CRISE: UM SACRIFÍCIO SANGRENTO – por CARLO BORDONI

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Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

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Crise: Um sacrifício sangrento

Carlo Bordoni Crisis: A Bloody Sacrifice

Social Europe,  15 May 2015

carlo bordoni - I

Carlo Bordoni

A crise, inevitavelmente, tem um resultado fortemente negativo  sobre a sociedade como um todo: não só ajuda a aumentar a desigualdade social, mas é uma das principais causas das  devastadoras tragédias pessoais. O colapso económico, a  perda de emprego, os inevitáveis problemas familiares, o stress e o estado de depressão profunda, as enormes quebras nos apoios sociais  e a marginalização que resulta de tudo isto, não são fáceis de tratar.

O crash da bolsa de 1929 nos Estados Unidos provocou uma cadeia de suicídios sem precedentes: milhares de pessoas que tinham perdido tudo, incluindo a esperança de sobreviver ao desastre de um sistema económico em que haviam acreditado e em que eles tinham colocado toda a sua confiança. Hoje, a crise voltou e está a pesar sobre os ombros de milhões de pessoas, criando as mesmas condições de dificuldades que o mundo conhecera no início da década dos anos trinta.

Assim, a Europa do terceiro milénio, abalada pela  pior crise económica desde a queda da bolsa de 1929, viu-se perante um regresso  aos casos de suicídio: formas extremas de desespero que se destacam num  quadro mais amplo de vidas devastadas, empobrecidas, reduzidas à  miséria e então onde se forçado a lidar com o desgaste emocional  de uma condição de vida  injusta, insuportável e sem esperança. A desigualdade, já está presente e de forma crescente  e, portanto, menos aparente do que em tempos “normais”, tornou-se marcante e desumana desde 2008 nos países em maiores dificuldades  da Comunidade Europeia.

Esta situação divide a população em dois grandes subconjuntos, com uma clara separação entre aqueles que tem e os que não têm. Entre aqueles que conseguem superar a situação em que se encontram, ainda que à custa de sacrifício e de  renúncia e aqueles que sucumbem a ela, as consequências económicas não são simplesmente limitadas à redução drástica de  postos de trabalho, despesa em bens de consumo e qualidade de vida, mas tem um sério impacto sobre a existência das  pessoas e até mesmo é determinante  nas suas  expectativas de vida. Este efeito mortífero  não só ataca de forma óbvia, como no caso dos suicídios, mas debilita a mente e o corpo das pessoas afectadas pela crise e leva-as  a uma morte prematura, corroendo as suas vidas   por dentro, através de um processo longo e continuo a debilitar a vida dos cidadãos.

Nós começámos apenas  muito  recentemente a estudar os seus efeitos colaterais na vidas das  pessoas, especialmente nos casos onde as condições de emergência persistem por muito tempo e conduzem as mudanças de longa duração de tal modo  que não são  solucionáveis em tempo adequado. Göran Therborn (The Killing Fields of Inequality, Polity, Cambridge, 2013) estabelece  esta ligação com a sua própria investigação  baseada nos resultados de estudos empíricos e em estatísticas oficiais de Eurostat.

carlo bordoni - II

O desemprego aumentou proporcionalmente aos resultados da integração europeia e envolve principalmente as nações do Eurozone, à excepção de Alemanha, onde, em lugar de, o emprego cresceu por 2,4%. Todos os países restantes gravaram taxas negativas e quatro países (Grécia, Letónia, Espanha e Croácia) perderam um quinto do número total de trabalhos, participando headlong na espiral da crise, e comprometendo assim a esperança de vida de seus cidadãos. Therborn confirma o impacto do desemprego e da depressão econômica na esperança de vida média, prevendo que pelo menos 2,47% dos habitantes da Comunidade Europeia sofrerão as consequências dentro da próxima década.

O desemprego aumentou proporcionalmente aos resultados da integração europeia e envolve principalmente as nações da zona euro, com  excepção de Alemanha, onde o emprego, em vez de  descer,  cresceu e cresceu em termos de 2,4%. Todos os restantes países registaram taxas negativas e quatro países (Grécia, Letónia, Espanha e Croácia) perderam um quinto do número total de empregos, participando numa fuga para a frente  na espiral da crise, e comprometendo assim a esperança de vida dos seus cidadãos. Therborn confirma o impacto do desemprego e da depressão económica na esperança de vida média, prevendo que pelo menos 2,47% dos habitantes da Comunidade Europeia sofrerão das consequências desta crise durante a próxima década.

(…)

Este é o preço da crise: quase uma guerra,  um sacrifício sangrento  no altar da finança e da insensibilidade humana.

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Ver o original em:

http://www.socialeurope.eu/2015/05/crisis-a-bloody-sacrifice/

 

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