BISCATES – O Exército dos call center – por Carlos de Matos Gomes

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Um jornal colocava em título que em Portugal havia 40 mil pessoas a trabalhar em call center.  São mais do que os militares das Forças Armadas. Alguém definiu, há anos, o soldado como um desempregado armado. O trabalhador num call center, orgulho nacional, é um desempregado em fibra ótica. Ao soldado exigia-se que defendesse a Pátria, ao trabalhador do call center exige-se que defenda as estatísticas do desemprego na velha Pátria e na nova pátria da União Europeia. O trabalhador do call center é, para o ministro do trabalho, o que o soldado Milhões foi para o desastre nacional na Batalha de La Lys, na primeira Guerra Mundial: o herói involuntário. Há que condecorá-lo num 1º de Maio, antigo dia do trabalhador, hoje colaborador.

O trabalho num call center é precário, muito mal pago, com ritmos infernais e pressão violenta dos chefes, os novos sargentos. É uma escravatura aceite voluntariamente por força das circunstâncias. Muitos jovens com formações académicas superiores aceitam este tipo de trabalho onde todos são sobrequalificados para as funções que desempenham e todos são subremunerados para a violência das tarefas. Nos call center não há direitos. É um exército de carne para canhão. Os que não aguentam um dia, já estão substituídos no dia seguinte, por um novo colaborador, na seráfica designação dos mercados.

Estes condenados de auscultadores na cabeça fazem parte das excelentes notícias que os ministros e o presidente da República, os amanuenses de Bruxelas e de Berlim anunciam regularmente como um sucesso no programa de ajustamento (bela designação para o garrote) para a baixa do desemprego na taxa homóloga, ou na comparada ou em qualquer outra versão que saia dos olhos desorbitados do ministro Mota Soares, que se parece cada vez mais com o Mister Ed, o cavalo que falava nas antigas séries de televisão. As televisões estão cheias de Mister Ed, sabe-se agora que a fazerem propaganda paga, a título de comentário político isento.

Num estudo académico (Teresa Sá, “Precariedade” e “trabalho precário”: consequências sociais da precarização laboral) de 2010, já se referiam números assustadores: 41,3% dos que tinham trabalho experimentavam na sua actividade principal vínculos passíveis de traduzir condições de precariedade: ausência de contrato, contrato a termo certo, a termo incerto, recibos verdes cumprindo horário. A área da logística de grande distribuição e os call center eram os campeões desta forma de explorar o trabalho. Num inquérito realizado na zona de Lisboa, em 2014, mais de metade dos trabalhadores com menos de 30 anos (54,8%) trabalhavam em regime de precariedade e ganhavam menos de 40% do que os efectivos. É a este emprego que se referem os ministros do governo e o Presidente da República, com sorrisos tão alacres quanto alarves, quando referem o sucesso das políticas despachadas de Berlim e de Bruxelas.

Na realidade o trabalho num call center não é um emprego, é um trabalho para a estatística da União Europeia. Mota Soares não faz ideia da diferença entre emprego e trabalho, mas os “estatísticos” da troika fazem, assim como os ideólogos do neoliberalismo e até um tal Veloso da santíssima Universidade Católica, que aconselhava o dito Mota Soares a facilitar o despedimento destes desempregados a prazo e em fibra ótica de 3G, ou 4 G, o que, para o católico, deve significar que os despedidos sejam incinerados como resíduos tóxicos, ou que se lhes faça um reset, um delete, um dislike. Devidamente abençoados, é claro.

Se acrescentarmos aos 40 mil desgraçados colaboradores que nos falam do call center a dizer que são a Marta, ou o António, ou o Claudomiro aos 100 ou 200 mil dos caixas de supermercado, que são igualmente condenados sem direitos, como os animais de pasto, alimentados na ilusão de que vivem uma vida normal, mas a quem o “sistema” já traçou o destino: serem comidos logo que esgotem as suas capacidades de produzir lucro, temos um grande exército, um exército maior do que aquele que em 1973 combatia em 3 frentes na guerra colonial em África. Isto é, os precários estatisticamente empregados em 2015 são em maior número que os desempregados armados que faziam de Portugal, na década de 70, o segundo país mais militarizado do mundo, a seguir a Israel. Um sucesso no combate ao desemprego, igual ao que conseguiram Salazar e Marcelo Caetano, a que se deve somar o meio milhão de emigrados!

Os empregados dos call center e das caixas de supermercado são uma fraude que a União Europeia promove à custa dos contribuintes nacionais quando inventa estágios de curta ou média duração. Uma fraude em que os novos escravos são ludibriados com a esperança de um emprego, quando lhes oferecem um trabalho por seis meses, um ano, pago com o dinheiros dos contribuintes, a descontar nas despesas dos patrões com salários, e se vêem no final do dito estágio à porta da empresa, na rua, a observarem o novo contingente de futuros vigarizados que os vão substituir. São trabalhadores como os guardanapos de papel, usados e deitados fora, sem outro direito, a não ser ouvirem dizer: arruma as tuas coisas.

Não é de emprego que estão a falar os ministros daqui e da União Europeia, é de uma nova forma de escravatura, de uma regressão civilizacional, da destruição de laços que permitiram a Europa viver em paz relativa desde o final da segunda guerra mundial.

A autoproclamada sensatez e moderação da política da União Europeia, a política do não há alternativa está a formar um exército de recrutas saídos dos call center e das caixas de supermercado, da precariedade e dos estágios. Um dia eles aprenderão outras artes, como as da guerra, as da guerrilha, sairão à rua e então, as «instituições» com a perua Lagarde à frente, o diretório da União, com a Merkel e o Junker, o Draghi vão chamar-lhes radicais e terroristas, até gregos, talvez…

2 Comments

  1. Biscates ,onde Há razão para tal respeitem com dignidade quem quer e precisa de trabalho e salario com dignidade !!! É coisa que os nossos responsáveis muito pouco se lembram pena pois afinal somos todos dignos de viver com alguma qualidade,um dia sonhei todos os que queriam trabalhar tinham trabalho e salário com alguma dignidade para viver sem miséria ,Honestidade é coisa que muitos não conhecem ,se algum responsável tiver conhecimento destas simples palavras me diga o que se poderá fazer tornando este flagelo melhor .Joaquim Barroso DIA 01/07/2015

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