CRÓNICA DE DOMINGO – EM VENEZA, SEM SÍLVIO CASTRO – por Manuel Simões

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Pela primeira vez, desde que deixei a Itália em 2003, não encontrei em Veneza o caríssimo amigo Sílvio Castro. Durante muitos anos convivemos como amigos e colegas, ele professor na Univ. de Pádua (mas residente na cidade lagunar) e eu na de Veneza. Durante a semana não nos víamos mas o encontro de sábado, num café que já mudou de nome e de autenticidade, era sacrossanto. O encontro previa o almoço, durante o qual programávamos acções culturais interuniversitárias, algumas de nível internacional.

 No início frequentámos por alguns anos a “Trattoria Dona Onesta”, un “baccaro” (mais ou menos taberna) que ele tinha começado a frequentar no ano longínquo de 1964, chegado do Rio,  onde se jogava às cartas e que, a certa altura, e a seu pedido, tinha começado a servir também refeições. Hoje é um restaurante de certo nível mas isso são contos largos…

 Depois da minha partida e todas as vezes que tornava a Veneza, Sílvio sugeria-me os novos locais onde se podia comer coisas apetecíveis e mais em conta. Ultimamente íamos ao “Mille Vini”, ali apreciávamos uma boa sopa de lentilhas e um “rosso” de estalo. É um lugar que recomendo, ali em pleno “Campo Santa Margherita”, praça cheia de cafés, pizzerias e afins, mas onde é preciso saber escolher o sítio para não nos impingirem gato por lebre. Ao  “Mille Vini” voltei eu agora, a celebrar o espírito do lugar, mas já mudou a gerência, tornou-se mais caro, embora seja ainda acessível numa cidade que, parecendo imutável, muda de contínuo.

E a mudança não consiste tanto nas coisas (é uma cidade onde só se pode restaurar o que existe) mas sobretudo nas pessoas que hoje estão à frente das lojas de “souvenirs” – indianos e chineses – ou até dos “baccari”, tipicamente venezianos, onde começam a pontificar os chineses, mas procurando curiosamente adequar-se aos usos locais.

Nesta altura, se biologicamente ele ainda aqui estivesse, talvez fôssemos ver alguns pavilhões da Bienal de Arte. Como crítico que era, já teria ido à mostra de João Louro no Palácio Loredan, cujo aluguer deve custar uma soma não indiferente a Portugal, isto é, a todos nós, nestes muitos meses de Maio a Novembro, para glória (ou não) de um só cidadão português.

 Eu preferi ver a muito interessante mostra sobre “O Expressionismo alemão e a República de Weimar”, no Museu Correr, e uma retrospectiva de Rousseau (o pintor naïf) no Palácio Ducal.

Veneza, Maio de 2015.

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