DOCUMENTÁRIO SOBRE A PEÇA “LIMIAR” DO GRUPO DE TEATRO TERAPÊUTICO, DIA 5 DE JUNHO, ÀS 12H30

No dia 5 de Junho às 12h30, pode-se assistir ao documentário sobre o processo da realização do documentário sobre o processo da peça “Limiar”, apresentada a público pelo Grupo de Teatro Terapêutico,   por Bárbara Miranda, produção Bárbara Miranda e João Xavier, Imagem Pedro Gonçalves, Montagem Pedro Gonçalves.

 limiar

Texto de Pedro Gonçalves, sobre a sua experiência no GTT, durante a realização do documentário sobre o processo da peça “Limiar”:
“A mim e a todos os meus colegas de curso na ETIC, foi pedido que apresentássemos uma proposta para um documentário. As três propostas mais votadas viriam a ser produzidas. A minha ideia teve maioria absoluta. A minha apresentação foi elogiada pelo coordenador do curso. A minha ideia não foi seleccionada. Na altura pareceu-me absurdo, as razões que me deram não me foram suficientes. Sem poder de escolha acabei por cair de pára-quedas no projecto apresentado pela Bárbara Miranda: grupo de teatro terapêutico no hospital Júlio de Matos. Sou uma pessoa céptica. Não acredito em destinos. Mas dou por mim a achar que, por alguma razão, eu tinha que passar por aqui. Há quase 2 meses que aqui venho, quase todos os dias. Esta experiência mudou a minha vida, e sei que o mesmo se aplica aos meus colegas Bárbara Miranda e João Xavier. Na verdade, tudo isto aconteceu na altura certa. Todo este processo tornou-me numa pessoa melhor, fez-me evoluir. Há dois meses eu não era eu. Não dava valor ao esforço nem ao trabalho. Como diria uma certa personagem, era eu uma espécie de Maria do Deixa Andar. Conseguiram a proeza de me fazer esquecer que isto é um trabalho. Todos os dias me ergui de madrugada, ainda sem sol, ansioso, expectante. Quando não estava no GTT, falava do GTT. Ninguém mais me podia ouvir.
Ainda mais que uma lição de cinema ou uma lição de labor, recebi uma lição de humanidade, graças as pessoas que aqui conheci. Se o meu estigma nunca foi muito, di-lo ia agora inexistente. Nunca por um segundo vos vi como loucos ou estranhos. Vi-vos sim como seres feitos de carne, ossos, emoções e sensações. Emoções e sensações essas talvez aumentadas a mil lupas, mas não por isso menos reais. Humanos, pessoas, tal como eu, pessoa que cujas circunstâncias de vida os trouxeram onde estão hoje. Já não consigo não nos ver como iguais. “Andas filmar os maluquinhos?” disseram-me. Dei por mim irritado, instintivamente, com essas pessoas, num instinto quase paternal. Cada um de vocês é especial. Maria José, tão acelerada, tão doce, com a sua boneca de gestos. Olga, sempre tão simpática, sorridente. Quando não vem, ninguém arruma a sala. E sempre tão estilosa! Pascoal, sempre calmo, sereno, caloroso como os seus adorados radiadores. Ana Paula, tão intensa, uma autêntica guerreira, todos sabemos o porquê. Filipe! Culto, preocupado, incrivelmente amigável. Rita, super energética, sem filtros! Riso contagiante! Hugo, com o seu mundo interior, que cada vez se revela mais vasto e que aparenta uma enorme complexidade intelectual. Gostaria de vir a ver a peça que escreveu feita pelo grupo. Ana Ribeiro… As macros, as macros, as macros! Uma artista! Patrícia… Acho que nunca falámos muito. Mas estudou cinema, só pode ser boa pessoa! Tó Zé, não o vi tanto como queria. Um porreiro, um amigo, diz o que pensa. Pestana, de poucas palavras, mas sempre animado, felizmente!!! Estela… Outra guerreira. Tão inteligente. Tão culta. Adora literatura. Só nos poderíamos dar bem. Tocou-nos a todos. Um bem hajam a todos os estagiários, voluntários, etc etc, todos aqueles que estão aqui a dar tudo por tudo. Diana e Liliane, figuras absolutamente chave na evolução do grupo através da expressão corporal. A alegria dos participantes durante as vossas sessões é quase palpável. Terapeuta Isabel, a incrível pocahontas que segura todas as emoções, todas as frustrações do grupo, a cola que une todas estas incríveis pessoas. E por fim… João Silva. Um… Lutador. Quase 50 anos a segurar esta iniciativa. Para si não há adjectivo que faça justiça mas posso tentar. Mais que um encenador, um poeta, um modelo a seguir. Um herói. Inspirou-me. André… Põe-te a pau! Segue os teus sonhos jovens.
Obrigado por tudo. Adoro-vos a todos.”

Limiar foi apresentada no Teatro Nacional D. Maria II em Novembro de 2009. Na altura João Silva escreveu:

“Normalidade… Anormalidade… O ser normal ou não o ser, o que é? Há zonas limites que nos obrigam aceitar ou a sofrer o injusto, a rejeição?

Quem decide? O que impõe? Quais os parâmetros das decisões que podem bloquear, alienar ou mesmo matar?

“O que é diferente não pode ser parecido ou igual ao mais comum de tudo mas, exatamente, a marca das diferenças que torna o comum acima de valores mais elevados”.

A partir de inquietações sobre o normal/anormal, os atores do Grupo de Teatro Terapêutico Dirigido – pessoas com experiência da doença mental- propuseram ao encenador que redigisse, escrevesse uma peça para Teatro de “escrita criativa de discussões e conversas em grupo com análises de conteúdo das ideias em causa”, que proporcionasse algo a levar ao público em geral, numa leitura cénica que permitisse dar a conhecer melhor “a reflexão normal” de pessoas consideradas ainda como personalidades estigmatizadas por conceitos que parecem desajustados na conjuntura da sociedade atual.

“Limiar”, o texto conseguido de preocupações do Grupo de Teatro Terapêutico é uma metáfora do real, de experiências vividas. Coloca-nos na soleira do desconhecido, é o desafio a cada um de nós.

O que atravessámos ou tentámos, conhecemos, mas valerá a pena franquear o desconhecido, o outro lado, mesmo correndo o risco do não regresso?

“Limiar”, são as interrogações de personagens que procuram entender porque arriscaram; porque não devem arriscar; porque é que o risco é afrodisíaco perigoso quando não controlado.”

 

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