CARTA DO RIO – 59 por Rachel Gutiérrez

riojaneiro2Em1980, durante o último período da ditadura militar em nosso país, o poeta Affonso Romano de Sant’Anna publicou um poema intitulado Que país é este?  pergunta repetida no início de cada estrofe para questionar todas as nossas contradições de então. Trinta e cinco anos depois da divulgação daquele poema, paradoxal e inexplicavelmente a mesma pergunta foi proferida, com arrogância, por um dos empreiteiros acusados de corrupção no processo da Petrobras.

Mas apesar da gravidade da crise por que passa o Brasil, apesar de todos os desmandos, incongruências e contradições de políticos e do próprio governo, a pergunta que de repente se impõe agora a mim é mais ampla, muito mais abrangente e diz respeito à humanidade inteira: Que mundo é este?

Que mundo é este que possui mais de 500 Organizações Internacionais e não é capaz de enfrentar a barbárie do grupo terrorista jihadista, que se auto-intitula Estado Islâmico, e mata e degola inocentes para afirmar o seu poder? Que mundo é este que não trata de minorar o sofrimento de 650 milhões de pessoas que não têm o que comer? Que mundo é este que não consegue evitar a morte de centenas de civis encurralados e bombardeados em tantas zonas de conflitos intermináveis como os da Síria e do Iraque? Que mundo é este que não se reúne e unifica para combater e punir os “traficantes de carne humana”, como os chamou o Papa Francisco, os responsáveis pela morte de mais de 2000 fugitivos, na travessia desesperada do oceano diante da Itália, em busca de refúgio na Europa? Que mundo é este que não se sensibiliza diante da tragédia daqueles desabrigados sem recursos e sem destino?

A ONU foi criada em 1945: “para garantir a paz entre os povos” e a União Européia, em 1946: “para assegurar que a insanidade das guerras não mais se repetiria”. E a Declaração Universal dos Direitos Humanos é de 1948! Mas já tivemos 40 anos de guerra fria e os conflitos e as guerras localizadas jamais deixaram de existir. Neste hemisfério, em que temos, entre outras, a OEA e o Mercosul, não haveria espaço de sobra para acolhermos os infelizes africanos,  que se veem obrigados a fugir de seus países conflagrados?

 Neste mundo onde parece mais interessante discutir o crescimento do mercado, ou o do PIB e o da inflação, as altas e as quedas das Bolsas, as dívidas financeiras e os ajustes fiscais, o dinheiro e o lucro tem sido mais importantes do que o destino dos seres humanos. Tudo o que diz respeito ao “comportamento” da Economia e seu crescimento desperta maior interesse  do que a saúde e o bem-estar das pessoas, ou a educação e a proteção das crianças, ou a orientação dos jovens e o cuidado com os velhos, ou seja, os números e a competição econômica  preocupam mais do que o  I D H –  o Índice de Desenvolvimento Humano.

Como diz a escritora e ativista Riane Eisler, em seu magnífico livro The real Wealth of Nations (A verdadeira Riqueza das Nações): “por mais estranho que pareça, não basta focalizarmos apenas a economia para mudarmos os sistemas econômicos.” A socióloga e historiadora da cultura propõe uma reinterpreção da economia para dar visibilidade e valor ao trabalho humano que considera essencial: o de importar-se com as pessoas e o planeta. Ela afirma que na nossa época, a alta tecnologia guiada pelos valores da conquista, da exploração e da dominação, ameaça a nossa própria sobrevivência. Porque o que precisamos é de “invenções econômicas inspiradas na ética do cuidado.”

 São os seres humanos preocupados com os outros os mais importantes deste planeta.  Portanto, as ONGS também, que se multiplicam para compensar muitas das nossas carências. Haverá algo mais essencial e necessário do que o trabalho dos Médicos Sem Fronteiras? Ou o da velha e valorosa Cruz Vermelha?

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E por falar em guerras, heróis e compensações, sempre me comoveu a generosidade dos compositores Maurice Ravel e Sergei Prokofieff, que se apressaram em escrever concertos de piano (para a mão esquerda e orquestra), verdadeiras obras-primas, em homenagem ao pianista Paul Wittgenstein, que perdera o braço direito na Primeira Guerra Mundial. Paul era irmão do filósofo Ludwig Wittgenstein e da socialite vienense Margaret Stonborough-Wittgenstein, imortalizada num retrato pintado por  Gustav Klimt. E salvo erro, Benjamin Britten também escreveu na intenção do pianista austríaco as suas Diversions para piano ( mão esquerda )  e orquestra.

E no cinema, um dos filmes que sempre me emociona é Hiroxima mon amour, um clássico cujo roteiro, altamente poético, foi criado por Marguerite Duras e cuja direção primorosa coube a Alain Resnais. O filme é um libelo contra a guerra, especialmente contra o cruel e injustificável bombardeio de Hiroxima e, ao mesmo tempo, uma ode à paz e ao amor possível entre diferentes – um arquiteto japonês e uma atriz francesa. Na cena de abertura, vemos os corpos abraçados do casal de atores que configuram o que Rabelais e Shakespeare chamaram de “animal com duas costas”, aparentemente se deteriorando, cobertos de areia ou de cinzas. E o filme todo se desenrola ora como documentário, ora como drama amoroso numa demonstração do quanto a arte é capaz de nos revelar, melhor do que qualquer tratado, as verdades profundas sobre nós mesmos e sobre o pesadelo da nossa História.

Sim, mais do que nunca, diante da assustadora crise humanitária provocada pela tragédia dos refugiados, podemos repetir com James Joyce que a História é um pesadelo do qual gostaríamos de despertar.

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