A revista espanhola “Vida Nueva” divulga uma recente entrevista com Rita Mboshu, profª na Pontifícia Universidade Urbaniana de Roma, na qual aquela religiosa congolesa denuncia o grau de miséria e de humilhação humanas a que são sujeitas muitas freiras africanas. Aliciadas pelos diversos institutos, com sede nos países do Ocidente, a fazerem-se freiras, são depois, muitas delas – não é possível quantificá-las, sabe-se apenas que são muitas – a prostituir-se para poderem matar a fome e sobreviver, mesmo assim em condições subhumanas.
Uma boa parte dos abusadores-beifeitores destas religiosas sfricanas são clérigos de congregações masculinas, que a África e a América Latina são vistos como dois continentes-alfobre de vocações religiosas, pelas congregações missionárias do Ocidente. A fome e a iliteracia em que vivem, nas suas famílias de origem, são o que leva muitas vezes as jovens africanas a deixar-se seduzir com promessas de estudos na Europa e de uma vida de abundância, posição social, que depois, não se chega a concretizar, na maior parte dos casos
Tudo, porém, é abafado pelo sistema eclesiástico, à semelhança do que sucede com a pedofilia do clero. Fez, há poucos anos, muitas manchetes dos jornais, das tvs, mas, depressa, caiu sobre esse crime organizado, consentido, promovido, o pesado manto do silêncio. Ao que ajudou, e muito, a escolha do cardeal argentino, Mário Bergóglio, para Bispo de Roma, papa da igreja universal. Passou ele a fazer manchetes e o crime da pedofilia do clero continua imparável e impune, mas nunca mais voltou a ser notícia.
As religiosas africanas continuam votadas ao ostracismo, sem que os grandes media se interessem. Nem sequer, agora, que uma freira congolesa, de estatuto superior em Roma, pôs a boca no trombone, os grandes media lhe pegaram. A própria Cúria romana, apesar da denúncia partir de alguém que conhece bem a situação, porque é africana e, além disso, é uma das poucas sortudas que conseguiu chegar a professora da Pontifícia Universidade Urbaniana de Roma. Como de costume, a Cúria enterra a cabeça na areia e deixa para lá. É Cúria romana e está tudo dito. Uma associação de malfeitores, com vestes eclesiásticas a condizer, porque estas apenas servem para esconder o que de indignidade humana anda por baixo delas. Quanto mais aperaltados se apresentam diante dos demais, mais nus: As vestes exóticas têm esse condão de mostrar ainda mais o que parecem esconder. Nem os próprios sonham que as coisas são assim. Mas são. Para sua vergonha. Posso garantir-lhes qie nada há de humano sob aquelas vestes cardinalícias. Como nada há de humano no cristianismo-farisaísmo. É todo faz-de-conta.
No testemunhar da irmá Rita à “Vida Nueva”, as freiras caidas na miséria e na fome, são presas fáceis de eclesiásticos e outros benfeitores. Matam-lhes a fome, mas comem-lhes a dignidade humana. Os eclesiásticos são ainda mais cínicos, porque chegam a recorrer a argumentos bíblico-teológicos para vergar as mais renitentes. Ou a bíblia e a teologia emanada dela não ensinem que a mulher é inferior ao homem; que foi pela mulher que o pecado entrou no mundo; que todas as mulheres concebem os filhos em pecado; que todas têm de ser submissas aos homens (maridos ou pais); que até Deus, o da bíblia, se fez homem, não mulher; que a mulher que o deu à luz foi excepção única à regra geral que abrange todas as mulheres, porque, para o poder ser, teve de ser concebida sem pecado pela sua própria mãe!
Ora, as freiras africanas, com uma cultura que sobrevaloriza a maternidade e a família, vêem-se forçadas a ter de dizer que querem ser sexualmente virgens, mediante o chamado voto de castidade, uma monstruosidade que só é “voluntária”, porque é condição sem a qual nenhumas delas serão freiras, poderão viajar para a Europa, permanecerão na miséria, nunca saberão o que é ter “posição social”.
O motivo próximo que levou a irmã Rita a falar e a denunciar, sem, entretanto, deixar o bem-bom na Pontifícia Universidade em Roma, para se dedicar a tempo integral a esta causa maior, foi o recente caso de uma freira congolesa, sua conhecida, que se suicidou em Florença, Itália. Por cá, a notícia nem o chegou a ser, de tão sem-nome era aquela religiosa. Em Florença, foi notícia, mas logo abafada. Foi notícia, mas ninguém quis saber das causas que levaram uma freira africana a consumar semelhante decisão. Não basta dizer que foi vítima duma depressão, sublinha a irmã Rita. Tem que se atentar nas causas que a levaram a tão alto grau de depressão. E estas saltam bem à vista, quando nos fazemos próximos da situação.
Trata-se, ao que diz a Irmã Rita, duma religiosa com um enorme “défice de formação e de acompanhamento”, a viver sozinha “num túnel sem luz, perdida num continente estranho, sem nenhum tipo de assistência espiritual e psicológica”. O mesmo sucedeu com uma outra – lembra irmã Rita – que chegou a ser notícia em Portugal, porque o “caso” tinha outro tipo de “pimenta”, para os grandes media lhe “pegarem”. Com voto de castidade, virgem, foi mãe de um menino, sem saber como. Pelo menos, no confessar da própria, o que diz bem do grau de ignorância a que muitas destas mulheres “consagradas” a Deus, “esposas de Deus”, são votadas. O convento, posto perante o facto consumado e porque o caso se tornou escândalo, em vez de cuidar da freira e do seu bebé, expulsou-a. De resto, tudo em coformidade com o cristanismo, o mesmo que criou e cria mosteiros e conventos, frades e freiras, clérigos celibatários por força de uma lei canónica. No retórico dizer cristão, “vidas consagradas” a Deus.
É preciso não ter vergonha na cara. Aliás, as pessoas cristãs, quanto mais do topo do sistema eclesiástico, nem sequer têm cara. Têm máscara. Cada uma, a sua. De rir, ou de chorar, conforme a representação em que intervêm como actores, é cómica, ou dramática. Máscaras é o que mais há no universo do cristianismo religioso, eclesiástico, financeiro. Só as vítimas deste sistema é que não têm máscara. Mas também não existem para ele. Todas são silenciadas e, se têm força para protestar-resistir activamente, são simplesmente banidas, sem deixarem qualquer rasto na história oficial, escrita ou mandada escrever pelos vencedores, todos sem rosto, apenas máscaras. Reflictamos demoradamente em tudo isto e mudemos para o HUMANO.