Divorciai-vos da Grécia já, arrependei-vos quando der jeito – por Martin Wolf

Falareconomia1

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

 

Divorciai-vos da Grécia já, arrependei-vos quando der jeito[1]

Divorce Greece in haste, repent at leisure

Martin Wolf

Nem os gregos nem os seus parceiros devem imaginar o que é uma clara ruptura se os gregos deixam o euro

 

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O desencadear da primeira guerra mundial foi, já o dissemos, acolhido com confiança e alegria pelos povos de Europa. Algo similar parece estar agora a acontecer, depois de anos de crise económica e de agitação política na Grécia. Um número crescente de pessoas sente que basta e basta mesmo. Os pontos de vista agressivos expressos nestas páginas pelo economista italiano, Francesco Giavazzi, são partilhados por muitos dirigentes políticos e altos funcionários. Entretanto, Alexis Tsipras, o primeiro-ministro grego acusa os credores de pilhagem do seu país.

Olivier Blanchard, o sóbrio economista-chefe do Fundo Monetário Internacional, indica que um acordo ainda pode ser alcançado. Mas muitos estão já a começar a ver ao longe o nó corrediço a ser cortado. Qualquer que seja o jogo que os gregos pensem que estão a jogar, o seu governo pode agora apenas desejar um fim para a humilhação. Da mesma forma, qualquer que seja o jogo que o Eurogrupo pode ter estado a jogar, ele pode agora só querer um fim para a frustração. E assim, a declaração de incumprimento grego, a saída da zona euro e a desvalorização poderão estar estreitamente ligados.

Pode a euforia então durar? Penso que não. A suposição de alguns na zona euro é não somente que o caso grego é único, mas que o desastre que aqueles pecadores merecem como castigo irá então melhorar o comportamento de todos os outros. Mas a União Monetária também deixaria assim de ser irrevogável. Novas crises irão ocorrer. Quando o fazem, confiança na União seria inferior completa após uma saída grega. O programa Outright Monetary Transactions, anunciado pelo Banco Central Europeu em 2012, talvez precise de ser implementado, para acalmar os nervos. Mas isto também pode falhar. Uma especulação auto-realizável poderia forçar ainda a mais divórcios na zona euro.

Alguns argumentam que a Grécia pelo menos ficaria muito melhor depois de uma declaração de falência, de incumprimento e de saída da zona euro. É de facto teoricamente possível que um incumprimento para os seus credores públicos, combinado com a introdução de uma nova moeda, uma grande desvalorização (acompanhado de sólidas políticas monetárias e fiscais), a manutenção de uma economia aberta, reformas estruturais e melhorias institucionais marcariam uma reviravolta para melhor. Muito mais provável é um período de caos e, no pior dos casos, o aparecimento de um Estado fracassado. Uma Grécia que conseguisse sair bem também teria evitado a situação dramática de hoje.

Como a Grécia está cada vez mais perto de uma declaração de não pagamento, como é que os mercados estão a reagir e o que aconteceria se o governo de Tsipras não alcança um acordo com os credores de Grécia? Patrick Jenkins, editor financeiro do FT, discute os potenciais efeitos com Ralph Atkins, Martin Arnold e Caroline Binham.

Nenhum lado deve subestimar os riscos. É igualmente crucial evitar o desprezo assim como o desgaste nervoso provocado por sucessivas negociações falhadas.

Então a inconsequência pode ser uma falha grave, mas dolorosamente os gregos responderam a isso. Como o economista irlandês, Karl Whelan, assinala numa resposta empolada a Giavazzi, a economia grega sofreu um impressionante colapso. Do seu valor mais alto ao seu valor mais baixo. O PIB; em termos reais, caiu em 27 por cento, enquanto a despesa em termos reais caiu de um terço. O saldo orçamental estrutural, ou seja, ajustado pelo ciclo, melhorou em 20 por cento do PIB entre 2009 e 2014 e o saldo da balança corrente melhorou em 16 por cento do PIB entre 2008 e 2014. A taxa de desemprego chegou a 28 por cento em 2013, enquanto o emprego na função pública caiu de 30% entre 2009 e 2014. Um ajustamento tão brutal teria desfeito a política de qualquer país. (Ver gráficos).

