Selecção e tradução de Júlio Marques Mota
Grexit: When Not If
John Weeks
A linguagem dos meios de comunicação dominantes na Inglaterra de forma consistente informa mal o público sobre o conflito entre o governo grego e a Troika (as “Instituições”, o FMI, o Banco Central Europeu e a Comissão Europeia, com os dois primeiros credores e o terceiro a monitorizar os resultados . Durante cinco meses, os meios de comunicação social tem mantido a ideia de que o conflito que envolve as negociações entre o devedor e os credores tem a ver com a procura de um acordo sobre as condições em que a Troika continuariam a fornecer suporte financeiro o governo grego.
No entanto, desde o início a Troika pretende apenas aceitar um de dois resultados: 1) o novo governo grego iria renunciar às suas promessas eleitorais e capitular, aceitando pôr em prática o pacote de políticas económicas aceite pelo governo Samaras;
ou
2) o governo grego deveria abandonar a zona euro .
Se essas duras alternativas não eram óbvias para o governo grego anteriormente, elas tornaram-se claríssimas após a decisão extraordinária da Troika para realizar uma reunião secreta sem representantes gregas em 1 de Junho “para discutir diferenças entre monitores de resgate [da Grécia]” (citação do FT 01 de Junho de 2015).
Do lado da “Troika” a finalidade destes cinco meses das negociações era dupla:
1) esticar ao máximo o processo, fingindo, até que as reservas gregas de dinheiro de sector público se tenham drenado, deixando assim o governo numa posição de negociação impossível;
2) criar a ilusão que “Grexit” era a escolha do governo de Syriza, absolvendo-se ela própria (a “troika”) de qualquer culpa .
Saída, planeada ou caótica ?
Dado que se tem andado a escrever desde há meses sobre o assunto , é surpreendente e é um fracasso singular dos principais meios de comunicação social que o fluxo de informações que encontramos tenha tão pouca análise da transição, planeada ou caótica, para a substituição do euro por uma nova moeda nacional. Em Fevereiro, no Financial Times Wolfgang Munchau apresentou uma exploração presciente da transição, e, mais recentemente, Matthew Klein (também do FT) analisou o impacto da saída do euro no sector empresarial grego.
Estes tratamentos sérios do conflito entre o governo grego e a Troika são muito poucos e muito diferentes entre si. Com a finalidade de analisar seriamente o chamado Grexit devemos começar com alguns factos óbvios:
1) a dívida grega é insustentável, o que exige um importante exercício de reescalonamento que a Troika descarta;
2) a Troika está comprometida com uma União Europeia neoliberal dos mercados desregulamentados de trabalho, privatizações, protegida constitucionalmente pela aplicação da austeridade orçamental ;
3) o governo de Syriza está empenhado num quadro económico social-democrata (apelidado como “radical” e às vezes mesmo de “extrema esquerda” na linguagem dos media na Inglaterra).
Estes três factos tornam inevitável que o governo grego terá de sair da zona euro. Se o governo de Syriza tivesse tido mais cuidado teria então levado a situação a um “Grexit” imediatamente a seguir à sua chegada ao poder mas isso é um assunto para um outro dia. É minha interpretação que o adiamento formal do governo grego do seu pagamento de Junho ao FMI representa uma consciente retenção de euros, necessária como parte da transição para uma moeda nacional quando o euro se transformar em divisa estrangeira.
A primeira etapa consiste em avaliar os custos da transição é inspeccionar até que ponto a economia pode suportar o choque da conversão de moeda. O perigo económico principal durante a transição seria a possibilidade de hiperinflação gerada por uma depreciação descontrolada da nova moeda nova (que por uma questão de conveniência eu chamo o dracma).
As defesas contra a depreciação em espiral é ter uma forte posição em divisa estrangeira e um excedente na balança corrente. O gráfico abaixo referencia os dados estatísticos chaves da política económica. Em maio de 2015 o total dos activos de reserva do Banco Central da Grécia situavam-se em €5.2 mil milhões, abaixo do nível dos dois meses precedentes, mas acima de um há um ano antes quando eram €4.9 mil milhões.
Se nós admitirmos que as importações em Abril e Maio não aumentaram substancialmente acima do nível de Março, estes €5.2 mil milhões eram duas vezes o valor das importações mensais. Na ausência de forte especulação da moeda este seria um nível manejável de reservas. Contudo, o governo grego pode esperar que uma forte corrida ao novo dracma imediatamente venha a tornar óbvio que a transição para uma moeda nacional começou.
A posição da balança corrente melhorou desde o fim de 2014 a Março de 2015, movendo-se para perto de uma situação negativa de cerca de – €83 milhões. Como a linha de importações mensal sugere, o problema da balança corrente não são as importações mas o nível de exportações. Desde que os programas da “troika” começaram, ou seja há já quatro anos, que as exportações estagnaram, apesar da opinião que a depressão criada sobre os salários promoveria um aumento na competitividade da Grécia e, portanto, levaria a um aumento das exportações.
Fonte: Bank of Greece. Importações e Balança Corrente até Março de 2015.
A detenção de reservas e a balança corrente indicam que a gestão da próxima transição para uma moeda nacional será um processo de faca de dois gumes para o governo Syriza. Como Matthew Klein aponta (ver referência supra), se a Troika assumir uma visão benevolente da saída da Grécia – “irmã tresmalhada vá em paz” – a transição de uma moeda para outra poderia ser feita de forma ordenada embora não suave. Se os credores e monitores em Berlim, Bruxelas e Washington decidirem que ” à Grécia deve ser dada uma lição”, então o povo grego irá enfrentar uma situação muito difícil, talvez mesmo desastrosa a curto e médio prazo.




Em resumo, vive-se no IVReich. Não têm disparado as armas de guerra mas ao utilizarem as “de paz” fazem o mesmo, ou pior.CLV