AS QUATRO VIAS PARA ACABAR COM A CRISE NA GRÉCIA – por JIM TANKERSLEY

Falareconomia1

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

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As quatro vias para acabar com a crise na Grécia

Jim Tankersley,  The four ways to end the Greek crisis, from Obama’s former top economist

Washington Post, 29 de Junho de 2015

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A bandeira da União Europeia, à esquerda, está pendurada  ao lado de uma bandeira nacional grega sob o Templo do Parthenon,   na colina da Acrópole em Atenas, Grécia, na terça-feira, 1º de maio de 2012.  É  “inteiramente possível” que o FMI e a UE venham  a  recusar a fazer o próximo pagamento à Grécia se o  novo governo   não cumprir os seus compromissos, diz-nos  Stephane Deo, da UBS, em nota enviada aos seus  clientes antes das eleições de 6 de Maio . Fotógrafo: Simon Dawson / Bloomberg.

Não foi há muito tempo que Austan Goolsbee[1] deixou de  trabalhar   na Casa Branca, como economista principal do presidente Barack Obama, e uma crise financeira na Grécia estava já então a ameaçar a economia global. Agora Goolsbee está de volta ao ensino e à sua Universidade  de Chicago, Obama está a meio caminho do seu  segundo mandato … e na Grécia está em crise crescente actualmente.

Diz-nos Goolsbee que não nos devemos surpreender pelo que se está a passar,    porque a Grécia e os restantes Estados membros da zona euro  estão prisioneiros  de um ciclo de choques assimétricos  – o que quer dizer, eles estão a ver  o que acontece quando diferentes partes de uma zona monetária unificada está a ser sujeita a eventos  económicos de impactos muito diferentes entre os diferentes países. A Grécia está em recessão, com baixo crescimento na produtividade, enquanto países como a Alemanha estão a ter as  suas economias em expansão e com a produtividade a aumentar a um ritmo mais rápido que o da Grécia. Se a Grécia tivesse  a sua própria moeda, esta desvalorizaria contra os seus vizinhos até que o crescimento económico e o da  produtividade voltassem a existir.

Sendo assim, disse-nos  Goolsbee  numa  entrevista por telefone na  segunda-feira, há apenas quatro maneiras de quebrar o ciclo, mantendo a Grécia na zona euro  – e não é claro que  os líderes europeus estejam dispostos a ver e a utilizar qualquer um deles.

Não é inevitável que “tudo venha a explodir numa enorme confusão e em chamas”, afirmou. “É certo que se não  explodir numa enorme  confusão em chamas, terá contudo uma trajectória muito facilmente reconhecível.”

Como devem os responsáveis pela  política económica – o FED, o governo dos EUA, os europeus – responderem à  Grécia, agora?

“Como eu vejo as coisas,  penso que há apenas quatro caminhos que se podem seguir quando se está perante choques assimétricos. Pode-se ter o caminho da  mobilidade do trabalho. Pode-se ter subsídios permanentes. Estas são duas características que nós temos nos  EUA, e é por isso que ninguém nunca perguntou depois do  furacão Katrina, porque é que Louisiana ou Mississippi não iam sair do dólar? E isso porque, exactamente, há mobilidade e há uma união fiscal onde eles obtêm  um grande subsídio.

“Então,  poder-se-ia ter estes dois caminhos ou poder-se-ia  ter a Alemanha  disposta   a ter  quatro ou cinco por cento de inflação ao longo de alguns  anos  e isto substituiria o mecanismo da variação da taxa  de câmbio. Ou ainda como quarto caminho poder-se-ia ter a  Grécia a tentar triturar os seus salários para  encontrar alguma forma  de melhorar  a sua taxa de crescimento económico e igualmente a da sua produtividade e de forma mais rápida  do que a  Alemanha. Simplesmente, isto! Essas são as únicas quatro coisas que  se podem  fazer.

Qual deles se  deve escolher?

“A unificação da Alemanha Oriental com a Alemanha Ocidental tinha uma característica similar. A Alemanha Oriental veio fundir-se com a Alemanha Ocidental tendo  aquela  (criando-se uma  Alemanha unificada)  uma taxa de câmbio sobrevalorizada. Esta  decisão foi tomada por razões políticas, e não económicas. Então, de repente, da noite para o dia, os alemães de Leste basicamente viram-se com salários ao nível da Alemanha Ocidental e com uma produtividade ao nível dos  polacos.

