GRÉCIA: OS CENÁRIOS DO PÓS-REFERENDO, por ROMARIC GODIN

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Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

 

Grécia: os cenários do pós-referendo

 Romaric Godin, GRÈCE : LES SCÉNARIOS DE L’APRÈS-RÉFÉRENDUM, 

OkeaNews, 4 de Julho de 2015

Os partidários do «sim » e do « não » manifestaram-se na sexta-feira à noite em Atenas. Mas o que é que se poderá  passar na segunda-feira uma vez conhecidos os resultados ?  Uma tentativa de resposta.

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Manifestação pelo Não na Praça do Parlamento ,foto aérea,3 de Julho de  2015

 

Uma praça, Sintagma, no centro de Atenas, cheia de gente. Uma multidão que se estende nas avenidas e nas ruas circundantes e que foi estimada em  25.000 pessoas pela AFP, mas por mais de 50.000 pelos organizadores [Nota: pelo menos 50.000 de acordo com Reuters]. Sexta-feira 3 de Julho à noite, a manifestação pelo “não” ao referendo organizado este Domingo na Grécia sobre as propostas dos credores do 25 de Junho passado encheu completamente a praça. Alexis Tsipras, o primeiro ministro grego, pronunciou um discurso  a dar confiança aos partidários do “ não.” , onde afirmou : “ celebramos hoje a vitória da democracia. Nós somos já vitoriosos, qualquer que seja o resultado da votação de Domingo, porque a Grécia enviou uma mensagem de dignidade, uma mensagem de orgulho.”, declarou. Apresentou igualmente o desafio do voto de Domingo: “Não deixaremos a Europa entre as mãos dos que desejam subtrair a Europa à sua tradição democrática, às suas conquistas democráticas, aos seus princípios fundadores, os princípios de democracia, de solidariedade e de respeito mútuo. “

A menos de um quilómetro dali, no estádio Panathénées, os partidários do “ sim” também se tinham reunido. Estavam aí, de acordo com a AFP,  22.000 pessoas. A vedeta deste ajuntamento foi o apresentador de televisão franco-grego Nikos Aliagas, chegado de Paris, que declarou que “o sim dará um melhor futuro aos nossos filhos.” Os partidários “do sim”, que se apresentam à vontade como partidários da Europa e do euro, eram certamente menos numerosos na sexta-feira à noite mas estão actualmente de vento em popa nas sondagens, ajudados pela degradação rápida da situação económica e pelo alinhamento quase completo dos meios de comunicação social privados gregos. Nas últimas sondagens, o sim e o não são  considerados em empate técnico.

Os cenários: a reunião crucial do BCE na segunda-feira

Quais são os cenários possíveis após este referendo? A partir de segunda-feira 6 de Julho, o Conselho dos Governadores do BCE reunir-se-á para examinar o acesso do sistema bancário grego ao programa de ajuda à liquidez de emergência (ELA). É uma reunião muito importante. Os bancos gregos reconheceram não terem liquidez para lá de segunda-feira. Se “o sim” ganhar, o BCE deverá considerar que um acordo é possível entre a Grécia e os seus credores dado que o povo grego validou o plano dos credores. Deveria então aumentar o limite máximo do programa ELA disponível para os bancos gregos e permitir assim rapidamente a reabertura dos bancos que estão  fechados desde segunda-feira. No caso do “ não”, o BCE poderia considerar que nenhum acordo está à vista. Poderia então considerar que as garantias depositadas pelos bancos gregos para o seu acesso ao ELA têm um valor muito menor. Sem estar a aumentar o tecto, poderia reduzir o valor destas garantias e por conseguinte pedir mais garantias. Neste caso, os bancos gregos deixariam de estar em condições de fornecer liquidezes à economia grega. Permaneceriam fechados e o acesso ao dinheiro líquido e às contas bancárias tornar-se-ia praticamente impossível.

