A GALIZA COMO TAREFA – línguas? – Ernesto V. Souza

Mas, realmente, as línguas existem? É dizer por que o gascão terminou francês e o catalão não foi mais limusino ou o provençal não se diz hoje catalão? Por que achamos que o bávaro é alemão, que o andaluz ou o mexicano são castelhano, que o galego [hoje] não é castelhano ou o algarvio é português o mesmo que o brasileiro? por que achamos que os textos escritos na França, no Reino Unido, na Península ibérica, antes do século XVII, são constituintes das “grandes Línguas” e não restos de uma multiplicidade fascinante de pequenas cortes, tradições culturais ou momentos?

Étnico, nação, povo são conceitos vagos, talvez imaginários completamente; constructos imensos e levados sobre uma longa tradição que levita rés-do-chão, ou muito antes, no ar.

As línguas são padrões. Construções fixadas num momento determinado, estabelecidos com efeito de uma situação política ou de poder concreto e retocados em fases diversas de teor histórico e político. Pouco têm a ver com essas histórias de dialetos surgidos de territórios e espalhados como espécies invasivas, e mais a ver com decisões políticas, modas e ordenamentos da administração.

Os mais dos constructos das línguas europeias estabelecidas têm a ver com a configuração do poder Real no momento da aparição da Imprensa. São portanto decisões, factos políticos e também momentos e circunstâncias, possibilidades. Há, claro, esquemas, tentativas, restos conservados ou rastros pré-políticos. Adoitam ser incómodos quando os processos de estatalização não os converteram, dissimularam ou toleraram como variantes ou dialetos.

Os nacionalismos do século XIX e XX ressuscitaram, criaram, variaram línguas, transformaram espaços geográficos e comunidades em reivindicações e sujeitos políticos, demonstrando que as línguas são objetos, acessórios, artefatos políticos. Os ciclos históricos em que uma língua se inventa aglutinando e descartando formas e dialetos, legitimando-se dos clássicos, ou estabelecendo-se num espaço de poder para fazer de uma variante independente são muito breves e nem tão imutáveis.

Entre um dialeto, ou um resto cultural arqueológico ou etnográfico, não há mais distância que a que o poder político, normalmente um Estado, estabelece. Com a mesma, as comunidades humanas, em nome desse mesmo uso do poder e da política podem decidir o processo de padronização. Dar-se uma outra língua, transformar a que temos num ou noutro sentido, convertê-la em única desde restos e dialetos, ou declarar simplesmente que é uma e a mesma com a dos vizinhos.

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