo: Emigrai, jovens sãos espírito!

O atualizadíssimo prefácio de 1946 do Admirável Mundo Novo contém toda a cartilha do neoliberalismo que se tornou dogma nos anos 80. Ele não trata do progresso propriamente dito, como nos gostam de fazer crer os vendedores de artefactos, que Huxley designou com os Our Ford, numa alusão ao deus Henry Ford, o produtor de automóveis, o mais apetecido dos gadgets da altura, mas sim do efeito do progresso nos indivíduos e nas sociedades. Como estes efeitos são inevitáveis e o futuro tem grande probabilidade de se parecer com o passado. Sabemos que mudanças tecnológicas rápidas, efectuadas numa economia de produção em massa e entre uma população onde a grande maioria dos indivíduos nada possui, tem sido sempre  a tendência para criar uma confusão económica e social. Foi assim, com o aparecimento da máquina a vapor, que criou os proletários e a era das revoluções do século XX, foi assim com o motor de combustão interna, que deu origem à destruição dos sistemas políticos e sociais do arco de civilizações do Médio Oriente ao Magreb, por exemplo. Foi assim com a arma nuclear, que deu origem às guerras feitas por procuração entre os impérios nucleares.

Como vê Huxley o novo mundo, pouco admirável, mas muito provável, resultante deste absurdo progresso tecnológico? Eis a inquietante resposta: A fim de reduzir a confusão social resultante das transformações o poder político tenderá a ser centralizado, e aumentará o controlo governamental. É provável que todos os governos do mundo venham a ser mais ou menos totalitários. E adiante, para nosso conforto: Não há razão, bem entendido, para que os novos totalitarismos se pareçam com os antigos (assim é, surgiram novas formas totalitárias), mas esta mudança não tem a ver com a moral, ou a ética dos novos governantes, tem a ver, na análise de Huxley, com o facto do uso do cacete contra as populações, os extermínios industriais, as deportações se terem tornado ineficazes e a ineficácia (que diminui a tão invocada competitividade) é um pecado mortal.

Assim chegaremos aos dias que vivemos: “um Estado totalitário verdadeiramente «eficiente» será aquele em que o todo-poderoso executivo de chefes políticos e o seu exército de directores terá o controlo de uma população de escravos que será inútil constranger, pois todos eles terão amor à sua servidão. Fazer que eles a amem será a principal tarefa nos Estados totalitários de hoje dos ministérios da propaganda, dos redactores-chefes dos jornais e dos mestres-escola.”

Em resumo; aquilo que os homens políticos chamarão “o problema da felicidade” consistirá – escreveu Aldous Huxley em 1946 – em fazer os indivíduos amar a sua servidão. A forma de o conseguir será, continua Huxley a ensinar e a prever o admirável mundo novo, através de um de dois regimes: totalitarismos nacionais mantidos através do terror da bomba atómica e de guerras limitadas, ou um único totalitarismo internacional, suscitado pelo caos social, artificialmente criado, ou deliberadamente incentivado. É este o admirável mundo novo que os ideólogos do neototalitarismo andam a construir desde a queda do muro de Berlim e do fim da URSS. E os seus agentes gritam-nos: É pagar e aguentar!

 

3 Comments

  1. Caro Camarada. A actualidade da tua observação da actualidade sobre o que foi uma visão ficcionada está admirável. Parabéns.

  2. Já pouco me lembro de um livro que na juventude tanto me impressionou!.. o comentário abriu-me o apetite para o reler!

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