EDITORIAL – Leilão de mentiras

logo editorial«Adhemar rouba, mas faz», foi o famoso slogan eleitoral do político brasileiro Adhemar de Barros. Mais parecendo uma invenção do grande Millôr Fernandes, ficou na história. «Adhemar rouba mas faz». A conclusão evidente é a de que os outros, roubando também, nada faziam. Esta sinceridade brutal não é possível numa campanha europeia, mas o que Passos Coelho ontem disse na sala de um hotel de Lisboa, cheia com jornalistas e gente ligada ao PSD e ao CDS, seria na versão adhemariana algo como – Roubámos, mas não prometemos o Paraíso- vamos continuar a roubar.

O que queremos? Queremos que os próximos quatro anos não sejam de sobressaltos, que as pessoas não saibam o que vai acontecer com salários, pensões, com os seus rendimentos ou com a sua vida. Que sejam quatro anos de segurança, estabilidade e previsibilidade”, disse Passos Coelho. Procurou transformar quatro anos de terrorismo económico perpetrado contra as camadas economicamente mais fragilizadas da população, numa imagem de seriedade – ou seja – o crime cometido contra os mais indefesos, o desemprego, a emigração maciça de quadros formados à custa dos nossos impostos, tudo o que de criminoso se fez para bajular elogios das instâncias comunitárias, é apresentado como acto meritório. Como se o roubo cometido fosse inevitável e quem fale em alternativas (por exemplo, congelamento de todas as contas que surgiram do nada) fale de medidas demagógicas – realista é sacar das reformas, destruir o tecido produtivo, atirar com jovens formados nas nossas universidades, pagas pelos nossos impostos, para o exílio forçado. tudo o resto é aldrabice eleitoral. E talvez seja. “Previsibilidade” é o termo-chave. « “previsibilidade e segurança de pensões actuais e futuras”. Mas onde é que se irão buscar os 600 milhões de euros que o Governo se comprometeu a pagar a Bruxelas ? É «previsível».

 “Um programa eleitoral não é um leilão de promessas”. Disse Portas. Pois não. Um programa eleitoral deveria ser a enumeração séria, ponderada e realista do que se vai fazer e constituir um contrato solene entre quem programa e quem, confiando, vota.  Quebrada a promessa, não cumprido o programa, deveria estar quebrado o vínculo e demitido o deputado.

Mas quem vota passa um cheque em branco a quem promete. Neste caso a quem promete não prometer.

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