O episódio de Germaine Berton é significativo por duas razões.
Primeiro põe à mostra o cromossoma libertário do surrealismo, em época de oiro, aquela em que Breton estampa o primeiro manifesto (Outubro de 24) e o grupo abre o bureau de recherches surréalistes e dá à estampa o primeiro número da sua revista específica. O que reforça este cromossoma é o facto do partido comunista existir desde 1921, ano em que Dádá em Paris fez, por meio do grupo Littérature, o processo de Maurice Barrès, inculpado de crime contra a segurança do espírito. No episódio Berton desenha-se a encruzilhada do surrealismo nas suas relações com as forças políticas exteriores. Para bem dizer, no momento do seu nascimento ele tanto podia ter continuado fiel ao anarquismo inicial, que não estava só afinal confinado à primeira juventude de Breton (lápide libertária e manifestação operária anti-belicista do Pré-de-Saint-Gervais), como inclinar-se para o recém-nascido partido comunista francês, o que na verdade veio a acontecer, e por longo período, mais duma década, ao que parece pela leitura que Breton tomou por empolgante no Verão de 1925 da biografia de Lenine por Trotsky.
Em segundo plano o caso de Germaine Berton, ausente da história das acções mais conhecidas do grupo surrealista francês, é ainda representativo da personalidade política de Breton – tão patente por exemplo no caso da agressão a Ilya Ehrenbourg, que levará à sua expulsão do partido comunista em 1935. Breton mostrou sempre adesão apaixonada à revolução, tal como a entendiam os herdeiros das convulsões sociais do século XIX, e ao que nelas havia de violento, de altercador, de chocante, de catártico. Coevo de Gandhi, nunca citou com simpatia, que eu saiba, a actividade política deste grande lutador, não obstante o apoio incondicional que deu aos objectores e (até) ao pacifismo não violento de Lecoin. Ao que dou nota, Breton nunca regressou à figura de Berton, como se a leitura da Vida de Lenine de Trotsky a tivesse enterrado para sempre, ao contrário do que faz com a manifestação do Pré-de-Saint-Gervais, com a ida ao cemitério da sua infância, ambas citadas com verdadeiro fervor em Arcano 17, e com a figura de Violette de Nozières, acusada de parricídio em 1933 e que mereceu a Breton a inclusão nas efemérides surrealistas de 1955. Ainda assim talvez nenhum episódio, nenhuma figura, nenhum momento nos situe melhor a alma política de Breton do que esse cesto de rosas vermelhas enviada a uma pantera anarquista que acabara de se envolver num atentado à mão armada. E não é tanto o Breton revolucionário ao velho estilo da acção directa que eu vejo aqui, o mesmo que como tantos outros acabaria por uma questão de eficácia (duvidosa) por aderir ao partido comunista em 1925, e que para bem dizer é o mesmo que intervirá a favor do sindicalismo libertário espanhol ou dos objectores de consciência, mas o Breton inflamado, escaldante, vulcânico, poético, que no momento da sua ruptura com o estalinismo, e depois com o abandono do marxismo-leninismo em geral (e dele não sobreviveu qualquer alusão nas efemérides de 1955), percebeu que transformar o mundo não era suficiente; era preciso, na senda da grande poesia, na via de Rimbaud, mudar de vida e de mente.
