SAÚDE NA GRÉCIA, COBAIAS DA AUSTERIDADE NO LABORATÓRIO DA AUTO-GESTÃO: SEJAMOS LOUCOS,, MARCHEMOS SOBRE A DÍVIDA

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Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

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Saúde na Grécia, cobaias da austeridade no laboratório da auto-gestão: sejamos loucos, marchemos sobre a dívida

Solidarité France Grèce pour la Santé, SANTÉ EN GRÈCE, DES COBAYES DE L’AUSTÉRITÉ AU LABORATOIRE DE L’AUTOGESTION: SOYONS FOUS, MARCHONS SUR LA DETTE!

Okeanews, 8 de Junho de 2015

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Uma delegação francesa no meio da tormenta grega testemunha sobre a crise humanitária ali imposta pelos memorandos europeus, mas sobretudo para nos falar da resistência e da dignidade dos que recusam baixar os braços.

A farmácia do Dispensário KIFA, no centro de Atenas

No mês de Maio, uma delegação do colectivo « Solidarité France Grèce pour la Santé » veio a Atenas para se encontrar com equipas dos dispensários sociais solidários. Este colectivo apoia o pessoal dos dispensários sociais e solidários autogeridos gregos desde há dois anos, graças a acções concretas como a recolha e o envio de medicamentos, de material médico e de dinheiro mas também sobre um plano político informando sobre esta nova forma de resistência à austeridade.

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A delegação recebida pelo pessoal do dispensário KIFA

De 11 a 16 de Maio de 2015, profissionais da saúde, militantes sindicais, membros de partidos políticos e pessoas procedentes da sociedade civil, todos eles membros da delegação “de Solidariedade da França para com a Grécia para a Saúde”, visitaram uma dezena de dispensários, mas também se encontraram com a coordenação ateniense dos dispensários e farmácias sociais solidárias, a associação “Solidariedade para todos”, com  a comissão saúde de Syriza bem como o ministro delegado para a saúde, a confederação sindical do sector privado e as equipas hospitalares e sindicais de três estabelecimentos hospitalares.

No momento em que a delegação chegava à Atenas, as mulheres da limpeza do Ministério das Finanças festejavam a sua reintegração após 22 meses de luta e ocupação de um canto da praça Syntagma. O seu emblema era um punho numa luva de limpeza vermelha. Um sinal animador.

Dispensários para um acesso à saúde para todos

É o seu empenhamento militante que distingue estas estruturas em número de cinquenta actualmente distribuídas por todo o país, estruturas humanitárias ou ONG. Os dispensários sociais e solidários inscrevem-se numa multidão de acções solidárias sobre as causas determinantes de saúde que são a alimentação, o alojamento, os vestuários, a cultura, a educação… Os voluntários destes dispensários contam todos eles que três necessidades fazem brutalmente falta hoje: os cuidados de boca e dentes, uma necessidade de gente com formação psiquiátrica e psicológica, consequências directas da pobreza e da precariedade, a carência de medicamentos pediátricos e nomeadamente em vacinas e tratamentos de longa duração para tratamento dos diabetes ou do cancro por exemplo.

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Cartaz apelando à greve de todo o sector saúde da Grécia o 20 de Maio “para recuperarmos tudo o que nos levaram “, quanto a contratações e ao aumento do orçamento da saúde”.

Os dispensários sociais solidários reúnem voluntários profissionais da saúde, médicos, enfermeiros, pediatras, parteiras, dentistas, etc.… mas também simples cidadãos, frequentemente habitantes do bairro, que trabalham no funcionamento da estrutura, quer seja gerindo a administração, o secretariado ou arrumando a casa. Quando não podem oferecer as consultas especializadas no local, os dispensários dirigem os seus doentes para médicos da cidade que oferecem consultas gratuitas. Estes dispensários autogeridos funcionam em assembleia geral de formas completamente horizontais. Os dispensários sociais e solidários da região de Atenas (50% da população grega) trabalham em rede, graças à uma coordenação que permite as trocas de medicamentos e de informações.

Contudo a sua prática quanto a solidariedade não se fica pelas suas fronteiras: o apoio aos que combatem e aos combatentes curdos de Kobané pelo contributo de material médico são assim um o testemunho assim como a ajuda dada à obtenção de papéis para as pessoas emigradas.

