A CANETA MÁGICA – A Literatura grega moderna – uma bela odisseia –1 – por Carlos Loures

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Nunca separo a literatura da vida.

Estes pequenos e singelos textos sobre a moderna literatura grega não pretendem apresentar teses novas sobre uma matéria tão estudada, sobretudo no âmbito universitário – provavelmente tudo o que aqui vou dizer, já outros o disseram e, muitos deles, melhor e de forma mais fundamentada. Em certos aspectos, prevalecerão os contactos que fui tendo com a literatura grega – como simples leitor, como estudante, como bibliotecário, como editor, como tradutor. E esta é uma conclusão a que chego – todos, com maior ou menor intensidade, contactam a cultura, a literatura grega. Nesta avassaladora onda de interesse pela Grécia que atravessamos, interesse, diga-se, plenamente justificado pela esperança que os povo grego nos deu com o seu NÃO, irei publicando alguns pequenos artigos sobre a literatura moderna da Grécia e o seu papel na independência e na consolidação da identidade nacional. E também na coesão da cultura europeia que, de Petrarca a Camões, de Dante a Martorell e a  Ronsard,  de Cervantes a Shakespeare,  a Lord Byron e a Goethe, transportam os moldes que os gregos conceberam.

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Se procuramos um estado cuja identidade nacional tenha sido, em grande parte, criada pela sua literatura, a Grécia moderna é um bom exemplo, pois os grandes escritores e as grandes obras da Antiguidade Clássica nunca deixaram de ser invocados – entre muitos outros, Ésquilo, Sófocles, Eurípedes, Platão, Plutarco… Sobretudo Homero. A tradição literária da Grécia foi mesmo o molde de grande parte da literatura europeia – a começar em Virgílio, cuja Eneida se inspira na poesia lírica da Grécia; muitos séculos depois o nosso Camões não ocultaria a matriz clássica de Os Lusíadas com a qual fundiu os elementos portugueses, criando uma épica culta nacional. Esclareça-se que quando falo de literatura europeia, não esqueço a literatura americana que, de algum modo, é uma extensão da europeia – em autores de língua inglesa, espanhola ou portuguesa vamos encontrar numerosas referências à literatura da Grécia Antiga.

Porém, a consciência lírica impregnada no imaginário colectivo dos gregos durante a ocupação otomana, talvez não fosse suficiente para possibilitar a independência, não fora a necessidade que as grandes potências da Europa pós-napoleónica sentiam de conter a ameaça turca. Existiam movimentos de libertação, mas sem o apoio diplomático e militar da Grã-Bretanha, da França e da Rússia, a Grécia independente seria um sonho que a repressão armada turca transformaria em pesadelo.

Nestes pequenos textos falarei de Nikos Kazantzákis e da sua militância independentista que usou a literatura como arma. Mas de outros falarei – de Odysseus Elytis, de Giórgos Seféris e, claro, de Konstantinos Kaváfis. André Kedros não será esquecido e Mikis Theodorákis também não – Diga-se que fui tradutor destes dois últimos. E por aqui começarei a crónica que se segue – as circunstâncias em que traduzi Kedros e Theodorákis.

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