A (BOA) CASA DO ZÉ NA ROTA DO ROMÂNTICO – por Soares Novais

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É João o santo popular que as gentes de Castelo de Paiva festejam por estes dias quentes de Junho. E tal não deixa de ser curioso, pois atente-se naquilo que nos diz Adriano Strecht de Vasconcelos: “Na Honra de Sobrado, a lenda reza/Um cenobio existiu, beneditino,/Onde, na velha torre, com surpresa/Se viram os Anjos/a tocar o sino/Para avisar o Céu do matrimónio/  Dos que iam ser os pais de Santo António”.

Com efeito, segundo a tradição, foi em Paço de Godim que viveram Martim de Bulhões e Maria Teresa Taveira, pais de Fernando de Bulhões, franciscano e doutor da Igreja Católica, que foi consagrado como Santo António de Lisboa.

Castelo de Paiva fica na margem esquerda do Rio Douro e integra com Amarante, Baião, Celorico de Basto, Cinfães, Felgueiras, Lousada, Marco de Canavezes, Paços de Ferreira, Penafiel e Resende a “Rota do Romântico”.

Uma rota que se estende pelo Vale do Sousa, Vale do Douro e Vale do Tâmega e que nos proporciona uma viagem inesquecível e inspiradora a singulares conjuntos monásticos, igrejas, capelas, memoriais, pontes, castelo e torres senhoriais. (O Marmoiral de Sobrado, em terras de Paiva, é um desses monumentos a visitar.)

Trata-se, pois, de um longo território que deve ser percorrido sem relógio, com os olhos bem abertos para que se possa olhar esta terra forjada de verde em todo o seu esplendor, saborear o seu magnífico vindo verde e os sabores ímpares da sua cozinha, que Eça tão bem glorifica na gastronomia queirosiana.

Ora, chegado aqui, o cronista tem de fazer uma confissão: a Casa do Zé, em Castelo de Paiva, em rua cujo nome nunca se deu ao trabalho de decorar, mas que sabe ficar mesmo em frente ao quartel dos Bombeiros Voluntários locais, é um daqueles sítios a que sempre regressa. Com indisfarçável alegria e prazer.

Foi o que aconteceu no dia 14 deste mês, quando a caminho da “Douro Art Fair”, em Baião, o cronista resolveu atravessar o Rio Douro, e subir até a esta Casa do Zé, onde é sempre bem recebido por José Vilela, o proprietário, a Alexandra e o Francisco – os funcionários que tudo fazem para nada faltar à mesa dos 80 comensais que a sala principal alberga.

A Casa do Zé, que aqui fica rebaptizada de “A boa Casa do Zé”, faz em Setembro 20 anos e é há 20 anos também que dona Maria de Lurdes elabora, ali, no seu laboratório, manjares que fariam as delícias de Martim de Bulhões – o pai de Santo António.

Refiro-me, sobretudo, ao cabrito e anho assados em forno de lenha que ali são servidos todos os domingos e que aqui recomendo, Aconselho a reserva logo pela manhãzinha, pois na “Casa do Zé” a comida é feita com os vagares de antigamente e em dose certa para os clientes habituais, que por aquelas paragens são gente de almoçar cedo.

Anho e cabrito são, pois os pratos de referência da Casa do Zé. Ambos são acompanhados por excelente e suculento arroz, recheado de várias e boas carnes, e umas batatas assadas servidas no ponto. A acompanhar um “verde tinto” de Castelo de Paiva, exuberante e sem ponta de acidez, que deve ser bebido em pequenas “malgas” de porcelana.

As doses dão para dois comensais e recomenda-se para final de repasto o pudim, que também é feito com sabedoria pela dona Maria de Lurdes – a abençoada cozinheira desta excelente Casa, que se apresenta modesta no seu trajar mas mui nobre nas iguarias que serve.

Nota final: Em tempo dela, a Casa do Zé também serve lampreia. Em arroz ou à bordalesa. E devo dizer-nos, caros argonautas que, de uma maneira ou de outra, a lampreia ali servida é do melhor que se pode imaginar. Façam o favor de anotar a recomendação e agendem uma visita para os primeiros meses de 2016. Depois, digam de vossa justiça.

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