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Os europeus estão agora a lidar com o Syriza por causa desta calamidade. Mas eles estão também a lidar com o Syriza por causa da recusa em perdoar mais dívida em 2010. Isso foi um erro enorme, teve graves efeitos sobre o subsequente colapso da economia grega. Com efeito, a grande maioria dos empréstimos oficiais para a Grécia não foi feita de modo nenhum para ajudar a Grécia, foi feita, isso sim, para ajudar os seus credores privados irresponsáveis. Os credores, também, têm o dever de serem responsáveis. Se estes são irresponsáveis, arriscam-se a grandes perdas. Se os governos querem salvá-los, é então aos seus próprios contribuintes que deve ser dito que têm de pagar.

A Grécia também já fez reformas significativas, incluindo o seu regime de pensões e o seu ambiente económico. Mas o retrocesso em tais reformas seria um grande erro, como argumentam o Eurogrupo e o FMI.

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Dado tudo isso, é trágico que a ruptura possa ocorrer agora, depois de tanta dor ter sido já sofrida. Não é tarde demais para alcançar um acordo destinado a promover a reforma, minimizando a austeridade adicional e fazendo com que a dívida seja gerível. A longo prazo, isso também seria do interesse de todos os países europeus. Os parâmetros de tal um acordo também são claros: alcançar um pequeno excedente primário no curto prazo, uma decisão tomada pela zona euro de pagar ao FMI e ao BCE, acompanhada de redução da dívida a longo prazo e de um forte empenho do governo grego em aplicar reformas estruturais .

Quer se goste ou não (compreensivelmente, não) o Banco Central Europeu é uma peça central nesta situação. Este terá que decidir quando é que deixa de tratar o crédito do governo grego como garantia contra a assistência de liquidez de emergência fornecida aos bancos gregos. Se a Grécia não pode chegar a um acordo sobre o desbloquear destes fundos , o BCE parece que provavelmente irá cortar a liquidez aos bancos. Isto iria desencadear controlos sobre os levantamentos bancários. Isto pode ser acompanhado por um regime de circulação de certificados de depósitos, ou, finalmente, pela introdução caótica de uma nova moeda.

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Agora, no entanto, o objectivo deve ainda ser o de esfriar as tensões e de procurar garantir um acordo. No entanto, no actual clima de raiva e recriminações, atingir um acordo parece agora cada vez mais improvável. Isso não seria o fim da história, no entanto. Os europeus não se poderão ir embora. Quer a Grécia fique no euro ou o deixe, muito dos mesmos desafios irão continuar a levantar-se. Os europeus ainda teriam que admitir que não obteriam muito do seu dinheiro de volta; e eles ainda teriam que ajudar a evitar um colapso grego.

Pode ser um alívio divorciarmo-nos de um parceiro difícil. Mas o parceiro continuará a existir, mesmo depois deste casamento monetário ter acabado. A Grécia permanecerá estrategicamente localizada e até mesmo dentro da UE. Nem os gregos nem os seus parceiros devem imaginar uma ruptura. A relação vai continuar. Pode ser e estar envenenada. Se, tragicamente, o destino não puder ser evitado, ele terá que ser muito bem gerido e por um período de tempo muito longo.

Marin Wolf, Financial Times, Divorce Greece in haste, repent at leisure, texto disponível em:

http://www.ft.com/intl/cms/s/0/a614c36c-141f-11e5-9bc5-00144feabdc0.html#axzz3dW3Xed9D

martin.wolf@ft.com

 

[1] Agradeço a JPM da Universidade de Coimbra a sugestão para o título em português, pois que, dada a carga emocional que o título em inglês contém, era para mim muito difícil encontrar uma tradução que melhor correspondesse a essa referida carga.

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