CARTA DE LISBOA – Revolta em dois tempos – por Pedro Godinho

lisboa

 

I. Grave alla tedesca 

A Grécia era o elo mais fraco.

Primeiro foi a conivência  – tu cá tu lá, somos todos europeus – com a oligarquia corrupta, e alternadeira, das secções locais do PPE e do PSE.

Enquanto a dominação do eixo foi aceite, e os fluxos se orientavam para a Pangermania, os gastos e desvios foram tolerados – tal como o embelezamento das contas nacionais, com a assessoria especializada da Goldman Sachs e as palas nos olhos das instituições , para entrar no mundo €uro.

Mudaram os tempos, mudaram-se-lhes as vontades. E vá de sacar da artilharia pesada para forçar uma rendição sem condições – nas palavras duma fonte do governo português, era preciso que “ficassem mas amochassem” – fazendo cair toda a sua força e ira sobre os hereges.

Havia que fixar o exemplo.

Para que outros não repetissem o atrevimento de questionar o dogma e  hierarquia da nova Roma – über alles.

O perigo: a Alemanha parece não ter aprendido nada. Repete os mesmos comportamentos – agora, parafraseando Clausewitz, “por outros meios” – que geraram duas grandes guerras, pelo Lebensraum.

 

II. Andante moderato quasi furioso

A democracia-cristã e a social-democracia foram criações euro-ocidentais.

Estas duas mundivisões esvaziaram-se.

(Talvez só pudessem ser alternativas de organização político-social enquanto no centro duma economia-mundo de crescimento suportado em periferias de cor ultramarina, que implodiu com o fim dos impérios coloniais bem como da bipolaridade da guerra fria – que garantia um papel, mesmo se subalterno, à plataforma Europa.)

O sector direito (responsável pelo homicídio da democracia cristã – numa execução civilizada do aldo morismo europeu) afastou as preocupações humanistas e assistencialistas e fez emergir, com todo o seu autoritarismo, o poder dos interesses dos mais fortes – versão social da lei natural da selva.

O sector esquerdo ainda não ultrapassou a fase de luto: uns ainda choram a ausência do querido Pai soviético; outros, perdida a convicção, converteram-se ao colaboracionismo interessado, em busca duma compensação pelos serviços prestados, em nome dum pretenso realismo; outros ainda, iguais a si mesmos, continuam a digladiar-se no sectarismo puritano do “a verdadeira esquerda sou eu”.

Mas, a história mostra-o, algo terá de acontecer.

As classes médias, burguesas, não aguentam por muito tempo, o empobrecimento e exclusão dos benefícios sociais.

Como tem acontecido, é de esperar que a mudança surja das periferias – onde sempre caíram, derrotados, os impérios.

Na Europa, da União prussiana, hoje, a Grécia é a mais periférica.

One comment

  1. Rui Oliveira

    Totalmente de acordo com o diagnóstico feito e obviamente solidário na indignação com o tratamento humilhante dado à Grécia e ao seu governo representativo. Talvez a “cedência” de manter o país no Euro com a reeestruturação a que obrigará venha a sair um tiro pela culatra ao poder germânico … Mas o debate, mais do que se a integração europeia sobrevem, tem de focar-se sobre uma análise profunda à realidade do capitalismo actual de forma a encontrar um projecto de resposta social que anime a esquerda. Há pistas …

    Gostar

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