E por aqui se chega e retoma o estupendo texto de André Breton, “La Claire Tour”, dado a lume no jornal Le Libertaire a 11 de Fevereiro de 1952, e que pela sua textura representa uma condensação riquíssima, até do ponto de vista simbólico, dos nós que se encontram no percurso político de Breton e do surrealismo. É uma chave interior, talhada na recordação dum poema de Laurent Tailhade, a balada Solness, datada de 1900, cuja estrofe final invoca a anarquia, portadora de lume e construtora da clara torre que domina as torrentes. A canção, composta sobre epígrafe de Ibsen, teve larga popularidade, tocando o jovem Breton da manifestação de 1913, que quarenta anos depois a retoma para com ela baptizar a mais densa e soberba reflexão sobre o itinerário político do surrealismo e de que aqui deixo dois ou três trechos representativos: Onde o surrealismo pela primeira vez se reconheceu, bem antes de se revelar a si próprio e quando não passava duma associação livre entre indivíduos rejeitando espontaneamente e em bloco as coacções sociais e morais do seu tempo, foi no espelho negro do anarquismo. (…) / Nesse momento a recusa surrealista era total, absolutamente incapaz de se deixar canalizar sobre o plano político. Todas as instituições sobre as quais repousava o mundo moderno e que acabavam de dar por fruto a primeira guerra mundial eram tidas por aberrantes e escandalosas. Todo o aparelho de defesa da sociedade (…) estava em causa: exército, justiça, polícia, religião, medicina mental e legal, ensino escolar. (…) / Porque não se operou nesse momento uma fusão orgânica entre elementos anarquistas propriamente ditos e elementos surrealistas? Ainda hoje, vinte e cinco anos depois, me continuo a interrogar. Não há dúvida que a ideia de eficácia (…) ajudou a decidir doutro modo. Aquilo que se pode tomar como o triunfo da revolução russa (…) contribuiu para uma grande mudança de modelo. O único borrão na pintura – que depois se fará nódoa indelével – residia no esmagamento da insurreição de Cronstadt a 18 de Março de 1921. (…) Podíamos porém acreditar que os sinais de degenerescência a Leste eram regeneráveis. Os surrealistas viveram então na convicção que a revolução social alargada a todos os países não podia deixar de promover um mundo libertário (alguns dizem um mundo surrealista, mas é o mesmo). (…) / Conhecemos hoje o impiedoso saque que foi feito a estas ilusões durante o derradeiro quarto de século. Por uma horrível ironia, em lugar do mundo libertário sonhado surgiu um mundo onde a mais servil obediência é de lei, onde os mais elementares direitos são negados ao homem, onde qualquer espaço social gira em torno do polícia e do carrasco. (…) É no termo deste processo que reencontramos o anarquismo e ele apenas (…). / Liberta das brumas da morte deste tempo, os surrealistas tomam-na [a concepção libertária] pela única capaz de fazer ressurgir a clara torre que sobre as torrentes domina.
Que torre é esta? Já se sabe, a torre da balada de Tailhade, que correu na juventude de Breton. Podemos também chamar-lhe a anti-torre, pois os seus desígnios parecem contrariar os de Babel. Mais do que aspirar ao céu, esta clara torre põe mão nos caudais revolutivos da Terra, harmonizando-os, de acordo com a teoria fourrierista da satisfação integral das paixões e fora de qualquer noção de obrigação, mesmo revolucionária. O criador do surrealismo pôde assim construir com a clara torre do poema de Tailhade um símbolo imperecível das suas aspirações mais vastas.
E em Fourier, o do falanstério ou o do contrato social renovado pela felicidade, encontramos outra das linhas fortes que cerzem o Breton desta nota, que procura a arqueologia libertária do surrealismo. Depois de dar a lume Arcano 17, Breton descobre as obras completas de Charles Fourrier (edição de 1846), de que só conhecia extractos, e numa viagem a Reno, Nevada, na companhia de Elisa, com quem então casa, e no meio duma reserva de índios Hopi, no Verão de 45, inicia e conclui a escrita celebrativa de Ode a Charles Fourrier, que funciona assim como o poderoso elo que estabelece a ligação entre as recordações da Gaspésia e a colaboração dada ao jornal Le Libertaire em passo ulterior do regresso a Paris. Também esse texto, publicado em 1948 e que Ernesto Sampaio verterá para português em 1963, trará segundo Cesariny uma nota ao modo próprio com que o surrealismo português nasce na segunda metade da década de 40. Eis o momento em que a emancipação social deixa de ser dever moral ou obrigação política para passar a ser celebração do espírito e ponto onde a libertação dos conteúdos recalcados cruza o desvio mágico. Dito doutro modo, Freud encontra por fim em Fourrier a sua lente de refracção e Marx pode passar de mito a mimo.