Tomando tal decisão, o BCE tomaria por conseguinte o risco de expulsar de facto a Grécia da zona euro. Vê-se já que a sua decisão do 29 de Junho de não aumentar o tecto do ELA que conduziu o governo a impor restrições de acessos às contas e a um controlo dos capitais empurrou a Grécia, no limite, para fora da zona euro: as empresas gregas deixaram de ter acessos ao sistema de transferência electrónico interno à zona euro. Ninguém realmente sabe até onde irá a determinação do BCE, mas, esta semana, dois membros do directório,  Benoît Cœuré e Vitor Constancio, pela primeira vez, consideraram que o “ Grexit” era possível. A irreversibilidade do euro deixa por conseguinte de existir e a expulsão da Grécia é uma opção. Será que se trata de bluff, de chantagem diremos nós, para assustar os eleitores gregos? Ou é uma verdadeira determinação? Não se saberá senão na segunda-feira 6 de Julho no caso “de não.”

Os cenários: “o sim” ganha, haverá então um acordo?

No dia seguinte, terça-feira 7 de Julho, o Eurogrupo reúne-se. A zona euro recusa sempre tratar com a Grécia, independentemente do resultado, a nível dos chefes de Estados e de governos. A Grécia permanece “um problema técnico” deixado como tal aos técnicos. No caso “de sim”, o Eurogrupo será sem dúvida muito orgulhoso em assinar um acordo com a parte grega com base no texto validado pelos eleitores. Mas, contudo, isto não será o fim da história. Porque com que ministro das Finanças europeus vão assinar este texto? E quem o aplicará ?

O futuro de Alexis Tsipras

No caso de vitória “do sim”, com efeito, a questão da manutenção no poder de Alexis Tsipras, que se comprometeu pelo “não”, será imediatamente colocada. Se permanecer no poder, os credores terão apenas tido uma vitória parcial. Desde há uma semana, não cessam com efeito de censurar a atitude do chefe do governo grego e afirmam ter perdido a confiança nele. Martin Schulz, o presidente do Parlamento europeu, pretendeu assim no Handelsblatt na sexta-feira 3 de Julho, que a Grécia devia “pôr fim à era Syriza.” Aceitarão então tratar com Alexis Tsipras? Nada disso está menos certo. Mas não é mais certo que Alexis Tsipras se possa manter no poder. O seu partido aceitará com efeito, apesar do veredicto popular, aprovar no Parlamento, os acordos e acompanhar a sua aplicação? Rapidamente, a posição do governo corre o risco de se tornar insuportável. Sem estar a contar que o referido governo corre o risco de se desfazer rapidamente. O ministro das Finanças Yanis Varoufakis anunciou que demitiria no caso “de sim” e não será sem dúvida o único.

Que governo?

É antes mais provável por conseguinte que Alexis Tsipras se demita no caso do “ sim.” Mas então, quem é que o vai substituir ? Martin Schulz propôs um governo técnico e cada um, na Grécia, sabe que o presidente do Banco central, Yannis Stournaras, morre de inveja de entrar à Maximou, o Matignon grego. Mas com que maioria? Tendo em conta a oposição radical dos Comunistas do KKE e dos neonazis de Aurora Dourada a qualquer governo, a maioria pode fazer-se para este governo técnico apenas com a concordância e o apoio de uma grande parte dos deputados de Syriza. Todo dependerá por conseguinte das reacções destes últimos à demissão de Alexis Tsipras e à decisão do primeiro ministro de permanecer ou não à cabeça de Syriza após a sua demissão. A equação é por conseguinte muito complexa. Tanto mais que este governo técnico não poderá sem dúvida manter-se por muito tempo sem estar a convocar novas eleições.

