A NOSSA RÁDIO “E Deus Criou o Mundo”: proselitismo abraâmico na rádio pública (4) – por Álvaro José Ferreira

 

Perante a pobreza e a reduzida segurança histórica dos textos que temos ao nosso dispor, levantou-se, a partir do século XVIII o problema de saber se JesuImagem2s tivera ou não uma existência real; todo o interessado num ataque à Igreja cristã ou, de um modo mais largo, às concepções religiosas, tomou quase sempre o partido da negativa ou pelo menos da dúvida; asseguravam que Jesus, a existir, teria sido mencionado nos historiadores não cristãos, o que era desconhecer por completo o grau de importância de Cristo no mundo pagão, e que os textos cristãos não mereciam a menor confiança, o que era alargar ao total o que só pode afirmar-se de uma parte; por seu turno, os que se batiam pelo lado contrário defenderam posições absolutamente insustentáveis. Modernamente, o sentimento de hostilidade desapareceu bastante dentre os críticos que sustentam a tese da não existência de Jesus: para eles, Cristo é uma personagem mítica fabricada em todos os pormenores por um hábil mosaico de textos do Velho Testamento e de lendas respeitantes aos numerosos deuses da Ásia Menor e do Egipto; o fundador ou fundadores do cristianismo, o inventor da doutrina, vendo-se na necessidade de um deus, teria criado Cristo; as interpretações fantasistas a que os mitólogos sujeitam os textos, as aproximações audaciosas, as explicações absurdas para o que encontram de inexplicável dentro da sua maneira de ver são em número demasiado para que se lhes possa dar grande crédito; o não admitirem a existência histórica de Jesus leva-os sempre, apesar de toda a possível habilidade dialéctica, ao ponto fundamental de admitirem um pensador inicial, já que seria excessivo romantismo o de acreditarem num movimento colectivo como autor do Evangelho; é questão diferente a de saber se a vida desse pensador decorreu ou não segundo o que se conta nos Evangelhos e nos outros textos e se houve ou não intromissão de lendas e de episódios da vida de outros profetas ou deuses; há um cristianismo, uma doutrina e um movimento cujo surgir se tem de explicar; o mais simples, o mais de acordo com os testemunhos, o que levanta menos problemas de interpretação, e está, ponto importante mesmo em história, mais de acordo com o bom senso, é aceitar a existência histórica de Jesus, embora com o afastamento dos textos que, muito importantes para o crente, não o são tanto para o historiador; as frases que se citaram dos historiadores pagãos não são negativas da existência, antes pelo contrário; pelo menos deixam a questão em aberto; os textos cristãos têm, sempre sob o ponto de vista do historiador, muito de lendário, muito de interessante para o investigador de mitos religiosos, mas há um núcleo de afirmações que não parece ser fácil abalar: a personalidade de Jesus resiste aos ataques da crítica histórica; eis o que tem importância para quem vê o problema sem paixão. Segundo o que se pode apurar de mais provável, e pondo de parte todo o maravilhoso que envolve a vida de Cristo, teria ele nascido na Galileia, talvez em Nazaré, talvez em Belém, em data que admite uma incerteza de quinze anos, tendo sido o dia que hoje se celebra como o Natal do Cristo fixado em Roma apenas no século IV. Era filho de Maria e de José, possivelmente carpinteiro, embora pareça que a profissão do pai de Cristo vem apenas de uma má interpretação do texto aramaico, língua em que Jesus se exprimia e em que devem ter sido redigidas as primeiras narrativas. Os filhos foram vários e há elementos para estabelecer a existência de irmãos e irmãs de Cristo; puseram-lhe o nome de Jesus, derivado do nome hebraico [Joshua] de que se tirou para português Josué, e bastante vulgar no tempo; um texto evangélico fala ainda de um outro nome, Emanuel, cuja significação, «Deus connosco», se aproxima de certo modo do de Jesus: «Socorro de Iahvé (Jeová)»; é difícil estabelecer se o cognome de Nazareno vem de Nazaré ou de uma seita religiosa a que Jesus teria pertencido. Nada se sabe quanto aos estudos que Jesus fez durante a sua infância; teria talvez frequentado uma escola elementar, se é certo que elas existiam; em todo o caso, em escola ou sem ela, teria aprendido a ler e a escrever, sendo iniciado em casa, ou num anexo da sinagoga, no estudo da Tora, conjunto dos textos sagrados, que todo o menino judeu, pelo menos a partir de certa época, lia por volta dos dez anos; não há, no entanto, nos Evangelhos nenhuma prova dos conhecimentos profundos que Jesus teria da Tora e deve dizer-se que o pormenor também não tem importância, embora Cristo tivesse dado como objecto da sua missão o cumprimento da Lei e dos Profetas. Desconhecem-se quais as influências religiosas que haveria à volta de Jesus; é de admitir que tivesse algum conhecimento das doutrinas essénicas, do pensamento judaico-alexandrino e sobretudo do farisaísmo, com cujas opiniões em muitos casos se mostra de acordo, embora reprove a prática; é até possível que grande parte das invectivas evangélicas contra o fariseu venha menos de Jesus do que do redactor interessado no ataque aos que se mostravam adversários irredutíveis e perigosos da nova religião; as relações de Cristo com outras seitas judaicas são difíceis de marcar porque pouco sabemos do que pregavam e das condições em que se desenvolveram; Jesus deve ter feito a Jerusalém as visitas que eram rituais entre os judeus, pelo menos na Páscoa, sendo possível que dessas visitas tivesse vindo muito elemento importante para a formação do seu pensamento; é, por outro lado, impossível estabelecer nada de certo sobre a influência que teria havido da parte de S. João Baptista. Como profissão teria tido Jesus a de carpinteiro, se não se trata de uma confusão com a do pai: de qualquer modo teria tido um ofício que o mantinha em contacto com a gente humilde da Galileia; sabia das suas queixas e das suas aspirações a uma vida melhor.

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