A CANETA MÁGICA – “No anverso da utopia” – por Carlos Loures

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Imagem1Foi em Junho de 1949 que George Orwell lançou o seu Nineteen Eighty-Four, de George Orwell. A primeira edição data de 8 de Junho de 1949. Reproduz-se a capa dessa edição da Secker and Warburg, de Londres. O romance surgiu numa Inglaterra que sangrava ainda das feridas da Segunda Guerra e marcou indelevelmente a literatura do século XX.

Descreve o quotidiano num regime totalitário, mostrando como uma sociedade oligárquica e repressivamente colectivista pode destruir quem a ela se oponha. Orwell narra com brilhantismo um futuro de pesadelo baseado nos absurdos do presente. Escrito em 1948, diz-se que por pressão dos editores, os dois últimos dígitos foram invertidos, dando lugar a 1984.

 A história tem como narrador, Winston Smith, um homem insignificante, funcionário do Ministério da Verdade, que executa a tarefa de refazer diariamente a história do regime através da falsificação de documentos públicos e da literatura a fim de que o Partido e o governo do «Grande Irmão» estejam sempre certos e tenham sempre razão. Os problemas de Winston começam quando começa a questionar a opressão que o Partido exerce sobre os cidadãos. Pensar de modo diferente, era cometer crimideia (crime cometido em pensamento, segundo a novilíngua) e quem incorresse nesse crime era preso pela Polícia do Pensamento. Rapidamente, desaparecia, era vaporizado. como se nunca tivesse existido.

Obviamente inspirado na opressão dos regimes totalitários que, naquele final dos anos 40 ainda estava bem presente na memória de todos, o romance de Orwell critica o fascismo e o estalinismo, mas também todo e qualquer processo de controlo do indivíduo em nome dos supremos interesses da sociedade. Mas houve quem visse no romance o que queria ver, sendo considerado por muitos, quando da sua publicação, uma crítica ao socialismo e ao Partido Trabalhista. Numa carta escrita meses antes da morte, Orwell esclareceu que era um socialista convicto (combatera pela República, na Guerra Civil de Espanha, sendo ferido). Avisava que o totalitarismo, venha de onde vier, da direita ou da esquerda, «se não for combatido, pode triunfar em qualquer sitio». No ensaio Why I Write (Por que escrevo), auto-designou-se como «socialista-democrático».

Muitas das palavras inventadas por Orwell perduram ainda seis décadas depois – big brother, duplipensar, novilíngua, por exemplo, são expressões usadas por pessoas que nunca leram o romance. Orwelliano” é um termo usado comummente para referir invasões da privacidade e de usurpação dos direitos dos cidadãos ocorridas na vida real ou na ficção.

1984 é, sem dúvida, uma das obras mais marcantes e impressivas do século XX. No anverso de utopias sociais – a sociedade socialista ou a sociedade da abundância e da justiça que o capitalismo prometia – os escritores denunciavam nas suas distopias os perigos que o futuro poderia albergar. Outra obra distópica de grande força dramática é A Guerra das Salamandras, de Karel Capek, de que havemos de falar também.

 

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