Crise política

Ora, o resultado de tais eleições é muito incerto. Não há realmente na paisagem política grega alternativas ao Syriza, hoje. O partido pró-europeu To Potami, afilhado de Bruxelas, pode sem dúvida aproveitar-se de “ um sim”, mas a sua implantação permanece muito fraca na população e as relações do seu líder Stavros Theodorakis com a oligarquia e com as antigas elites políticas não fazem dele uma verdadeira opção. Os eleitores escolheram Syriza em Janeiro também e sobretudo porque este partido representava uma possibilidade de os gregos se desembaraçarem dos partidos tradicionais e do seu sistema clientelista. Em novas eleições, e apesar de um “sim”, poderiam renovar esta mesma escolha. Tanto quanto estas eleições se farão em condições menos extremas que o referendo e sob pressões económicas menos fortes. Por último, a oposição “pró-troika” está muito dividida  entre o Pasok, To Potami e Novo Democracia. Ora, na Grécia, o partido chegado à frente recolhe 50 dos 300 deputados do Vouli, o Parlamento. Resumidamente, os credores arriscam-se a  terem que, mesmo com “um sim”, de terem de contar ainda com Syriza. E como as propostas apresentadas ao povo este Domingo se referem  apenas aos anos 2015 e 2016, corre-se o risco de que a tensão regresse rapidamente, tendo em conta as necessidades enormes de financiamento do país e a vontade de um governo Syriza retomar a mão,  uma vez o plano validado pelo povo ter chegado ao seu terminus. Sobretudo se, como é provável, este plano for ainda um malogro em termos de objectivos calculados como o foram todos os planos da troika desde 2010…

Os cenários: no caso do “ não”, bloqueio ou acordo?

E no caso “de não”? Alexis Tsipras sairá evidentemente reforçado. Tsipras assegurou que, neste caso, a posição grega será mais forte nas negociações e que poderia assinar um acordo a partir de terça-feira. É, sem dúvida, extremamente optimista, mas é verdadeiro que o acordo com os credores estava realmente bastante próximo. O governo grego aceitou o essencial das medidas de austeridade exigidas pelos credores, excepto o fim do abatimento de IVA nas ilhas e a supressão da reforma complementar EKAS para os mais frágeis em 2018 (propõe 2019). O verdadeiro ponto de desacordo, é a dívida. Atenas não quer uma vaga promessa sobre a reestruturação da dívida, mas um verdadeiro calendário que comprometa toda a gente. Os credores recusam. Um “Não” fá-los-á vergar ? Não é certo. Tanto mais , quanto se viu, o BCE poderia rapidamente repor a pressão sobre o governo grego reduzindo o acesso ao ELA. Alexis Tsipras deverá por conseguinte escolher rapidamente entre uma continuação incerta das negociações e um Grexit. Contudo sempre rejeitou esta opção, e não é uma postura. Syriza fundamental e historicamente é um partido pró-europeu. Mas a necessidade por vezes faz a lei.

Não nos devemos contudo esquecer que o “não” seria uma negação do povo grega para com a atitude dos credores. Ser-lhes -á então difícil não ter conta deste voto. Por seu lado, O BCE também será confrontado com uma escolha grave. Negar o “não” recusando negociar mais e cortando ainda a Grécia da zona euro seria desastroso a prazo para a imagem da Europa e ignora-se se o BCE estará realmente pronto para assumir o risco de um Grexit.

O cenário “mais aceitável” parece por conseguinte ser o do “ não” seguido de um período de hesitações do BCE, de uma curta negociação onde os Gregos aceitariam um plano ligeiramente alterado dos credores e acompanhado de um compromisso a abrir discussões sobre a dívida. Neste caso, evitar-se-ia a crise política na Grécia e cada uma das partes sairia de cabeça levantada. A economia grega poderia então reencontrar um funcionamento normal, não obstante os efeitos das medidas anunciadas. Mas este cenário não é hoje o mais provável.

Romaric Godin, GRÈCE : LES SCÉNARIOS DE L’APRÈS-RÉFÉRENDUM, piblicado por OkeaNews e disponível em :

http://www.okeanews.fr/20150704-grece-les-scenarios-de-lapres-referendum?utm_source=wysija&utm_medium=email&utm_campaign=News+du+jour

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