BISCATES – “Das virtudes da moderação” – por Carlos de Matos Gomes

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No mundo da propaganda a que estamos sujeitos, os vendedores de ideias impingem à viva força o conceito da moderação, como a suprema virtude. A moderação como virtude política é uma vigarice que só convém aos radicais que subvertem os valores essenciais.

Vivemos, em Portugal e na Europa, uma dessas campanhas de propaganda de promoção da moderação radical.

Na Europa, Schäuble, o alemão que defende a germanização do continente, a subordinação das cultura e das economias aos interesses da Alemanha, das finanças dos países europeus aos interesses do euro, o marco que a Alemanha está a impor aos europeus da União Europeia, é apresentado como um moderado. Schäuble é um moderado que quer destruir o estado social nos países do sul da Europa para aí criar uma reserva de mão de obra barata – aquilo que o moderado Hitler também tentou fazer com os polacos, com os eslavos. Schäuble é um moderado. Os seus cabos de ordens nos países sob resgate também o são: Passos Coelho, Rajoy, os primeiro ministros da Finlândia, da Eslovénia, da Hungria, também são moderados. São moderados que se opõem aos radicais que afirmam não ser pagável a dívida soberana dos estados.

Ao longo da história, mesmo da história recente, os moderados, aqueles que as opiniões públicas declararam moderados, foram sempre os cúmplices úteis dos radicais. Os moderados foram também e sempre traidores aos valores da humanidade, do progresso e da paz. A bem da moderação, Neville Chamberlain, primeiro ministro da Grã Bretanha antes da II Guerra Mundial, assinou os Acordos de Munique com Hitler, para evitar uma guerra, porque Hitler não era mau de todo e assim a Grã Bretanha aceitou a anexação dos Sudetas da Checoslováquia pela Alemanha. Teve de ser o radical Churchill a conduzir a reacção inglesa, fazer a rutura, a perceber o momento da História e a enfrentar o até aí sensato e moderado Adolfo Hitler. O também moderado Paul von Hindenburg, presidente da Alemanha nos anos 30, apesar de detestar Hitler, a quem chamava o cabo boémio, nomeou-o chanceler e assinou o Decreto de Fogo, que eliminava um vasto conjunto de liberdades na Alemanha. A moderação de von Hindenburg deu origem à II Guerra Mundial, ao Holocausto. Nada mal para a moderação. Em França, o moderado e até heróico marechal Pétain achou que a moderação era a melhor defesa para os interesses da França e tornou-se colaboracionista de Hitler, chefe da República de Vichy. Teve de ser o radical De Gaulle a fazer a rutura, a defender a dignidade da França que os moderados colaboracionistas afrontavam. Na extinta União Soviética, a seguir ao moderado Estaline e aos seus moderados sucessores Krutchev, Brejnev teve de ser o radical Gorbatchev a proclamar o fim do que já deixara de fazer sentido e se tornara insustentável.

Aqui em Portugal, o moderado Marcelo Caetano sucedeu ao moderado Salazar. Antes, o radical Humberto Delgado tinha proposto a democratização do regime (moderado), a negociação das independências das colónias, (que teriam evitado 14 anos de guerras moderadas). A moderação do regime do Estado Novo e dos seus colaboradores esteve na base do sub desenvolvimento de Portugal (na década de 60 era o país com menores índices de desenvolvimento da Europa Ocidental, juntamente com a Grécia) e de uma guerra colonial, devastadora a vários títulos.

A moderação, em termos políticos é, pois, um embuste histórico, um embuste que corrompe a noção da sensatez para a utilizar em proveito de políticas radicais de benefício de uma minoria. Moderado é Schäuble, radical é Tsipras. Moderado era Hitler, radicais eram os anti-nazis. Moderado era Estaline, radical foi Gorbatchev, moderado era Salazar, radical era Delgado. Moderado era Kaulza de Arriaga, que propunha a continuação da guerra perdida em África e radicais eram os que puseram fim à cegueira histórica de procurar soluções inviáveis.

Em Portugal, a parelha Passos Coelho, Paulo Portas, que conduz a mais radical política de transferência de riqueza entre grupos sociais, que promove a mais radical política de desigualdade social, que desenvolveu a mais radical política de destruição da identidade e do património nacional é apresentada pelos seus propagandistas como uma parelha moderada!!!

A propaganda vive desta falácia: depois do saque, depois dos saqueadores se sentarem sobre os escombros, chega o tempo de se apresentarem como magnânimos. Isto é, como moderados.

A propaganda e o condicionamento das mentes chegaram ao ponto de contaminarem aqueles que deviam ser radicais contra a falsa moderação. Mas não. Os partidos socialistas e sociais democratas fizeram da moderação a sua palavra de ordem para evitarem assumir a cobardia e o colaboracionismo. Preferem o colaboracionismo à luta.

É curioso que o mais consciente de todos os socialistas portugueses seja o velho Mário Soares, aquele que tem a vivência do colaboracionismo em Portugal e na Europa. Ser um colaborador dos radicais em nome da moderação é um erro comprovado historicamente. Infelizmente falta tanto de conhecimento de história como de coragem aos seus sucessores. Falta tanto de reflexão sobre o passado como visão do futuro. E as manobras de olho no umbigo que estão a promover o lançamento de Maria de Belém a Belém para a qual, sem dificuldade, encontram um slogan:

Se entendes que tudo está bem, vota na Maria de Belém!

É o triunfo dos moderados, na versão dos orwellianos do Partido Socialista para quem a moderada Maria de Belém pode esconjurar os perigos da radical Manuela Ferreira Leite, do extremista Bagão Félix, do quase guerrilheiro guevarista Ramalho Eanes.

Enfim, num tempo em que a moda é ir para o Panteão, é de prever que a nova candidata da moderação promova a retirada dos radicais Humberto Delgado, Aquilino Ribeiro Machado e substitua o primeiro por Américo Tomas e o segundo pelo escritor Joaquim Paço de Arcos. Dois imorredoiros moderados.

1 Comment

  1. É então chegada a hora de sermos também nós radicais, vejo que o estimado cronista se lançou nesse caminho, queira o povo português que a sua escrita além de os informar, os acorde para a necessidade de romper, sejamos rotulados de radicais ou outra coisa qualquer, isto é que já não pode mais continuar….

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