CRÓNICA DE DOMINGO – GREXIT OU CONTINUAÇÃO NO EURO? por João Machado

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Sexta-feira passada ouvi João Ferreira do Amaral dizer numa das nossas cadeias de televisão, salvo erro a SIC, que continua a defender a saída do euro, mas uma saída do euro cuidadosamente negociada, para não irmos, com essa saída, a caminho de um desastre. João Ferreira do Amaral, é de recordar, foi quem lançou em Portugal a ideia da saída do erro como via para a saída da crise, mas tem de se lhe dar o mérito de que sempre enunciou as condições segundo as quais essa saída se deveria processar. Quem quiser conhecê-las poderá encontrá-las no livro A Solução Novo Escudo, um livro que escreveu em conjunto com Francisco Louçã, e que saiu a público em Agosto de 2014, numa edição da Lua de Papel. Devemos também assinalar que o livro foi escrito a pensar sobretudo em Portugal, e não na Grécia ou noutro país em dificuldades.

As negociações que hoje decorrem sobre o novo resgate à Grécia justificam que se recorde esta posição do nosso compatriota. Mas sobre este assunto tão actual, há que assinalar, em primeiro lugar, que a alternativa do Grexit apareceu finalmente à luz do dia, e que não foi apresentada pela Grécia. Tsipras continua a defender a permanência na Europa e no euro, numa aparente contradição com os resultados de referendo de domingo passado, e em sintonia com a maioria do Syriza, e com outros partidos do espectro político grego, que até terão apoiado o sim minoritário. Hoje está a tentar chegar a acordo sobre o futuro ou não do resgate financeiro ao seu país. Não conheço evidentemente os pensamentos do primeiro ministro da Grécia, mas não custa perceber que ele sabe perfeitamente que, com uma saída do euro, exporia os seus compatriotas a riscos enormes. E uma saída do euro em situação não negociada, em litígio com os outros países da União Europeia, agravaria extraordinariamente esses riscos. Basta pensar na situação geográfica da Grécia, e lembrar que só se tornou definitivamente independente do império otomano há cerca de um século. A maneira infeliz como se fechou a porta a uma ligação da Turquia à União Europeia, a situação na Síria, Iraque, Palestina e outros países do Próximo e Médio Oriente, o elevado número de refugiados na Grécia, a instabilidade nos Balcãs, são também matérias que pesam com certeza nas suas decisões.

A situação complica-se extraordinariamente com as posições de representantes de outros países membros, que invocam o problema de confiança no actual governo grego. Dizem não poder confiar que cumpra as suas exigências. E a razão que invocam é precisamente a de ter submetido a referendo, no passado dia 5 de Julho, essas exigências. É claro que esses representantes pensam com certeza nas situações internas dos respectivos países, e nas opiniões públicas com que se defrontam. É duvidoso que alguma vez se arriscassem a submeter a referendo as decisões impopulares que impõem aos seus compatriotas, ainda por cima provenientes da União Europeia. Entretanto, farão tudo para deter uma força política que procura pôr em prática decisões menos “austeras”, e assim provar na prática a gravidade dos disparates que têm andado a impor. Assim, é duvidoso que alguma vez aceitem algum acordo que não implique a saída do Syriza do poder a curto ou médio prazo, ou o Grexit. Tudo de uma maneira “exemplar” para desanimar quem queira alternativas à sua regra única.

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