“Houve um milhão de milhões de euros em  subvenções,  houve uma enorme mobilidade no factor trabalho, houve um empenho nacional para que tudo  funcionasse.  E dito isto,  ainda agora  as taxas de desemprego são mais elevadas nas zonas da antiga Alemanha Oriental  do que na parte  da antiga Alemanha Ocidental. O que  eu acho é que nós nunca conseguiremos fazer luz nas  dificuldades que se enfrentam  ao nível do que se chama  reequilíbrio interno.

Na zona euro  tem-se uma baixa mobilidade da mão-de-obra,   têm-se  baixos subsídios. O Norte da Europa não me parece estar disposto a ter  quatro ou cinco por cento de inflação  ao longo de vários anos  enquanto a Grécia teria zero como inflação, e, portanto,  tem-se apenas como hipótese   tentar  triturar os salários na Grécia ou encontrar uma outra forma de  aumentar a produtividade.

“Se olharmos para  o registro económica grego, verifica-se que este  é muito semelhante à experiência dos Estados Unidos nos primeiros quatro anos da Grande Depressão. E depois de estar perante um evento como este, com uma Depressão com esta enorme  dimensão, eles cortaram nos  custos unitários da  mão-de-obra na Grécia – algo como  terem reduzido para metade a diferença havida face à  Alemanha.   A questão é se é então realista considerar que a Grécia precise  de  ter uma segunda Grande Depressão e considerar ainda que, em seguida, eles serão capazes de igualizar  os desequilíbrios?

“Ou países  como a Alemanha decidem  que é muito importante manterem-se juntos na UEM   e vão  encontrar alguma maneira não-pública de a subsidiar  permanentemente, ou então iremos  ter uma crise por  cada seis meses, uma a seguir à outra e assim sucessivamente,  até que alguém diga  que não aguenta mais. De resto,  não há nenhuma maneira com que possam modificar as coisas, seja como for,  dado  o prazo  que os credores estão a  exigir .

Será então a Grécia a ser posta fora da UEM?

“Há um grupo de pessoas que pensam que este é fundamentalmente um problema grego. É culpa da Grécia, pura e simplesmente. Agora começamos a ver o mesmo a  dizer publicamente,  “saiam, boa sorte” ‘Good Riddance”. Quer a Grécia fique, quer a Grécia saia, quer a Grécia se declare em  incumprimento ou algo parecido,  boa viagem. Se se puder colocar a Grécia fora disto tudo,  isso resolve os problemas.

“Pessoalmente, penso que isto não é verdade. (Se a Grécia sai)  alguém mais estará na mesma situação dentro de algum tempo. Os Estados membros da zona euro estão a ter choques assimétricos. Eventualmente Portugal ou a Itália ou um outro país  estará depois a caminhar para uma situação semelhante à da Grécia .

“A questão fundamental a levantar é então a de saber o que irá fazer a Grécia se ela sai da zona euro. Se a Grécia restabelece a sua própria  moeda e basicamente, dois anos a partir de agora, tiver  desvalorizado e estiver então a crescer, o que seria bom, e a seguir penso que a lição dada ao resto da zona euro seria muito diferente do que pode estar a parecer agora.

“É certo que agora, tem-se o sentimento de  que os governos das nações  credoras desejam   que a situação seja o mais dolorosa possível  para os gregos, de modo que ninguém mais seja tentado a tomar as mesmas posições. Querem ser maus. São bem capazes de fazer com que seja o pior possível para os gregos.  Mas há certamente a possibilidade que dois anos a partir de agora, isto não  seja realmente assim tão mau.

Jim Tankersley, Washington Post, The four ways to end the Greek crisis, from Obama’s former top economist. Texto disponível em:

http://www.washingtonpost.com/blogs/wonkblog/wp/2015/06/29/the-four-ways-to-end-the-greek-crisis-from-obamas-former-top-economist/

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[1] Nota de Tradutor : exerceu a função de Presidente dos Conselheiros em Economia do Presidente Obama

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