A CANETA MÁGICA – A Literatura grega moderna – uma bela odisseia – 8 – por Carlos Loures

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Estas crónicas sobre a literatura grega contemporânea, têm o método de uma conversa de café, pois tenho vindo a discorrer sobre o que me vem à memória e apoiado por uns apontamentos desordenados e tomados ao longo de leituras diversas. Prometi falar sobre Nikos Kazantzákis e, até agora, não o fiz de uma forma que permita a quem eventualmente tenha paciência para ler estas notas ficar com uma ideia sobre o papel do escritor cretense no contexto geral de uma literatura que embora com raízes profundas na história teve de ser reinventada para que pudesse assumir o papel estruturante que as literaturas nacionais têm na construção da identidade nacional. Tanto mais que a Grécia como nação foi uma novidade do século XIX.

Quando, em 1883, Nikos Kazantzákis, nasceu em Iráklion, principal cidade de Creta, a ilha estava ainda integrada no Império Otomano. Fez os estudos primários e secundários numa escola da Ordem de São Francisco, cursando depois Direito na Universidade de Atenas. Uma das frequentes revoltas cretenses contra os ocupantes turcos, levou a família a refugiar-se na ilha de Naxos. Refira-se uma originalidade do sistema otomano de ocupação – os territórios administrativos tinham um dispositivo militar leve, quase limitado a operações de rotina policial. Tal fragilidade era uma tentação para os independentistas, pois atacar e destruir as guarnições locais era relativamente fácil. Porém a aparente bonomia dos paxás, que privilegiavam o diálogo com as populações gregas, a tolerância, a amizade, etc,etc., desaparecia logo que uma revolta estoirava e as débeis forças de manutenção da ordem eram aniquiladas – unidades militares, fortemente equipadas, estrategicamente espalhadas pelo território ocupado, caíam sobre as regiões rebeldes e não deixavam pedra sobre pedra. Aldeia ou cidade que se revoltasse contra o poder otomano, era riscada do mapa.

Nikos era um patriota, um defensor acérrimo da independência. No entanto, na sua bagagem cultural, arrumavam-se outras preocupações e uma filosofia própria, sincrética, subsidiária de vários sistemas filosóficos e diversas religiões, complexidade que se reflecte na construção das suas personagens que nunca assumem posições lineares face aos mistérios da natureza humana. Foi em Naxos quando, fugido à repressão imperial, ali se refugiou que começou a escrever os seus romances.

Tentarei na próxima crónica não cair em alçapões. Prosseguiremos na companhia de Nikos Kazantzákis

 

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