Durante a sua estada, os membros da delegação debateram com os militantes da associação grega “Solidariedade para todos”. Todos os seus membros animam grupos de reflexão locais para trabalhar diferentemente, relançar pequenas empresas em autogestão, encurtar os circuitos entre os agricultores e os consumidores lutando ao mesmo tempo contra o desperdício… Sobre a vertente da saúde, este “mecanismo de facilitar ” a entreajuda, como gosta de se definir “Solidariedade para todos”, milita ao lado do novo governo de modo que o assumir dos cuidados de saúde não dependa de ter ou não ter um trabalho, como é actualmente o caso na Grécia

Desde há um ano e meio, todos eles trabalham com as organizações sindicais e operárias em torno da questão da solidariedade como elemento constitutivo das suas acções.

O Co-fundador do primeiro dispensário autogerido está no governo

É com uma grande simplicidade e com uma grande disponibilidade que o actual Ministro delegado para a Saúde, Andréas Xanthos, recebeu os membros da delegação “de Solidariedade da França para com a Grécia para a Saúde” no seu ministério. Médico hospitalar, Andréas Xanthos é co-fundador do primeiro dispensário social em Crista. Estávamos em 2008 e o objectivo era o de apoiar os migrantes.

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A delegação recebida no Parlamento pelos deputados de Syriza

O Ministro delegado insistiu sobre a degradação da situação sanitária, subavaliada até 2012 pelas autoridades e sobre a desorganização dos serviços públicos a favor do sector privado. É assim que a procura de cuidados para com o sector público progrediu de 30% quando os meios diminuíram de 40% e os efectivo em pessoal diminuiu nesse mesmo período de 30%. Cerca de 2,5 milhões de Gregos está actualmente sem cobertura social.

Andréas Xanthos considera que a existência dos dispensários permitiu medir a realidade da catástrofe sanitária na Grécia. Argumentou seguidamente sobre o facto que a confrontação severa entre o governo grego e a União Europeia tem a ver com todos os povos europeus no sentido de que a Grécia serve de cobaia à Europa da finança.

O programa de saúde do novo governo Syriza preconiza o restabelecimento e a extensão da cobertura por doença; a supressão da taxa moderadora hospitalar de 5 €; o acesso aos cuidados primários gratuitos qualquer que seja a nacionalidade, o rendimento, o estatuto do emprego e a posição social; a restauração do sistema de saúde (cuidados primários e hospital); a necessidade de criar uma relação de força europeia sobre a questão dos medicamento face ao poder das multinacionais.

O desafio de Syriza

Alguns dias mais tarde, fomos ao parlamento onde a delegação foi recebida por dez deputados de Syriza, todos eles membros das comissões saúde. Os membros da delegação particularmente notaram que a crise do serviço público confrontado com as medidas de austeridade dos memoranda tinha-se ainda agravado mais com um aumento crescente da procura pela parte da população. Uma procura sempre ligado aos efeitos da crise sobre os recursos dos gregos e sobre a sua saúde. Os deputados de Syriza reconhecem que os dispensários sociais solidários constituem um elemento essencial de resistência e de mobilização. Cada um deles entrega 20% das suas indemnizações parlamentares “à Solidariedade para todos”. Numerosos projectos são bloqueados por falta de financiamento no âmbito do braço de ferro político com a Comissão europeia e o Banco Central Europeu (BCE).

Neste mês de Maio, a espera é longa, a angústia é grande e um ar febril é quase palpável. Os visitantes franceses ficaram igualmente muito interessados pelo funcionamento do debate no seio de Syriza e pela maneira como o governo poderá responder aos desafios.

