Para trás fica tudo esquecido / e o presente é um amplo salto equilibrado na corda do destino [Transparência do Tempo (poesia), Henrique Risques Pereira)
O tempo transporta as memórias que lhe foram depositadas e devolve-as na tranquilidade da maré. Risques Pereira [1930-2001] foi presença na aventura do grupo que acreditou e apresentou o surrealismo em Portugal, uma vontade expressa de perseguir a liberdade, que se manifestava no então surgido grupo dos surrealistas. Pedro Oom foi quem fez unir António Maria Lisboa e Risques Pereira ao grupo, que na exposição de 18 de Junho de 1949 se apresentou ao público. Ali, Risques Pereira mostrou os seus desenhos e pinturas num momento marcante para todo o grupo. A poesia foi uma força impulsionadora na sua actividade criativa, materializada nos seus desenhos e pinturas pela imagem do gato que vagueia nos telhados, alimentado pela aventura surrealista.
Os traços que desenham as palavras corporizam-se nas pinturas, desvendando seres que se apresentam numa desvirtuação do intuito real. A metamorfose sustenta estes seres, dando-lhes manifesta existência e habitabilidade poética no espaço bidimensional. Somos os observadores, os curiosos que se prostam diante destes numa atenção inquieta perante a liberdade dos mesmos, assim como, a surpresa do espaço que habitam.
A palavra escrita no vento
acorda as memórias antigas
que não ousas enfrentar
Uma força que arranca do fundo
desenha um destino
que te faz olhar o sol
Levanta-te e anda
firme sem hesitação
não olhes para trás não fujas de ti.
[Transparência do Tempo (poesia), Henrique Risques Pereira]
Uma das permissas dos surrealistas, era promover a revolução capaz de libertar o ser humano, dando-lhe a liberdade de existir, desligado de doutrinas, academias e amarras político-sociais. As artes mostraram ser a plataforma para expressar e expôr todas estas intenções, numa atitude de ruptura e afirmação.
Uma vontade revolucionária que transformava e desenhava novos rumos no universo criativo e na sociedade. Risques Pereira entregou-se e alimentou o momento no qual acreditava, aventorou-se à prática e descoberta dos habitats que sustentavam o seu trabalho.
Nas suas composições plásticas, Risques Pereira utilizava com maior frequência os meios técnicos da aguarela e tinta-da-china sobre papel, sabendo-se porém que estes meios nem sempre eram uma opção tão calculada, mas antes os recursos encontrados, não deixa contudo de expressar afinidades com os mesmos, para expôr e revelar criações surpreendentes.
Há uma presença de seres humanizados em corpos despropositados, seres disformes que povoam ruas de umas cidades densas, feitas de edifícios envoltos em emaranhados de linhas. Paisagens misteriosas, recuperadas das manchas e aguadas das tintas, povoadas pelos seres primorosos que se adelgaçam em linhas finas ou consolidam em manchas que lhes conferem magnificência e mistério. Os acasos lançados nas manchas que cobrem as superfícies de papel, são intenções de acordo mútuo com a casualidade, que logo é ludibriada pela descoberta e assumpção dos conteúdos ali existentes e só possíveis de observação perante o resgate do autor. Há uma subtileza na execução e sabedoria na ocupação do espaço, perante o trato audaz na condução dos elementos que podem ser expostos em cada composição, que se quer livre, orgânica e vibrante, conferindo ao trabalho de Risques Pereira a curiosidade expressa em cada uma destas paisagens e destes seres que a habitam. A poesia, como cor e forma enquanto estrela que se suspende em cada ponto, em cada plano, em cada linha, para nos ligar ao infinito do mais leve gesto.
Faz uma constelação de estrelas
que brilhem no vazio cósmico
Faz outra e mais outra
não pares
Olha o teu irmão
Dá-lhe a mão
aquela que tem as estrelas
e guarda para ti a mão obscura
Essa come-a com angústia.
[Transparência do Tempo (poesia), Henrique Risques Pereira]
As conversas que partilhamos, foram reveladoras das intenções e experiências que preenchiam as vontades do grupo: os encontros à mesa dos cafés, a partilha de leituras (muitas das que estavam proibidas) que traziam novidades e auxiliavam a vontade da ruptura.
As mesas do café eram o espaço de trabalho, onde desenhavam, pintavam, escreviam, onde mostravam e discutiam o trabalho realizado. Ali protagonizavam as intenções, os projectos, as exposições e os livros. As amizades eram os elos de ligação da força do grupo, que os ajudava a manterem-se capazes de habitar a ilha na qual viviam, perante um Portugal tão hermético e cinzento. Estas conversas, não traziam saudosismo, mas sim, uma clarividência do ânimo, do reconhecer ter estado num momento crucial da acção cultural e social deste país. A humildade presente nas suas palavras, transparecia a inteligência do seu saber e da alegria reveladora da aventura vivida.
Para trás fica tudo esquecido
e o presente é um amplo salto
equilibrado na corda do destino
Mais tarde ou mais cedo
as palavras regressarão ocas e inúteis
quando basta um olhar
para tudo entender
Basta o fio da vida que tudo liga
de trás para diante
do alto ao baixo
para que tudo se ilumine.
[Transparência do Tempo (poesia), Henrique Risques Pereira]