A GALIZA COMO TAREFA – eclésia * – Ernesto V. Souza

Desde que em 1875 os senhores académicos Colmeiro e Madrazo assinaram em nome da Real Academia de la História de Espanha o informe contra o tomo III da História de Galicia de Manuel Murguia o debate histórico a respeito das fases primeiras e primitivas da história da Galiza misturou-se sempre de ideologia e programa político. A afirmação murguiana de uma Galiza conformada já por Celtas e Suevos, confrontou imediatamente o programa narrativo que a historiografia espanhola estava a levantar.

Tantos anos depois, a ideologia e o programa político continua a comprometer a nossa leitura da história, ou simplesmente a fazer parte dela. Documentos temos poucos, ou praticamente os mesmos, interpretações muitas e concentradas em épocas de redefinição política; e mesmo com os importantes estudos sobre a cultura, a época, os estudos dos restos textuais e arqueológicos conservados, a Historiografia da Espanha ou de Portugal continua a ter pouco interesse nem na época final do Império nem na Alta Idade Média.

Realmente, pouco podemos afirmar para além de que após a crise imperial do século III-IV houve um Reino Suevo da Galiza desde 409. Conhecemos pouco dos limites desse reino que a tradição fez chegar até às nascentes do Douro e percorrendo este viçoso vale todo o território compreendido a Norte até ao Atlântico, sendo a minhota Braga a capital mais conhecida deste reino, em que Tui, Mondonhedo, Iria, Lugo, Ourense, Porto, Coimbra, Lamego, eram também cabeças de importantes regiões.

A densa rede de paróquias deste território está documentada no Parochiale Sueuorum (Paroquial Suevo) ou Divisio Theodemiri. Manuscrito da segunda metade do século VI que reflete a organização administrativa e eclesiástica deste Reino suevo.

Uma relação de 134 paróquias, agrupadas em treze dioceses, sem equivalente na época em nenhuma outra província eclesiástica: as nove dioceses presentes no Concílio de Lugo, as quatro dioceses criadas a sul do Douro (Coimbra, Idanha, Lamego, Viseu) e a diocese dos Bretões, Britónia, na área mindoniense, no norte de Lugo.

Esta organização administrativa substitutiva, que noticia uma Galiza lucense e outra Bracarense e destaca a forte expansão do cristianismo na Província da Gallaecia, não foi ainda muito explicada por mais que se tenha destacado (Barreiro, Pena Granha, López Carreira, López Pereira) uma e outra vez a sua singularidade e a necessidade de estudar o poder eclesiástico, e a organização do vínculo assembleiar e administrativo do cristianismo nascente interagindo sobre formas de poder local e religioso ainda mais antigas, no momento de desaparição do poder e da estrutura política, administrativa, comercial romana.

A questão é fascinante e mais se a compararmos com a nula existência de outras sés episcopais no resto do Norte peninsular, apenas comparável a de territórios próximos geográfica e culturalmente aos centros de Poder ainda ligados, ou sobreviventes, por causa talvez disto mesmo, a Roma.

Para além dos Celtas os Suevos, destacados oponentes simbólicos de Iberos e Visigodos, e representantes na mitologia política galaica das ideias e características que o regionalismo e nacionalismo galego atribuíram aos galegos primitivos, resulta fascinante não apenas reivindicar o simbolismo narrativo da história quanto penetrar nessa Gallaecia que por volta do século III-IV e após um colapso testemunhado na arqueologia urbana (Coninbriga, Clunia Sulpicia), apresenta uma organização administrativa eclesiástica já conformada, ao ponto de permitir que essa estrutura, que se prolongaria depois ao longo dos séculos, definir os pontos de coesão interna e rotura de fase que farão emergir um dos primeiros reinos cristãos da Europa, com entidade comercial e dos primeiros em cunhar moeda.

* N.B: Eclésia (grego : Εκκλησίαekklesia), assembleia popular, congregação, aberta a todos os cidadãos.

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