Os hospitais públicos à beira da ruptura

Subfinanciamento, falta crucial de pessoal e de material, os hospitais de Sotiria, de Geniko Kratiko Athinas e o hospital psiquiátrico de Daphni testemunham dos mesmos males. Na Grécia hoje, a incidência da tuberculose explode, a taxa de suicídio aumenta e a maior parte dos cancros não são já tratados. A malária e a raiva voltaram a aparecer e disparam. A sobrecarga de trabalho do pessoal de saúde é enorme e em parte deve-se à desorganização dos cuidados primários. Antes da chegada de Syriza ao poder, a administração pedia por exemplo entre 600 e 1000 € às mulheres grávidas para darem à luz nas maternidades. Na falta de pagamento, a administração fiscal fazia pressão sobre os membros da família. Uma pressão que podia ir até à apreensão dos bens pessoais no domicílio. As famílias eram empurradas para a ruína sempre que um dos seus membros era atingido de doença crónica que necessitava de uma hospitalização. Era assim confirmado pelo pessoal de saúde que havia pessoas que se suicidavam  em face de uma informação de estarem atingidos por uma doença grave,  para evitarem assim  ser uma carga intolerável para os seus familiares.

Hospital psiquiátrico em resistência

Sobre oito estabelecimentos públicos de psiquiatria, há apenas três abertos. As estruturas extra-hospitalares e associativas fecharam as portas, umas a seguir às outras. Nq Daphni, apenas 500 postos de trabalho de pessoal especializado em cuidados de saúde estão ocupados, sobre um total de  mil antes da crise. Este pessoal assegura os cuidados para 1 100 pacientes hospitalizadas e o acompanhamento de 600 outros em cuidado extra-hospitalares.

A procura de cuidados aumentou de 60% em poucos anos, e a parte das hospitalizações sobre ordem judicial é largamente maioritária (60%). Os outros pacientes são abandonados na  rua ou ficam a cargo das famílias. Pessoal e pacientes colaboram na sobrevivência do hospital vendendo o produto de culturas agrícolas frescas locais à entrada do hospital. Se as medidas impostas pela União Europeia forem seguidas, este hospital deverá fechar em Junho. O pessoal organizou-se para se opor custe o que custar.

Em todo este marasmo, o pessoal ainda presente, todas as categorias em conjunto, trabalham para manter cuidados diversificados e de qualidade. Como o confiaram aos membros da delegação, estas pessoas hoje são confrontadas com um paradoxo. Enquanto que numa outra época a maior parte do pessoal defendia uma psiquiatria extra-hospitalar sectorial, elas e eles sentem-se agora obrigados a baterem-se para salvar o seu hospital, única condição para poderem guardar os seus magros meios de tratamento. A pedopsiquiatria é reduzida a quase nada e é necessário mais de sete meses de espera para obter uma consulta.

Para uma Europa social

A resistência do povo da Grécia é uma força motriz que deve hoje servir de referência aos outros povos da Europa. O slogan frequentemente retomado pelas militantes que encontrámos traduz-se por: “Não devemos! Não nos vendemos! Não pagamos! ”

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O gabinete de dentista do dispensário em Nea Smyrni

Os membros da delegação do colectivo “Solidariedade França a Grécia para a Saúde” ficaram comovidos com estes encontros frequentemente calorosos e militantes, que testemunham da dignidade e da recusa da fatalidade. Eles e elas manterão o imenso empenhamento dos voluntários, das pessoas em geral, dos militantes empenhados em processos de solidariedade, de convivialidade e de luta para manter em autogestão um sistema de cuidados de saúde, no intuito de preservar a dignidade de cada um.

Os membros da delegação reterão também a necessidade de todos os povos da Europa se empenharem numa luta coordenada e solidária contra uma austeridade decretada por políticos que agem contra o interesse dos povos, para reivindicarem a construção da Europa social. Caso contrário, a situação sofrida hoje na Grécia será a norma para todos os povos europeus.

Okeanews.fr. SANTÉ EN GRÈCE, DES COBAYES DE L’AUSTÉRITÉ AU LABORATOIRE DE L’AUTOGESTION : SOYONS FOUS, MARCHONS SUR LA DETTE !Texto disponível em :

http://www.okeanews.fr/20150608-sante-en-grece-des-cobayes-de-lausterite-au-laboratoire-de-lautogestion-soyons-fous-marchons-sur-la-dette

1 Comment

  1. É um lugar mais que comum mas,quando as Pessoas descobrem a “FORÇA” que a União lhes dá,ficam muitas vezes atrapalhadas por não a saberem gerir e,ai aparecem os abutres e dão cabo de tudo.

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