A IDEIA – CARTA DE MÁRIO CESARINY A AFONSO CAUTELA

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Meu Caro Afonso Cautela 2-11-82

Tenho lido coisas suas na Capital, jornal. Por isso lhe escrevo para aí./ Lembra-se da sua loja alfarrábia?

Disseram-me que fechou tudo e as raras vezes que passei parecia mais que selado.

E acaso se lembra ainda de umas coisas que lhe deixei para ninguém querer?

Eu o que gostava que me tornasse eram aqueles cadernos-papel-mata-borrão-rosa-ao alto. Já não tenho nenhuns, nem do dedicado ao Pascoaes, nem do “Reimpressos cinco textos Colectivos etc”, nem do “Contribuição do ’Grupo Surrealista de Lisboa’” etc. (Os etc = os títulos já não são exactamente estes). Tem o Afonso Cautela algum devolvível [Ficou o Afonso Cautela com algum devolvível]? Não queria deixar isso para mim ma Galeria S. Mamede?, visto que encontrar-nos e ver-nos fisicamente, quase na praia, parece estar difícil.

O Professor Gandra – li a entrevista que v/ lhe fez – sem que ele o saiba, e ainda bem para ele, que não saiba, é do meu grupo. Quero dizer do Grupo Surrealista de Tomar, que ignora o Grupo Surrealista da Fundação Gulbenkian e ri muito sempre que lê do Grupo Surrealista de Minis//tros, da Assembleia e da Imprensa da II República Portugaleza. Pelo contrário a sua entrevista Gandra é uma bonita coisa. Porque é que v/ não me faz uma entrevista? An? Aqui há pouco fizeram uma que eu não gostei muito. Eu estava com uma pressão género 6-7 (arterial) mas o jornalista que decerto fez o seu melhor também não ajudou tudo e deixou no gravado algumas meias sílabas talvez salvadoras. Assim como saiu, foi o género “deixar toda a gente descansada” (ou descansar e deixar descansar, como diria o Outro). Por fim acusa-me de não transformar a realidade (não ser capaz de). Eu, a mim, talvez me transforme, ou me haja transformado, mas como é que se transforma a realidade? Não me diz? Por que é você não me faz uma entrevista? Sim, você? Eu gostava de responder, de dizer, a umas coisas, aliás boas para ele, que o Joaquim Manuel Magalhães tem escrito sobre mim na Capital. Seria um ponto ou partida. Ou irá contra a ética? Irá? (Por outro lado está quase saindo a tradução que fiz do Heliogabalo de Artaud. ARTAUD. Não?) 770433

Seu Mário Cesariny

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