A IDEIA . HOMENAGEM A CRUZEIRO SEIXAS- por Manuel Neto dos Santos

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 Quando a noite adormecida, transfigurada, se aconchega nos montes, e se enrosca no arvoredo…visto a penumbra desnudada.

Tenho a fala, e o respirar do medo, por onde o peito germina o lugar do poema, aromático e secreto, com as franjas do sorriso; eis a hora em que a raiz apunhala a terra, o tronco é o espantalho do vento, ainda indeciso, erguendo, entre os altares de pedra dos valados derrocados, o oráculo, a ara votiva para o panteísmo, apaziguado, sonhando tempestades enquanto se agacha no horizonte; pressinto o baptismo das horas e a bênção do repuxo da fonte, esvaída sobre a testa.

Imerso no saque primordial dos rituais, nada-me o ser na seiva inicial do gesto aberto. Acostuma-se a mim a carícia do luar e quando amealho os despojos da vida…é o vazio tudo o que encontro, em seu lugar. Galopo pelos cimos do espanto, caio nas cisternas do sono, e cavalgo o centauro do estertor e dos espasmos, como um esboço, os cumes e a lava; pois é calda ardente que me redesenha, que me dá a voz que, libertada, é toda escrava.

Sei que (pela areia de um deserto antigo) tenho o dorso de uma duna, e o vale das virilhas; todo eu sou um oásis…todas as incertezas minhas filhas quando, no chão dilacerado, estalado sob o sol de Julho, este tição, encontro os passos arrastados…tenho o sonho da morte por bordão. As salinas da vertigem são as pirâmides do choro, vergastadas pelo Levante; um grão de mar, a descoberta…e nada, num instante. Sei que de tudo o que nasce, apenas sobrevivem os astros; meu deus astral e austral; entre o bocejo do tédio, e aconchego dos castros. O rosto procura, ainda, o passado e o presente; Centauro como Janus imperfeito; inscrevo os perfis que só a mágoa do futuro consente. São cada vez mais fortes as fraquezas da quimera; redescubro o engenho, re-invento a Aurora de um dia que há-de vir…e a noite, ao largo, desnudada, a rir.

Há sombras fantasmagóricas à minha espera. Passa-me, pelos olhos, vindo de longe, o desenho do cume da montanha ou será antes a nuvem multiforme, no mimetismo dos vales, das alfombras?

Estendo o lençol da alma, e todo eu sou o recorte, a negro, sou as sombras. Bebo, nas águas macias do silêncio, a sagração da sede e saciedade; a cascata do mundo irrompe, e amamenta o vagido do poema mais profundo; caudal do rio de que sou apenas metade.

 Decomponho a corola verde, o tumultuoso nome entre a seiva e a flor, a perdição de um astro-lábio que, ainda hoje, me guia, e me consome.

No vazio errante de um coração silábico, sou a pulsação vital do sangue ou sonho amniótico; barcaça errante, à vela, pelo mar da noite, como centauro à procura de si. Como uma estrela, a rosa sumptuosa do teu nome inscreveu-se no meu peito, no olhar, nos gestos meus. Sou esboço, a traços largos quando floresço e, é por tudo isto que, desde então, quando idolatro o silêncio e quando como silêncio me aceito:

Sou Deus.

[Fevereiro de 2014]

MANUEL NETO DOS SANTOS

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