Na sua declaração ao País, ontem às 20:30, o presidente da República fixou a data das eleições legislativas para o Domingo, 4 de Outubro. Vamos ter pela frente dez semanas de picardias, ataques, justificações, mentiras, calúnias… – um filme que já vimos treze vezes, com aquilo a que se chama «alternância democrática», mas que ao contrário do rotativismo dos parlamentos do fim da monarquia, dão uma clara vantagem à direita oito vitórias, contra cinco vitórias da «esquerda» – podemos escrever direita sem aspas; o mesmo já não podemos fazer com a «esquerda» – na realidade, nas treze eleições legislativas, houve treze vitórias da direita.
É o «jogo democrático». O eleitorado, votando livremente, opta por uma das duas forças de direita – uma assumida, defendida desta vez pelo discurso pesporrente de um Passos Coelho que, com o estúpido sorriso de quem pacientemente explica o óbvio a débeis mentais, coadjuvado pelos meneios histriónicos de um Portas que, não sendo estúpido, tenta transformar em ouro o pobre chumbo dos seus argumentos falaciosos – e uma direita travestida de esquerda, um punho cerrado que se esconde sob uma rosa, representada por um senhor simpático, que denuncia os erros dos adversários no tom risonho de quem revela marotices de rapazolas. Um senhor que, se for primeiro-ministro, mudará o estilo, mas deixará intacta a política de direita, impunes os corruptos, talvez punindo um ou outro dos corruptos adversários e deixando prosperar a numerosa corte de miseráveis que, de um ou outro bando, enriqueceram subitamente e têm na democracia atmosfera ideal para deixar respirar a sua insaciável sede de poder.
Os partidos que, pelas suas bases programáticas, podemos considerar de esquerda, vendem a alma ao diabo pela esperança de na próxima legislatura obterem mais um deputado – como se para o povo português isso tivesse qualquer importância. O eleitorado, com taxas de abstenção crescentes, não os leva a sério e quando vai votar escolhe (realisticamente?) entre a “fome” e a “impossibilidade de comer”. Não aconselhamos a abstenção por respeito aos milhares de antifascistas que morreram e lutaram para que os direitos fundamentais, e entre eles o direito de voto, fossem restituídos aos portugueses.
Porém, por uma vez estamos de acordo com Passos Coelho – «que se lixem as eleições!».
